“Nada se compara à beleza das paisagens montanhosas do Iémen. Recortadas em picos fantásticos de todos os tipos, as falésias rochosas conferem um ar selvagem a uma vista que, de outra forma, possui o mais pacífico encanto.
Vales verdejantes, em alguns trechos arborizados e entremeados por riachos de águas cristalinas; campos inclinados, repletos de plantações e flores silvestres; encostas em terraços ou cobertas pela selva - tudo é tão exuberante, tão verdejante, que transforma completamente a nossa conceção da natureza da Arábia.
A fertilidade desta região é notória, e sempre foi, e a sua extensão é quase surpreendente, e não é de se admirar que Alexandre, o Grande, tenha pretendido, após a conquista da Índia, estabelecer-se no Iémen.”Walter Burton Harris, jornalista e viajante inglês, que visitou o Iémen em 1892. Tendo sido um dos primeiros ocidentais a conhecer muitas partes do país, relatou as suas impressões no livro “Uma Viagem pelo Iémen”.
O Iémen (Al-Jumhuriyah Al-Yamaniyah ou al-Yaman) ocupa, no extremo meridional da Península da Arábia, uma região compósita pelas planícies costeiras do Mar Vermelho e do Oceano Índico. Com a capital em Sana’a, cidade situada a pouco mais de 2.000 metros de altitude, o território iemenita caracteriza-se, sobretudo, por ser uma região montanhosa e vulcânica, que culmina no monte Djebel Suwaib
O Djebel Suwaib, com 3.666 metros de altitude, é o ponto mais elevado do Iêmen e de toda a Península Arábica. Suas encostas são cobertas por antigos terraços agrícolas. ▪ Foto: F. Pecchio
(também conhecido como Jabal an-Nabi Shu’ayb ou Jabal Hadur) - a montanha mais alta do país e de toda a Península Arábica, elevando-se a cerca de 3.666 metros acima do nível do mar - constituindo o coração da al-jadra, “a verde”, ou Arabia Felix (Arábia Feliz), a oeste, e zonas de mesetas e montanhas secas e áridas ocasionalmente atravessadas por curtos e férteis vales.
Crê-se que o nome Iémen poderá advir de duas possiveis origens: por um lado, deYamin (“mão direita”), devido à sua orientação geográfica, com localização na ponta sul da Península Arábica e, por outro, derivado de Yumn, que significa “felicidade” ou “bênção”, estando na origem da designação clássica Arabia Felix atribuída à região.
O reino lendário de Ma’in, localizado ao longo da faixa desértica conhecida pelas suas dunas transversais e longitudinais (seif), que se estendem em direção ao famoso deserto de Rub’ al-Khali1,
1 Rub’ al-Khali(Quarteirão Vazio), a maior e mais atroz superfície ininterrupta de areia do mundo, com uma superfície de cerca de 647.500 km² e com temperaturas que chegam a ultrapassar, à sombra, os 50ºC)
chamada Sayhad pelos geógrafos árabes medievais, hoje conhecida como Ramlat al-Sab’atayn (Areias dos Dois Setes), que exportava incenso para o Egito no século XIV a.C., é o primeiro de que se tem notícia em terras do Iémen.
O Rub' al-Khali, conhecido como "Quarteirão Vazio", é o maior deserto contínuo de areia do mundo, estendendo-se por cerca de 650 mil km² no sul da Península Arábica. ▪ Foto: C. Oberman
No tempo dos Romanos, este cotovelo de montanhas que parece querer separar o mar Vermelho do golfo de Aden era conhecido por ser um recanto de fertilidade num continente desértico. Era daqui que provinham as grandes caravanas de camelos carregadas de incenso e mirra, sedas, pérolas, prata e ouro. A Bíblia refere a mais famosa destas caravanas, a que levou a Jerusalém a rainha de Saba’ (ou Sheba), identificada no Alcorão como Bilkis, “com camelos carregados de especiarias, muito ouro, e pedras preciosas (...) Nunca mais houve uma tão grande abundância de especiarias como aquelas que a rainha de Saba’ ofereceu ao rei Salomão”.
A visita da Rainha de Sabá ao rei Salomão ▪ Arte: Edward John Poynter, 1890 ▪ Art Gallery of New South Wales, Sydney, Austrália.
