Conversamos, há pouco, eu e um aluno da UFPB, sobre o modelo de jornalismo importado dos Estados Unidos, em 1950, por Pompeu de Sousa, o editor do “Diário Carioca”. A novidade indignou, prontamente, Nelson Rodrigues, uma das grandes expressões da dramaturgia brasileira e, na ocasião, também, jornalista de batente. Nelson e seus colegas escreviam, até ali,
Pompeu de Sousa (1914–1991), jornalista e professor cearense, nascido em Redenção. ▪ Fonte: Wikimedia
notícias com pontos de exclamação, nelas inserindo pensamentos críticos e frases de efeito.
A escola americana castrava-lhes a licença. Instituía o copy desk para textos meramente noticiosos. Ou seja, retirava de repórteres e redatores a possibilidade de interpretar aquilo que noticiavam, cada um a seu modo. Em vez da salada de estilos, o que o velho Pompeu pretendia era o modelo novo, de estilo único. Era a informação impessoal, desde a primeira até a última página.
A turma do copy desk então passou a reescrever tudo, de modo a levar ao leitor, no primeiro parágrafo, informes diretos sobre o que houve, onde, como, quando e por que. Proibia-se o “nariz de cera”, aquela introdução longa, prolixa e rebuscada, logo abaixo dos títulos. Os manuais de redação do jornalismo dito moderno exigiam abertura de notas em não muito mais do que cinco linhas. E decidiam que um substantivo vale mais do que dez adjetivos. Até hoje é assim.
Os manuais de redação do Estadão e de O Globo ajudaram a consolidar padrões de linguagem e edição no jornalismo brasileiro. ▪ Fonte: MLivre
A adjetivação de textos, no jornalismo diário, tornou-se uma exclusividade dos cronistas, dos articulistas de opinião, em cadernos específicos, não dos que produzem notícia, meramente notícia. Esta não mais conteria o “eu” nem o “nós”, se ambos os pronomes dissessem respeito aos que a redigissem. A adjetivação, se mantida, trairia o novo propósito.
Nos anos de 1950, a notícia ganhava “lead” (primeiro parágrafo com a informação primordial), “sub-lead” e “corpo da matéria”. Mudava-se a estrutura da redação jornalística a fim de organizá-la por ordem decrescente de importância: os detalhes mais relevantes sempre acima dos demais. Num mundo oriundo da revolução industrial, com mercado competitivo e gente apressada, o título e as primeiras linhas já deixariam o leitor razoavelmente informado dos fatos. O restante da leitura ficaria para mais tarde, na dependência do tempo e do interesse.
1950s: edições dos jornais Diário Carioca, Correio da Manhã e A Noite, do Rio de Janeiro. ▪ Fonte: Biblioteca Nacional
Outra exigência dos manuais: a do uso de termos compreendidos pelo leitor de pequena bagagem cultural, desde que não enfadem os mais cultos. Reside, nesse equilíbrio, a questão mais complexa da produção de textos jornalísticos. Ocorre-me, neste momento, a orientação jocosa d’O Globo a seus quadros de redatores, repórteres e correspondentes, por volta de 1980: “Beijo não é ósculo, mãe não é genitora, abraço não é amplexo nem deitado de costas é decúbito dorsal”.
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Ninguém se engane: a impessoalidade da notícia nunca significou sua imparcialidade. Há técnicas e meios para a exaltação e a depreciação de pessoas, ou acontecimentos, sem que, para tanto, sejam necessárias as impressões pessoais do repórter, ou do redator. Basta recorrer a quem, fora das Redações, assim o faça. Perceba-se a existência dos famosos “especialistas” em temas atinentes, por exemplo, ao mercado, à política e à economia. Há deles para todos os gostos. E atentem para o uso de substantivos como “gasto” e “investimento”, quando seu jornal preferido rebaixa ou enaltece aplicações governamentais, sobretudo estas.
Ocorre-me, agora, a lembrança do querido e saudoso Odilon Ribeiro Coutinho, num dos seus lamentos: “Quando a Imprensa está de bem comigo me trata por sociólogo. Quando não, por usineiro”.
