Por mim, quem estaria na Academia Brasileira de Letras seria Caetano e não Gilberto Gil, como representante da MPB. Não que Gil não ...

Caetano e a filosofia do “por que não?”

caetano tropicalismo filosofia liberdade alegria modernidade
Por mim, quem estaria na Academia Brasileira de Letras seria Caetano e não Gilberto Gil, como representante da MPB. Não que Gil não mereça, isso ninguém discute, tal a sua importância como compositor e renovador de nossa música popular, mas é que Caetano é mais escritor, mais intelectual, mais pensador, isso também não se discute, creio eu. Caetano é mais literário, em suma. Mas pouco importa esse negócio de ABL para ambos, pois os dois estão além dessa mundanidade, ícones que são da cultura brasileira, de meados do século passado até agora. A propósito, não consigo imaginar Caetano de fardão.

caetano tropicalismo filosofia liberdade alegria modernidade
Caetano Veloso ▪️ GD'Art
Por que Gil e não Caetano entrou para a ABL? Sabe-se lá. Talvez porque o primeiro tenha se candidatado e o outro não; e talvez porque Gil, tendo sido ministro do atual presidente em governo anterior, tenha arregimentado mais simpatias partidárias dentre os companheiros acadêmicos. São muitos os fatores que contam numa eleição acadêmica, sabemos nós, e nem sempre são os de caráter estritamente literário/intelectual que decidem. Pouco importa. O fato é que, para o bem e/ou para o mal, Gil academicizou-se e Caetano não, o que talvez tenha sido até melhor para sua biografia.

caetano tropicalismo filosofia liberdade alegria modernidade
Gilberto Gil ▪️ GD'Art
Ouso pensar que a carreira artística de Caetano começou a deslanchar a partir da célebre canção “Alegria, alegria”, que ele cantou num festival da época, se não me engano acompanhado pelos Mutantes, com desafiadoras guitarras e tudo, e cujo refrão era exatamente “Por que não?”. Lembro-me bem dos versos iniciais:

Caminhando contra o vento sem lenço e sem documento, no sol de quase dezembro, eu vou”
Isto soa como uma verdadeira declaração de princípios, tão diferente do que se dizia e se fazia àquele tempo, em termos de MPB, que surpreendeu positivamente o público, que ali identificou, no ato, uma coisa nova que surgia no cenário musical, cultural e comportamental do país. Era já o tropicalismo que se anunciava, corroborado por Gil, que cantou, na mesma ocasião, a também histórica “Domingo no parque”. Eram os geniais baianos dizendo (cantando), literalmente com todas as letras, a que tinham vindo nas nem sempre acolhedoras plagas cariocas e paulistanas.

caetano tropicalismo filosofia liberdade alegria modernidade
Caetano Veloso ▪️ Fonte: Editora Cultrix/Amazon
A essas alturas, a MPB estava se despedindo do chamado samba-canção, despedida essa que começara com o surgimento da bossa-nova e que iria se completar com o tropicalismo e as canções de protesto, estas de cunho eminentemente político, face o autoritarismo instalado no país em 1964. O samba-canção, para quem não se lembra, cantava os amores e as dores de cotovelo; não podia, portanto, atender as demandas de um público mais jovem, mais politizado e mais exigente. As questões afetivas individuais passaram a importar menos que as questões sociais.

Todavia, creio que cabe aqui uma observação: Caetano e Gil assumiram menos ostensivamente o protesto político que, por exemplo, Vandré e Chico Buarque, que foram mais explícitos na contestação. O confronto dos dois primeiros com o “establishment” deu-se mais através de ritmos e letras inovadores, assim como na própria atitude pessoal de ambos, na área do comportamento, e não se diga, por isso, que tiveram menos importância política no Brasil conservador daqueles idos.