A atual República do Iémen foi formada a 22 de maio de 1990, através da unificação de dois estados soberanos distintos: a República Árabe do Iémen (Iémen do Norte) e a República Democrática Popular do Iémen (Iémen do Sul). Conforme estipulado no acordo de unificação, Sana’a, a antiga capital do Iémen do Norte, funciona como a capital política do país, enquanto Aden, antiga capital do Iémen do Sul, funciona como centro económico. As duas partes do Iémen conheceram histórias notavelmente diferentes: historicamente sob a soberania do Império Otomano e depois um reino independente, o do Norte tornou-se uma república em 1962 após um golpe militar. Por sua vez o Iémen do Sul fez parte do Império Britânico (que controlava o importante porto de Aden) de 1839 a 1967.
Vista panorâmica da Cidade Velha de Sana'a, capital do Iémen. Reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO, destaca-se pelas casas-torres de tijolos ornamentadas com delicados frisos de gesso branco. ▪ Foto: Hamza Shiban
Saba’ foi durante mais de mil anos o reino mais importante do Sul da Arábia, o Estado ancestral ao qual todos os Iemenitas gostam de fazer remontar as suas origens. Situava-se na dobra dum esconso montanhoso, no eixo dos caminhos que desaguavam na grande rota principal que seguia para norte, para o Mediterrâneo, a dois meses de viagem, se tudo corresse bem. As caravanas incluíam por vezes cáfilas de centenas de camelos.
O orgulho de Saba’ era a Grande Barragem de Ma’rib (Sadd Ma’rib), um enorme dique de terra compactada com cerca de 620 metros de comprimento e 20 metros de altura, que cortava as colinas de Balaq,
A construção da Grande Barragem de Ma´rib, em antiga ilustração. ▪ Arte: Burton ▪ Wikimedia
reforçado com pedras esculpidas, vertedouros, comportas, bacias de decantação e um longo canal que levava à bacia de distribuição, cuja versão original remonta ao século VIII a.C.. Fechava uma garganta e retinha uma quantidade de água da chuva, que escorria das montanhas, suficiente para permitir o cultivo de milhares de hectares na orla do deserto e abastecer as caravanas.
O Alcorão regista o fim do reino de Saba’, atribuindo o desmoronamento da sua barragem, em 570 d.C. (o ano em que o profeta Maomé nasceu), à ira Divina: as pessoas tinham-se afastado de Deus, “por isso fizemos abater sobre elas as águas do dilúvio (...) e transformámos os seus verdejantes jardins em jardins que davam frutos amargos e tamariscos”, pode ler-se na Surah Saba’ (Capítulo 34, Versículo 16). Na realidade, o declínio de Saba’ tinha começado já no século I, quando os navegadores aprenderam a servir-se das monções como ventos favoráveis que lhes empurravam os barcos pelo mar Vermelho até à Índia durante todo o verão, e os traziam de volta no inverno. Tal como o comércio marítimo quebrou o monopólio das caravanas, a ascensão do cristianismo fez baixar a procura das fragrâncias usadas nos rituais pagãos, como o olíbano, a principal mercadoria do comércio terrestre. Um reino de Saba’ enfraquecido caiu por duas vezes sob domínio etíope, e a grande barragem cedeu, ainda que laboriosamente reparada diversas vezes antes do colapso final.
As ruínas da Grande Barragem de Ma´rib, construída no século VIII a.C., testemunham uma das maiores obras de engenharia hidráulica da Antiguidade, responsável por irrigar extensas áreas do antigo reino de Sabá. ▪ Foto: H. Grobe
Outros baluartes ao longo da rota das caravanas conheceram idêntico declínio, acelerado pelos ataques das tribos beduínas, irritadas com a perda de tributos, e o Iémen tornou-se num dos lugares mais regressivos da região, onde não havia estradas pavimentadas e as epidemias grassavam. Um anco encurralado e esquecido, de dinastias rivais e tribos que tinham como único denominador comum a submissão à nova fé do Islão.
No Iémen, tudo aparenta ser uma espécie de monocromo de conformidade. Nada parece condizer. Tudo é desafiadora e literalmente diferente e esplêndido, desde as casas semelhantes a castelos de areia tirados de um conto de fadas à
O Dar al-Hajar (Palácio da Rocha), nos arredores de Sana´a, é um dos edifícios mais emblemáticos da arquitetura tradicional iemenita. ▪ Foto: T. Swala
estranha miscelânea que é a indumentária do cidadão-guerreiro, personalizando e enfeitando amorosamente a sua moto, trajando a sua adaga curvada (jambiya), a saia futah e o casaco desportivo, enquanto masca indolentemente um pouco de seco khat, uma planta cujas folhas contêm catinona, um estimulante natural semelhante à anfetamina.
