O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, surpreendeu muita gente ao citar Sócrates em um discurso sobre a Copa do Mundo de 2026. E não falava do filósofo grego que ensinou Atenas a pensar. Falava do brasileiro de barba cerrada, passes precisos e ideias perigosamente livres: o capitão da Democracia Corinthiana, movimento que defendia a participação dos jogadores nas decisões do clube e apoiava a redemocratização do Brasil, isso em plena ditadura militar.
Zohran Mamdani, atual prefeito de Nova York (EUA) ▪️ Fonte: @edc.nyc
Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, futebolista, treinador e médico brasileiro ▪️ Fonte: Colorsport
Estudou sozinho. Passou em concursos públicos quando a palavra "autodidata" ainda significava alguém que aprendia por necessidade, não por vaidade ou por diletantismo.
O emprego no IBGE lhe deu prestígio, mas não riqueza. Casado com Dona Guiomar, foi morar numa casa de chão batido, sem conforto e sem luxo. E ali começou uma das mais improváveis bibliotecas familiares da história brasileira.
Vieram os filhos. E vieram os nomes. O primeiro nasceu em Belém do Pará, numa noite de fevereiro de 1954. Dona Guiomar tentou argumentar. Tentou negociar. Tentou apelar para o bom senso. Mas Seu Raimundo estava lendo Platão. Era uma batalha perdida.
Sócrates (1960) ▪️ Facebook: Foot Nostalgie
Depois vieram Sóstenes, convocado diretamente dos Atos dos Apóstolos. E depois Sófocles, arrancado das páginas da tragédia grega.
A essa altura, os cartórios de Belém já deviam suspeitar que estavam diante de um serial killer de nomes comuns.
Mas Seu Raimundo continuava lendo. Lia com a mesma intensidade com que trabalhava. Lia com a mesma disciplina com que criava os filhos.
Lia porque sabia que existem pessoas que acumulam dinheiro e existem pessoas que acumulam mundos.
Xenofonte (c. 371 a.C.), militar, historiador e escritor, importante discípulo de Sócrates, autor da obra-prima Anábase ▪️ Fonte: Enciclopédia Britannica
Foi quando Dona Guiomar realizou um dos maiores atos de resistência da história conjugal brasileira. Ameaçou divorciar-se.
Nem Platão teria argumentos suficientes. Nem o próprio Sócrates.
E assim nasceu Raí, livre da condenação filosófica que perseguiu os irmãos. Mas não livre da herança principal. Porque o legado de Seu Raimundo nunca esteve nos nomes. Estava nos livros. Estava na ideia revolucionária de que um homem pode morar numa casa de terra batida e, ao mesmo tempo, conversar com filósofos gregos, apóstolos cristãos e dramaturgos imortais.
Talvez seja por isso que, tantos anos depois, um prefeito em Nova York pronuncie o nome Sócrates diante do mundo, e nós ainda prestemos atenção.
Alguns nomes atravessam fronteiras. Outros atravessam gerações. Mas os mais raros conseguem fazer as duas coisas ao mesmo tempo.









