Há anos venho lutando para que se faça mais pela memória de Augusto dos Anjos. Quando tomei posse na Academia Paraibana de Letras...

Depois da morte, ainda teremos filhos?

Há anos venho lutando para que se faça mais pela memória de Augusto dos Anjos. Quando tomei posse na Academia Paraibana de Letras, em 2020, levei uma muda do Tamarindo de Augusto, plantada por mim, com sementes de uma vagem que peguei embaixo de sua copa, no espaço que foi, outrora, o Engenho Pau d’Arco. Plantei a muda na APL. Ela floresceu, mas tivemos de mudá-la de lugar, por estar sufocada por uma buganvília e uma mangueira. Estamos esperando que ela dê sinal de vida.

GD'Art
Recebo, nestes dias, com muito pesar, a notícia de que o Tamarindo original está morrendo. Notícias que vieram de fora. Não é só triste; é, sobretudo, constrangedor que saibamos da morte iminente do Tamarindo por pessoas de fora da Paraíba, mas que se preocupam com o nosso tesouro cultural mais do que nós mesmos. É profundamente constrangedor saber que o Tamarindo esteja precisando de cuidados urgentes, sem que as providências cabíveis sejam tomadas imediatamente. Tamarindo que já transcendeu o seu corpo meramente vegetal e se transformou em árvore mítica, no bom sentido da palavra grega; árvore simbólica da maior importância, seja ela biográfica, histórica, cultural, literária ou espiritual, como mostram os dois belíssimos sonetos de Augusto dos Anjos, Debaixo do Tamarindo e Vozes da Morte.

Em um soneto, o poeta, que revela a simbiose que une os carvalhos vegetais e os Carvalhos humanos, sobrenome de sua família materna, afirma também a certeza da permanência imaterial de sua sombra, de seu espírito, que haverá de ficar sob a sua copa, debaixo de seus galhos eternizados. No outro, a certeza de que, depois da morte, ambos, o Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos e o Tamarindo, que faz parte da paleontologia dos carvalhos, ainda terão filhos.

GD'Art
E, apesar dessa riqueza imaterial, não se dá à memória do Poeta, um dos maiores da Língua Portuguesa, a devida retribuição de cuidar do que é a maior de todas as memórias vegetais da poesia brasileira.

Diante de tantos rumores e das notícias ruins, fui procurar a palavra de quem vive perto do Tamarindo e se dedica de corpo e alma à memória de Augusto. Busquei a ajuda de Aderaldo Elias, presidente do Memorial Augusto dos Anjos, onde era a casa da ama de leite Guilhermina, eternizada, também, no soneto Ricordanza della mia Giuventù. Aderaldo me disse que o Tamarindo está, infelizmente, num processo de morte; surgiram buracos no seu tronco, verdadeiras crateras, cuja origem é desconhecida. A SUDEMA foi acionada e colocou câmeras de vigilância para saber o que aconteceu, se algum animal silvestre contribuiu para o fato. Espera-se o laudo. A Secretaria de Cultura também foi acionada, mas, de concreto, não existe nada. Enquanto isso, o tempo trabalha contra a erosão de uma árvore com mais de trezentos anos, tão mítica quanto a Oliveira do Erecteion, na Acrópole grega, representada por uma muda sempre cuidada, atraindo a atenção de quem visita o monumento.

Augusto dos Anjos ▪️ GD'Art
Não sei o que irá ocorrer, infelizmente. Mas, pela falta de celeridade no cuidado com o nosso patrimônio cultural, pelo descaso com o que é verdadeiramente importante, receio que o Tamarindo não resista.

Como disse no início, há anos venho lutando por coisas simples. Uma é o Dia de Augusto dos Anjos, que implantamos no âmbito da Academia Paraibana de Letras e comemoramos, pela primeira vez, no ano passado. Soube, através do escritor e professor Emerson Barros de Aguiar, que está em tramitação na Câmara Municipal de João Pessoa um projeto, de autoria do vereador Marcos Henriques, para a implantação oficial do Dia de Augusto dos Anjos, o que é uma grande vitória.

Também implantamos, no âmbito da APL, o passeio anual Nos Passos de Augusto, já na sua terceira versão, com a quarta para acontecer em novembro próximo. Esperamos que isso passe para o calendário da cidade, assim como haverá de ser aprovado o projeto do Dia de Augusto dos Anjos. Do mesmo modo, na esteira do passeio, o nosso objetivo é que a autoridade pública competente identifique a Rua Duque de Caxias, sem precisar mudar o seu nome, como Rua de Augusto dos Anjos, pelo fato de o poeta ali ter morado, escrito, estudado, dado aulas e se casado, nos anos de 1908 a 1910, quando ainda se chamava Rua Direita.

Vídeo-documentário produzido pelo documentarista Hélio Costa
São pequenas ações que podem ser feitas sem o dispêndio de recursos, apenas com boa vontade. Já o Tamarindo necessita de cuidados de especialistas e de recursos, que poderiam sair da iniciativa privada. Porém, seguindo a indignação do meu amigo recém-falecido, o poeta Alexei Bueno, um dos maiores especialistas no Poeta do Eu, vejo que, na nossa Paraíba, muitos homens ricos se servem da cultura como o verniz que se passa em um móvel, apenas para brilhar aos olhos dos ingênuos.

Que o Tamarindo tenha melhor sorte. Que a repercussão negativa e lamentável da sua situação leve a atitudes concretas para a sua restauração e que ele se recupere, para a nossa ventura, do “envelhecimento da nervura”.

COMENTÁRIOS

leia também

Postagens mais visitadas