Das rochosas pastagens de montanha nos contrafortes sobranceiros à costa do mar Vermelho, toda a península apresenta um claro declive de oeste para leste, onde o relevo dos escarpados montes Harraz forma uma barreira suficientemente alta para reter os húmidos ventos estivais que sopram do Índico, obrigando-os a subir, arrefecer e libertar a sua carga de água. Isto acontece em repentinas chuvadas, que se precipitam pelas vertentes íngremes e seguem o traçado dos profundos uadis (cursos de água) escavados ao longo de milénios, até a última gota ter sido sugada pelo solo ressequido, geralmente muito antes de chegar ao mar. De resto, as precipitações são tão imprevisíveis quanto violentas, e tão localizadas que pode facilmente acontecer uma estrada ser varrida pela enxurrada enquanto uma aldeia, a poucas centenas de metros de distância, continuar ressequida como um osso velho.
Nas montanhas Haraz, aldeias de pedra se espalham entre terraços agrícolas e vales profundos, caracterizando a paisagem tradicional das terras altas do Iémen. ▪ Foto: R. Rod Waddington
Um olhar solícito pelo mapa diz-nos que o Iémen faz fronteira terrestre, a norte, com o Reino da Arábia Saudita (Al-Mamlakah al-ʿArabiyyah al-Suʿudiyyah) e com Oman (Saltanat ʿuman) a leste, possuindo ainda fronteiras marítimas, a oeste e a sul, com a República do Djibouti (Jumhuriyah Jibuti), a Eritreia (Ertra) e a Somália (As-Sumal ou Jamhuuriyadda Dimuqraadiga Soomaaliya), através do Mar Vermelho (Al-Bahr Al-Ahmar) e do Golfo de Aden (‘Adan), controlando o acesso dos navios que se dirigem para o Mediterrâneo, através do Canal do Suez (Qanat al-Suways).
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Para quem o aborda vindo do mar Vermelho, o Iémen desengana por parecer uma simples extensão da África, que fica a menos de 50 km de distância, no estrangulamento do mar Vermelho conhecido como Bab al-Mandab (“Porta das Lágrimas”), com os seus 32 km de largura. À entrada fica Al-Mukha (ou Moca, famosa globalmente como o berço do comércio de café no século XV) e a estreita faixa costeira de Tihamat, que significa “terra quente”, descrição bem apropriada da estreita planície litoral. A humidade é intensa e o vento sopra carregado de areia. Um poço, uma bomba de água que funciona aos arquejos e meia dúzia de palmeiras recordam-nos que a vida é possível. As pessoas têm, em geral, a pele mais escura, com feições que denunciam uma ancestralidade africana, e as aldeias de telhados de palha fazem lembrar os kraals da África Austral.
Foto: Wikimedia
A leste das montanhas estende-se um planalto desértico, que ocupa três quintas partes da superfície do Iémen. As montanhas do país são de origem vulcânica, com existência de fontes termais e fumarolas (aberturas vulcânicas)
2 O território do Iémen é situado diretamente sobre a junção de três placas tectónicas (Arábica, Africana e Somali) e está geologicamente ligado ao complexo sistema mais ativo da região do Mar Vermelho (Grande Vale do Rift).
atestando uma contínua atividade sísmica subterrânea2.
Na zona oriental, correspondente ao antigo Iémen do Sul, o território divide-se em três regiões. A primeira é uma estreita franja de costas banhadas pelo Golfo de Aden, que se estende por cerca de 1.400 km. A partir dessa franja, levanta-se bruscamente o planalto de Djebel al-Hasha, com uma altitude de 3.227 metros. O planalto é cortado por dois rios principais, o Hadhramaut, de curso permanente, e o Masila, de curso temporário. Na direção noroeste, o planalto desce lentamente até fundir-se com o deserto, que constitui a terceira região do país. Foi neste local onde o café (qahwah, em árabe) foi cultivado comercialmente pela primeira vez e, antes da introdução das plantas de café em outras partes do mundo, foi por muito tempo a única fonte desse precioso grão.
Os terraços agrícolas das montanhas do Iémen abrigam plantações de café de altitude. O café de Moca, originário dessa região, tornou-se conhecido no comércio internacional.
