Ainda com a barra da calça cheia de pega-pinto, gostaria de esclarecer alguns fatos a respeito desta árvore tricentenária, o famoso Ta...

O tamarindo reverdeça ainda...

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Ainda com a barra da calça cheia de pega-pinto, gostaria de esclarecer alguns fatos a respeito desta árvore tricentenária, o famoso Tamarindo de Augusto dos Anjos, sob cuja fronde o poeta teria chorado, “com a canseira / De
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inexorabilíssimos trabalhos!” (todas as referências são da *Obra completa*, preparada por Alexei Bueno, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994. “Debaixo do Tamarindo”, p. 210).

Marquei com José Aderaldo Elias, presidente do Memorial Augusto dos Anjos, em Sapé, uma visita ao Tamarindo. Nesta segunda-feira, dia 20/07/2026, levei meus filhos, Ana Carolina e Daniel, e meus netos, Arthur e Clara, para que eles tivessem a rara oportunidade de conhecer a casa de Guilhermina, a ama de leite de Augusto dos Anjos, e o Tamarindo eternizado pelo poeta.

Inicialmente, fiz questão de que eles ouvissem a preleção de Aderaldo Elias sobre a vida do poeta, a casa que abriga o Memorial e as suas recitações emocionadas, cujo ardor, empenho e dedicação são louváveis, cuidando de maneira incansável da memória do poeta.

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Aderaldo Elias, professor, poeta e diretor do Memorial de Augusto dos Anjos (Sapé- PB)
Após a preleção inicial, dirigimo-nos ao que resta do Engenho Pau d’Arco para a visita principal, no que diz respeito aos meus interesses pessoais. O que pude constatar é que o Tamarindo necessita de cuidados urgentes. Até aí, o que se disse sobre ele, por intermédio da imprensa, é verdadeiro. Não há motivo, no entanto, para alardes e celeumas. Não há razão, sobretudo, para dizer que o Tamarindo está morrendo ou que o Tamarindo morreu. Como ser vivo que é, ele está morrendo, mas não é para hoje nem para amanhã.

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Não sou botânico, assim como todos os que se pronunciaram também não o são, mas pude constatar o vigor do Tamarindo. A decantada árvore está mais viva do que muitos que apregoam a sua morte. Como pude observar isso? Ela continua produzindo suas vagens e tendo filhos, que poderiam ser incontáveis. Veem-se, debaixo de sua copa, algumas mudas recentes que brotam, à revelia dos discursos alarmistas. Por outro lado, em alguns galhos que foram cortados pelos bombeiros, em poda preventiva, observam-se nitidamente novas florações, vicejantes, vigorosas, como a imponência do próprio Tamarindo.

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Quem o conhecia deve lembrar-se de um grande e grosso galho horizontal, à direita de quem se aproxima do Tamarindo. Esse galho foi cortado porque o seu peso poderia fazê-lo tombar. Não tombaria porque a árvore não aguenta mais o próprio peso, mas porque existe, ao seu redor, uma espécie de panela de formigueiro, cheia de buracos bem visíveis, que pode forçar a sua queda. Além dos cuidados com a própria árvore, em cujo tronco e em alguns galhos se podem ver alguns buracos, a urgência maior, creio, é cuidar da sua sustentação, protegendo-a de um possível deslizamento de terra.

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A minha visita atual, no entanto, abriu bem os meus olhos para o problema. O descaso não é só com o Tamarindo. É também com o entorno, com o solo, com o mato que está cobrindo o acesso; com a casa em que nasceu o poeta, cujo teto está cheio de goteiras, com o madeiramento precisando ser trocado; com a parede da igreja em que ele foi batizado, que está desabando, parede que também serve de muro à casa. O problema, portanto, é ainda maior do que pensamos, estando a merecer atenção e ações urgentes, não, repito, alarmismos, que mais parecem desejos fúnebres.

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Referi-me, no início deste texto, à minha calça cheia de “pega-pinto”. Poderia ser uma metáfora, mas não é. É a realidade do descaso, porque não basta tombar como patrimônio histórico-cultural; há que, sobretudo, tomar uma atitude que resulte na preservação continuada da nossa riqueza cultural. Ações pontuais servirão apenas para adiar o problema, não para resolvê-lo.

É quase uma coincidência que, em carta à sua mãe, Sinhá Mocinha, datada de 16 de julho de 1908 (p. 705), o poeta dê a notícia de que ele, o irmão Aprígio e o tio Alfredo, tiveram de sair, às pressas, de uma casa em que moravam (suponho que na Rua Direita, hoje Rua Duque de Caxias), mudando-se para a Rua Mãe dos Homens, nº 17, no Tambiá, porque a casa corria o risco de desabar sobre as suas cabeças. Com a situação que vi hoje, a casa em que nasceu o poeta corre o risco de desabamento, assim como o Tamarindo, não sobre a sua cabeça, mas sobre a sua imponente Sombra, que teima em permanecer ali.

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Capela do Senhor do Bonfim, onde se celebrou o batismo de Augusto dos Anjos pelo padre Antônio Pereira de Castro, vigário de São Miguel de Taipu, no antigo Engenho Pau d'Arco (Sapé-PB)
Num soneto pouco conhecido, “Dolências” (*Poemas esquecidos*), que jamais figuraria entre os “dez mais” de *Eu* e *Outra poesia*, o poeta deixa o seu apelo (p. 489):

“Quando eu morrer de novo, amigos, quando Eu, de saudades me despedaçando, De novo, triste e sem cantar, morrer, Nada se altere em sua marcha infinda – O tamarindo reverdeça ainda, A lua continue sempre a nascer.”

Em suma, o Tamarindo pede urgência, mas o seu entorno também sofre com o descaso. Ouçamos o Poeta e procuremos agir, objetivamente, para que o reverdecimento do Tamarindo, como testemunhei hoje, seja perene.

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