Todos os dias entro no ambulatório trazendo comigo protocolos, diretrizes e decisões terapêuticas complexas, e saio levando algo que ...

A grandeza dos pequenos gestos: reflexões de uma oncologista no SUS

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Todos os dias entro no ambulatório trazendo comigo protocolos, diretrizes e decisões terapêuticas complexas, e saio levando algo que não encontro nos livros. Meus pacientes oncológicos do SUS têm me ensinado uma lição silenciosa e profunda: a grandeza dos pequenos gestos.

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Fonte: HNL
São mais de três décadas vivenciando o SUS por meio do Hospital Napoleão Laureano, em João Pessoa, na Paraíba, fundação que se consolidou como centro de referência no tratamento do câncer em nosso Estado.

Ao longo desse período, acompanhei importantes avanços científicos na oncologia. Entretanto, mais marcante que as transformações técnicas foi a transformação interior que essa trajetória produziu em mim.

O hospital nasceu do ideal de um médico paraibano que fez da própria existência um compromisso com os mais vulneráveis. Dr. Napoleão Rodrigues Laureano registrou palavras que atravessam gerações e permanecem como referência ética:

“[...] Portanto, se minha vida for necessária para que os cancerosos tenham melhor sorte, que Deus disponha dela.”
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Napoleão Laureano (1914–1951), médico, professor e político paraibano, que se dedicou à medicina clínica e à saúde pública. Seu nome foi escolhido para o hospital especializado no tratamento do câncer na capital paraibana, em reconhecimento à sua trajetória profissional e ao legado que deixou para a medicina no estado. ▪ Wikimedia
Muitos pacientes saem de cidades longínquas ainda na madrugada. Utilizam ônibus, vans ou ambulâncias organizadas pelas prefeituras do interior, enfrentando horas de estrada, limitações materiais e incertezas.

Chegam trazendo exames, por vezes amassados ou manchados pela longa viagem, guardados com zelo em pequenas bolsas junto ao peito. Alguns não dispõem sequer de relógio; o tempo
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é marcado pelo horário do transporte de retorno. Há receio de perder o ônibus, de permanecer na capital sem abrigo. Em muitas ocasiões, chegam com fome.

Entretanto, raramente chegam com queixas.

Observa-se uma dignidade silenciosa que não se impõe, mas se revela.

Vivemos em um tempo de tecnologia sofisticada, terapias personalizadas e avanços extraordinários na oncologia. Celebramos — e devemos celebrar — cada conquista científica. Mas, paralelamente a tudo isso, existe uma dimensão da medicina que não cabe em congressos: a do encontro.

Cora Coralina escreveu:

“Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.”
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Cora Coralina (1889–1985), poeta, contista e cronista nascida na cidade de Goiás. Publicou seu primeiro livro aos 75 anos, reunindo versos inspirados na vida cotidiana, na memória, na infância e na cultura do interior do Brasil. ▪ Wikimedia
Na prática da oncologia pública, essa reciprocidade torna-se concreta. Enquanto transmito conhecimento técnico, recebo lições de resiliência, fé e gratidão. A atuação no SUS envolve elevado volume assistencial e múltiplas demandas. Cada consulta, porém, carrega não apenas a complexidade biológica da doença, mas também a história individual e familiar que a acompanha. O câncer não atinge apenas um órgão; repercute na estrutura emocional, social
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e econômica do paciente e de seus familiares.

Escutar, nesse contexto, constitui um ato ético fundamental.

A escuta exige atenção ao não dito, sensibilidade diante das fragilidades e disponibilidade interior, mesmo sob a pressão do tempo. Muitas vezes, o alívio do paciente decorre não apenas da prescrição medicamentosa, mas do fato de ter sido verdadeiramente ouvido.

Há pacientes que, mesmo diante de diagnósticos difíceis, mantêm uma serenidade que desconcerta. Dizem: “Estou nas mãos de Deus.” E não é resignação passiva. É confiança ativa. É fé como estrutura interior.

No silêncio de cada consulta, aprendo que a verdadeira força não está na ausência de fragilidade, mas na coragem de permanecer humano.
Não romantizo a dor. O sofrimento é real, duro, muitas vezes injusto. Mas há algo que me comove profundamente: a capacidade de agradecer mesmo em meio a inúmeras incertezas.

Em um mundo que valoriza o extraordinário, eles me ensinam o valor do ordinário bem vivido.

Um aperto de mão demorado. Um olhar de gratidão e um “obrigado por me ouvir”. São pequenos gestos, mas carregam uma grandeza que sustenta vocações.

Madre Teresa de Calcutá recorda:

“Não podemos fazer grandes coisas, apenas pequenas coisas com grande amor.”
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Madre Teresa (1910–1997), religiosa católica nascida em Skopje, atual Macedônia do Norte. Integrante da Congregação das Irmãs de Loreto, fundou em 1950 as Missionárias da Caridade, dedicadas ao atendimento de pessoas pobres, doentes e moribundas, principalmente em Calcutá, na Índia. Foi canonizada pelo Vaticano em 2016. ▪ Wikimedia
A medicina me ensinou a tratar tumores. Meus pacientes me ensinam a cuidar de pessoas. E talvez seja isso que sustente a alma de quem cuida: perceber que, mesmo quando não podemos prometer cura, sempre podemos oferecer presença.

No silêncio de cada consulta, aprendo que a verdadeira força não está na ausência de fragilidade, mas na coragem de permanecer humano.

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A grandeza dos pequenos gestos manifesta-se na coragem de quem atravessa a madrugada em busca de tratamento, na humildade de quem chega com poucos recursos, mas mantém a gratidão, na escuta que acolhe o invisível e, por vezes, no abraço que encerra a consulta com mais significado do que qualquer palavra.

Se a ciência salva vidas, é a humanidade que confere sentido ao ato de salvá-las.
CORALINA, Cora. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 9. ed. São Paulo: Global, 2001.
FUNDAÇÃO NAPOLEÃO LAUREANO. Declaração histórica institucional. João Pessoa: Fundação Napoleão Laureano, [s.d.].
TERESA DE CALCUTÁ. Frases. [S.l.: s.n.], [s.d.].

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