A ilha de Socotra (Sokotra ou Suqutra) – cujo nome deriva de uma palavra sânscrita que significa “ilha lar de felicidade” –, situada a cerca de 350 quilómetros ao largo da costa sul do Iémen, à entrada do Golfo de Aden, consiste essencialmente de um árido planalto que se ergue a 1.430 metros de altitude, mas a estreita faixa de planície e os vales costeiros produzem boas colheitas e tâmaras, além de incenso, mirra, olíbano e aloés. O olíbano provém do suco leitoso que escorre de cortes praticados na casca da árvore e que em seguida endurece,
Uma árvore de olíbano (Boswellia sacra), cultivada no sul da Península Arábica. De sua casca extrai-se a resina aromática comercializada desde a Antiguidade e muito utilizada em ritos religiosos, perfumes e medicamentos. ▪ Wikimedia
formando concreções semitransparentes, amarelas ou esverdeadas. Esta rica resina aromática é muito apreciada, pelo menos desde o tempo dos antigos egípcios, como um incenso utilizado nas cerimónias de culto e como medicamento. A historicamente ilustre rota do olíbano começava no Golfo de Aden, numa praia junto à base de um negro promontório vulcânico conhecido pelo nome de Hisn al-Ghurab (“fortaleza dos corvos”).
Igualmente abundantes são as palmeiras sangue-de-dragão, assim chamadas devido à sua resina escarlate, outrora usada com fins medicinais e hoje principalmente utilizada para dar colorido a lacas e vernizes, em especial os que se aplicam nos violinos. Os habitantes de Socotra são de um fascinador exotismo. Uma ancestralidade mista – árabe, africana, grega e portuguesa – testemunha a importante situação estratégica da ilha nas rotas comerciais entre o Ocidente e o Oriente. Foram cristãos até ao século XVII, altura a partir da qual o Islão passou a ser a religião dominante. Muitos dos ilhéus falam ainda uma língua aparentada com o antigo e extinto idioma himiarita da Arábia pré-islâmica.
A árvore-sangue-de-dragão (Dracaena cinnabari) ocorre naturalmente apenas em Socotra. Sua copa em forma de guarda-chuva tornou-se um dos símbolos do arquipélago. ▪ Foto: R. Waddington
A antiga Ma’rib (Mryb) é hoje uma cidade fantasma, abandonada às hanish (“víboras-silvadoras”), mas mesmo ao lado nasceu uma nova Ma’rib, descaradamente deslocada na sua ostentosa modernidade. Um hotel de quatro estrelas, batizado com o nome da rainha Bilkis, ergue-se junto às ruínas de um templo onde a própria soberana talvez tenha feito alguns dos seus sacrifícios que lhe mereceram as censuras de Salomão.
A Ma´rib moderna cresceu ao redor do antigo oásis de Sabá e tornou-se um dos principais centros urbanos do leste do Iêmen, impulsionada pela produção de petróleo e gás natural. ▪ Wikimedia
Sobre as origens da capital iemenita, Sana’a, “a pérola da Arábia”, situada no coração da zona setentrional do país, a pouco mais de 2.100 metros acima do nível do mar, que ainda hoje mantém a sua aparência medieval, e se julga ter sido fundada há mais de 2.500 anos, existem apenas conjeturas. Uma lenda fala de Shem, o filho mais velho do bíblico Noah (Noé). Diz-se que terá sido distraído por um pássaro que apanhou um ramo no bico, enquanto ele construía uma casa no monte Alian. Shem considerou isso um sinal de Deus e seguiu a ave, que acabou por deixar cair o ramo na base da colina de Jabal Nukum,
Uma rua estreita da Cidade Velha de Sana´a, onde casas de tijolos centenárias se unem por passagens suspensas. ▪ Foto: R. Waddington
com 30 metros de altura. Conta-se que Shem terá edificado uma casa neste local e fundado uma povoação que, de início, teria o seu nome. Mais tarde, viria a chamar-se Azal e, por fim, Sana’a. Situada na junção das rotas das caravanas, Sana’a tornar-se-ia num próspero pólo comercial no primeiro milénio com a ajuda de jardineiros, talhadores de alabastro e tecelões.
Cerca de metade da muralha da cidade ainda existe e a parte mais velha data do século III. O curioso é que, à margem de quaisquer fábulas, a cidade parece dever o seu nome a essa muralha, que tinha 12 quilómetros de comprimento, 14 de altura e 4 de largura, pois Sana’a quer dizer “bem defendida”. Das sete entradas iniciais (Bab al-Sabah, Bab al-Balaqah, Bab al-Satrat, Bab Khuzaimah, Bab al-Roum, Bab Shu’ub e Bab al-Yaman), hoje existem cinco em uso: a Bab Khuzaimah (no limite sul da cidade, associado ao cemitério), Bab al-Yaman (Portão do Iémen; a principal entrada sul e a mais icónica e ornamentada da cidade, cuja estrutura foi construída pelo comandante otomano Ahmed Fedhi Basha), Bab al-Sabah (o tradicional portão ocidental), Bab Shu’ub (localizada na parte norte da cidade murada) e a Bab al-Satrat (o portão principal voltado para leste), e os seus pesados portões são trancados e guardados à noite por soldados.
