Na vida urbana a árvore é vítima, não é vilã. Homens também são vítimas de outros homens. Na esquina o sopro mais forte vi...

Árvore-homem

arvore derrubada natureza ecologia
Na vida urbana a árvore é vítima, não é vilã. Homens também são vítimas de outros homens. Na esquina o sopro mais forte vindo das nuvens e a agitação da chuva desequilibrada provocam o baque sobre fios, rua, carros e pessoas. De repente, a escuridão tempestuosa faz da noite o que é ela é noite, e apaga a artificial iluminação.

É o fim da sombra sob o calor extenuante, o término da fruta dependurada com sabor que é mais que alimento para o corpo, é caixa de memórias, de encontros, de brincadeiras. O tombo de uma, duas, dezenas de árvores é fruto de muitos erros. A árvore é vítima.

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O homem, ser pródigo em encontrar razões e culpados, olha o imenso ser desenraizado como um juiz impiedoso. Logo aponta: Eis a causa do problema do breu, da desconexão mundial, da via bloqueada, da vida interrompida. O corpo vegetal estirado causa dó a poucos. A maioria só enumera os transtornos. A árvore agora só importa que seja removida. Que venha o “rabecão” remover galhos, troncos, raízes e lhe dê destino longe dali, pois é preciso retirar o que “atrapalha”, a vida, não aquela caída, continua.

A árvore estirada inteira ao chão é como o pobre abatido a tiro ou atropelado na rua na contramão da vida. Lamento de poucos, infortúnio de alguns, atrapalho de muitos. Quem quer saber da raiz do homem plantado inadequadamente na pobreza e na violência? Alguém pergunta se havia espaço para crescer a base do vegetal quando um dia se tornar adulta? Poucos observam se será possível a evolução, se o tronco encontrará solo fértil e alcançará as alturas com firmeza. Ou o plantio só trará como certeza a queda a qualquer tempo, em um temporal.

Árvore-homem cai diante da forte tempestade. Homem-árvore desaba após muitas pancadas (i)naturais, E mesmo morto é inconveniência, afora para quem recebia a sua sombra,
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cuidado de sobrevivência.A lembrança do doce fruto, do balanço infantil no galho firme, a proteção à chuva, o abraço natural, é memória de raros.

A árvore que tem o tronco ferido, a copa serrada, a seiva que sangra. É o pássaro a perder o ninho seguro, o cão e o gato da rua que ficam sem a terra fria para deitar à sombra, a grama desprotegida que queimará sob o Sol. Fim de vida que desencadeia términos de vivências.

O homem cai bêbado, de tiro, de esquecimento. O corpo chamará atenção na hora em que estiver já frio, inerte. Na rua, atrapalha o fluxo da continuação. Causará até assombração, medo de ser confrontado com a vergonha, de ocupar espaço público sem autorização.

A árvore e o homem. Pobres corpos largados na rua no aguardo do recolhimento. Vítimas da negligência da tempestade dos homens. Galhos, raízes e folhas da planta serão largados em algum terreno para secar e decompor. Do outro será atirado à madeira de um caixão a desfazer-se abaixo a poucos palmos do chão numa cova rasa. Vítimas, não vilões.

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