“Caminhando contra o vento/sem lenço e sem documento” quer dizer muita coisa num ambiente mais ou menos bem comportado, onde ainda reinava o lamento de Antônio Maria: “Ninguém me ama”.
caetano tropicalismo filosofia liberdade alegria modernidade
Caetano Veloso ▪️ Fonte: Editora Cultrix/Amazon
Ora, que importa se não sou amado; mesmo assim, vou adiante, contra tudo e todos, de peito nu e aberto, parece cantar em contraponto Caetano. Os jovens do Brasil inteiro compreenderam o recado e foram seguindo o jovem baiano de cabelos encaracolados e trajes subversivos, inaugurando uma nova modernidade brasileira, pode-se dizer.

Não fossem Caetano, Gil, Rita Lee e tantos mais, como seríamos hoje? Certamente menos modernos, creio eu. As ovelhas negras são sempre necessárias, se não para desencaminhar completamente os rebanhos, pelo menos para adverti-los de que o pensamento único e igual é escravizante, monótono e empobrecedor.

Caetano escreveu e escreve em jornais e revistas, e publicou livros. É de fato um pensador, para além das canções; alguém que problematiza o país e opina suas certezas e indecisões; é um participante da vida nacional há mais de meio século, e os seus assumidos e atuais cabelos brancos não embaçam o brilho de sempre de seu olhar perscrutador. É simultaneamente Santo Amaro da Purificação, Salvador, Rio, São Paulo, América Latina, Paris e Londres. Depois de Tom Jobim, talvez seja o mais cosmopolita de nossos compositores. A despeito de tudo isso, José Guilherme Merquior chamou-o de “subintelectual de miolo-mole”. Vejam só. Deve ter se arrependido depois, quem sabe.

caetano tropicalismo filosofia liberdade alegria modernidade
Luiz Carlos Maciel ▪️ Facebook: @FalaCaetano
Luiz Carlos Maciel, renomado pensador da contracultura e de grande influência cultural nos anos 1960 e 1970, em artigo publicado em O PASQUIM, em julho de 1971, fez uma lúcida constatação: “Os críticos, aqui, se acostumaram a ver em Caetano não só o criador, como o teorizador, o crítico cultural etc. O próprio Caetano confirma, em parte, a imagem quando, em entrevistas, defende as mais suas posições do que as suas músicas em si”. É exatamente assim até hoje. Caetano não é só um compositor e um cantor, ele é um intelectual que reflete sobre a política e a cultura, diferente de outros colegas de ofício que não exercem a cidadania com essa intensidade que é sua. O próprio Chico Buarque, que também sempre foi um reconhecido intelectual, não teorizou tanto quanto o baiano.

“Por que não?”, por si só, é uma frase que vale por um tratado filosófico; continua e continuará sendo um slogan atualíssimo. Em todas as áreas da vida, podemos ousar: “Por que não?”. Quantas discussões e dúvidas poderiam ser resolvidas com um simples “Por que não?”. Caetano até hoje continua a nos provocar com essas três palavrinhas. E aí reside sua renovada genialidade e sua eterna juventude, para além, muito além, dos dogmas e dos fardões.

Caetano Veloso canta Alegria, Alegria no 3º Festival da Música Popular Brasileira, em outubro de 1967, no Teatro Record Centro, em São Paulo
Só há pouco descobri que o verso “nada no bolso ou nas mãos” da canção Alegria, alegria, foi tirado do livro As palavras, de Sartre, exatamente da última página, significando toda a liberdade existencialista. Eis aí o ainda jovem Caetano misturando, com leveza, música e filosofia, o que nunca deixou de fazer em sua vasta obra de compositor.

Hoje em dia ele parece mais bem comportado, ao menos na aparência; afinal, é um jovem octogenário, em quem cai bem uma certa sobriedade. “Desafiador e terno, inteligente e carismático, complexo e contundente”, assim o definiu o crítico Pedro Duarte, acrescentando: “Caetano permanece o mesmo em mutação”, o que é uma verdade. E se alguém menos sábio por acaso questionasse essa sua postura atual, certamente ele responderia com aquele seu jeito doce e zen, encerrando a conversa: “Por que não?”.

COMENTÁRIOS

leia também

Postagens mais visitadas