Bab al-Yaman (Portão do Iémen) é a entrada histórica da Cidade Velha de Sana´a. Construído no período medieval, permanece como um dos principais símbolos da capital iemenita. ▪ Foto: R. Waddington
É aqui que a arquitetura de contos de fadas do Iémen encontra a sua expressão mais exuberante, em torres de tijolo e argila enfeitadas como um bolo de casamento, com janelas, coruchéus e frisos brancos cheios de arabescos e retorcidos. À noite, a medina brilha suavemente através de dezenas de janelas ornamentadas (takhrim), de alabastros leitosos ou de minúsculos painéis de vidro de todas as cores. As casas-torre de vários andares, construídas em pedra basáltica escura e tijolo, são decoradas com frisos intrincados e belas janelas esculpidas. A mesquita mais notável de Sana’a, a Al-Jami’ al-Kabir (Grande Mesquita), contém um santuário sagrado que outrora foi um dos principais objetos de veneração dos zaidis ou zaiditas (sectários do zaidismo, uma corrente dissidente do islamismo xiita que acredita que o imam, principal figura de liderança religiosa e espiritual,
A Grande Mesquita de Sana´a, fundada no século VII, é uma das mais antigas do mundo islâmico. Seu minarete e sua cúpula se destacam entre as casas históricas da Cidade Velha durante a noite. ▪ Foto: R. Waddington
recebe conhecimento religioso e, portanto, liderança, através da aprendizagem, e não por designação divina, pelo que a jurisprudência por meio do raciocínio, ou itjihad, e da analogia, ou qiyas, é priorizada em detrimento da obediência e do misticismo).
O lendário explorador, viajante e estudioso berbere-marroquino natural de Tânger, Ibn Battuta, escreveu sobre a beleza de Sana’a: “Sana’a é uma cidade grande e bela. É construída de barro vermelho cozido (yajour) e gesso e vitaris qamariya, e é repleta de árvores, áreas verdes bustan e frutos (...) As ruas são construídas de pedra. Assim, quando chove, a chuva limpa todas as ruas”. O intrépido viajante e aventureiro italiano Ludovico di Varthema, que viajou pelo Iémen disfarçado de peregrino muçulmano, em 1503 descreveu-a no seu Itinerario de Ludouico de Varthema Bolognese (publicado em 1510) como uma grande cidade, muito bela e antiga, com 4.000 edifícios, muitos jardins e muralhas muito grandes e fortes, capazes de resistir a cercos pesados. O alemão Ulrich Jasper Seetzen, também conhecido como Musa Al-Hakim, ao serviço do czar russo, confirmou, em 1801, os elogios de muitos viajantes, que descreviam Sana’a como a mais bela cidade do Oriente. Esta afirmação viria ainda a ser posteriormente corroborada pelo viajante e fotógrafo de guias de viagens alemão, Hans Helfritz, quando escreveu, em 1930, que Sana’a era uma das poucas cidades do mundo que não desapontava ao segundo olhar.
As casas tradicionais da Cidade Velha de Sana´a distinguem-se pelas fachadas de tijolos decoradas e janelas com vitrais coloridos, uma das marcas da arquitetura iemenita. ▪ Foto: R. Waddington
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura declarou Sana’a e a cidade murada de Shibam (uma das metrópoles mais antigas do mundo a usar o princípio da construção vertical feita de argila, que podem ter até sete andares de altura, e chamada nos anos 30 do século XX pela exploradora britânica Freya Stark como a “Manhattan do Deserto”) Património Cultural da Humanidade, desencadeando um projeto internacional para a preservação e restauração de todo o acervo medieval.