Nelson Rodrigues (1912–1980), jornalista, cronista, romancista e dramaturgo pernambucano, nascido no Recife. ▪ Fonte: Wikimedia
Mas retomemos o rumo da conversa. É claro que a “copidescagem” de textos logo colidiria com o ego de muita gente. Nelson Rodrigues a isso se refere na crônica “Idiotas da objetividade” que acabo de reencontrar, prazerosamente, em edição de 2018 do site “Notícias Agrícolas”. O que inquietava, na ocasião, a moçada do agronegócio? – pergunto-me.
“Neste momento crucial quando se definem os rumos da sociedade brasileira, o Notícias Agrícolas recorre ao falecido jornalista Nelson Rodrigues para orientar todos que se preocupam com os destinos do Brasil”, dizia o texto de apresentação da saborosa crônica possivelmente retirada d’A Cabra Vadia, a coletânea lançada em 1970, com o selo da Eldorado Editora. Vamos a Nelson e divirtam-se.
Idiotas da objetividade
Sou da imprensa anterior ao copy desk. Tinha treze anos quando me iniciei no jornal, como repórter de polícia. Na redação não havia nada da aridez atual e pelo contrário: — era uma cova de delícias.
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O sujeito ganhava mal ou simplesmente não ganhava. Para comer, dependia de um vale utópico de cinco ou dez mil-réis. Mas tinha a compensação da glória. Quem redigia um atropelamento julgava-se um estilista. E a própria vaidade o remunerava. Cada qual era um pavão enfático. Escrevia na véspera e no dia seguinte via-se impresso, sem o retoque de uma vírgula. Havia uma volúpia autoral inenarrável. E nenhum estilo era profanado por uma emenda, jamais.
Durante várias gerações foi assim e sempre assim. De repente, explodiu o copy desk. Houve um impacto medonho. Qualquer um na redação, seja repórter de setor ou editorialista, tem uma sagrada vaidade estilística. E o copy desk não respeitava ninguém. Se lá aparecesse um Proust, seria reescrito do mesmo jeito. Sim, o copy desk instalou-se como a figura demoníaca da redação. Falei no demônio e pode parecer que foi o Príncipe das Trevas que criou a nova moda.
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Não, o abominável Pai da Mentira não é o autor do copy desk. Quem o lançou e promoveu foi Pompeu de Sousa. Era ainda o Diário Carioca, do Senador, do Danton. Não quero ser injusto, mesmo porque o Pompeu é meu amigo. Ele teve um pretexto, digamos assim, histórico, para tentar a inovação. Havia na imprensa uma massa de analfabetos. Saíam as coisas mais incríveis. Lembro-me de que alguém, num crime passional, terminou assim a matéria: — “E nem um goivinho ornava a cova dela”. Dirão vocês que esse fecho de ouro é puramente folclórico. Não sei e talvez. Mas saía coisa parecida. E o Pompeu trouxe para cá o que se fazia nos Estados Unidos: o copy desk.
Começava a nova imprensa. Primeiro, foi só o Diário Carioca; pouco depois, os outros, por imitação, o acompanharam. Rapidamente, os nossos jornais foram atacados de uma doença grave: a objetividade. Daí para o “idiota da objetividade” seria um passo. Certa vez, encontrei-me com o Moacir Werneck de Castro. Gosto muito dele e o saudei com a mais larga e cálida efusão. E o Moacir, com seu perfil de lord Byron, disse para mim, risonhamente: “Eu sou um idiota da objetividade”.
Mal sabiam os editores dos anos de 1950, e os que a estes se seguiram, que o jornalismo impresso pereceria, gradualmente, em razão do noticiário meramente factual, entre outras. A informação na Internet imediata, concomitante, decretou,
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sem dó nem piedade, a obsolescência do “ontem” em papel e tinta.
Os novos tempos impuseram o jornalismo analítico. Não mais basta aos jornais contar o que aconteceu. Fez-se preciso analisar os acontecimentos, falar das suas implicações no campo da saúde, da educação, da moradia, da economia, sempre que for o caso. Acontece que os profissionais do ramo com tal capacidade analítica custam caro. Aos patrões parece bem melhor o contrato de três pelo preço de um. Com isso, não há dúvida, eles estão a cavar o próprio túmulo. Não por acaso, a crise dos impressos, permanentemente agravada, soma falências incontáveis.
Atualmente, quero entender que os mais adentrados tenham as minhas saudades. Falo do cheiro da tinta, de exemplares atirados na varanda dos assinantes em cada amanhecer, do vazio deixado por bancas de revistas em praças, zonas praieiras e centros comerciais. Não é assim?