Shibam, no vale de Hadramaut, é famosa por seus edifícios de adobe com até onze andares, erguidos há séculos. O conjunto urbano, Patrimônio Mundial da UNESCO, é conhecido como a "Manhattan do deserto". ▪ Foto: T. Swala
Os iemenitas são, na sua maioria, de origem árabe, distribuídos em três grupos principais, de acordo com a forma de vida: agricultores sedentários, população urbana e pastores nómadas. O árabe é a língua oficial. Os iemenitas de origem do norte, por exemplo, dizem descender de mesopotâmicos que entraram na região no 1.º milénio a.C., e afirmam ter ascendência da figura bíblica Isma’il (Ismael). O grupo do sul, que representa o antigo bastião do sul da Arábia, diz descender de Qahtan, o bíblico Joktan. Regida por um sólido código de honra tribal (qabyala), sob o ponto de vista religioso a população iemenita divide-se entre
Nas montanhas do Iémen, cultivos em terraços e pequenos rebanhos caracterizam o modo de vida das comunidades rurais há séculos. ▪ Foto: R. Waddington
o ramo sunita ou sunni (ortodoxos que baseiam os seus conhecimentos no Alcorão, nas “tradições” e nas quatro “escolas da lei”: a hanafita ou hanafi; a hanbalita ou hanbali; a malikita e a shafiita) e a corrente shi’ita Zaidiyyah.
No território do antigo Iémen do Norte, a agricultura e a pecuária desenvolvem-se nas áreas de altitudes intermediárias, cujas encostas foram transformadas em terraços cultiváveis. Na produção de cereais, destacam-se o sorgo, o trigo, o milho e a cevada. Também se cultivam hortaliças, cítricos, damasco, pêssego, uva e batata, além de culturas comerciais como café, algodão, cana-de-açúcar e gergelim. Os pastos cobrem cerca de um terço das terras férteis e permitem criar cabras, ovelhas, vacas, asnos e dromedários, estas últimas espécies utilizadas, em grande escala, no transporte de pessoas e cargas. O Iémen desenvolveu também uma considerável frota pesqueira, com capitais nacionais e estrangeiros, que pesca principalmente sardinha, cavala e siba (choco).
Barcos de pesca no porto de Al Mukalla, principal cidade da região de Hadramaut. A atividade pesqueira é uma das bases da economia e da vida cotidiana no litoral iemenita. ▪ Foto: R. Waddington
O território do Iémen não contém jazidas minerais significativas. As principais riquezas minerais são o petróleo, gás natural, ouro, cobre, chumbo, molibdénio e zinco. O sector industrial encontra-se claramente dividido entre o artesanato tradicional, como o ramo têxtil, e as indústrias modernas. As exportações são muito inferiores às importações, o que gera um avultado deficit comercial, compensado pelas remessas dos emigrantes que trabalham noutros países e pelos empréstimos externos, sobretudo do Reino da Arábia Saudita. O comércio para o exterior flui sobretudo pelos portos de Al-Hudaydah, Salif e de al-Muja. As cidades de Aden, Sana’a e Seiyun Hadhramaut contam com aeroportos internacionais a operar regularmente.
O Museu Nacional de Aden, instalado no histórico Palácio do Sultão de Lahej, reúne peças arqueológicas que documentam a história do sul da Península Arábica.
O Museu Nacional de Arqueologia de Aden, fundado originalmente em 1966, conserva vestígios das civilizações que se sucederam no sul da Arábia. No Museu Etnográfico Nacional há coleções do artesanato tradicional iemenita. A literatura oral é rica em provérbios, contos, expressões místicas e poesia. A literatura escrita, mais limitada, prefere os temas históricos e teológicos, as biografias e a poesia.
Depois da fusão dos dois Estados do Iémen, a bandeira do “Teto da Arábia” apresenta-nos um plano horizontal tricolor, com as três matizes outrora adoptadas pelo pan-arabismo, vermelho (representando a unidade nacional e o sangue dos mártires derramado na luta pela independência e pela liberdade), branco (a pureza e a esperança num futuro brilhante e radiante) e negro (o passado sombrio do país, marcado pela opressão, pelo domínio colonial e pela dominação monárquica), simbolizando a unidade e a história do mundo árabe.
Iémen ▪ YT Scenic Relaxation
O Iémen tem vivido numa instabilidade crónica desde o fim dos anos setenta. Enquanto berço de civilizações e religiões monoteístas, a região sempre foi sacudida por batalhas derivadas de antagonismos entre projetos de poder das suas lideranças (tribais, estatais, seculares e outras) e que levam as diferenças civilizacionais e religiosas ao campo de disputas político-institucionais e militares. Não obstante, mesmo perante cisões, guerras e desafios, a cultura iemenita pulsa, em cores, versos e melodias, como uma poderosa afirmação de identidade e esperança do seu povo.