Parte 1 — O santo distraído
Ah, meus caros e caras, sinto-me até constrangido de trazer a público um certo desconforto que irei expor linhas à frente. Andei me dando mal em muitas situações na vida; ou seja, em muitas dessas paradas, que é como dizem mais amiúde nos dias de hoje. Não é fácil fazer tal revelação.
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Ungido à condição de santo pelo papa João Paulo II em 1988, bem depois de quando nasci, isso me leva a crer que passei 38 anos devidamente desprotegido. Isso explica aquelas “bagaças” que tive de suportar, mas e depois? Cadê você, meu santinho?
Vejam que eu já andava todo pimpão, alardeando que também tinha meu santo protetor para fazer minhas promessas e me lembrar dele todas as noites, quando fosse dormir, pedindo sua proteção.
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Ao ocupar cadeira na corte celestial, São Roque Gonzales, como o leitor já desconfia, não teve cuidados comigo. E, quando deveria me proteger, permitiu que eu passasse por três cirurgias bravas, que sofresse acidentes, tivesse de me desfazer de patrimônio, que mudasse de cidade algumas vezes tentando ajeitar a vida, e não dava certo. Nada de meu santinho me dar uma força. E o pior de tudo: a quem devo reclamar?
Parte 2 — As oportunidades perdidas
Então, meus amigos, minhas amigas, com um santo desse para tutorar meus dias, não é fácil. Minha vida tem sido uma epopeia de oportunidades perdidas. Quando a hora é certa, o lugar não é aquele. Se o lugar é apropriado, a hora não o é. Nunca acerto a sintonia entre tempo e espaço. Assim, vou deixando ir embora as melhores marés, quando deveria navegar nos mares das oportunidades.
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Vou descrever o que recentemente descobri: oportunidade ímpar para levar adiante alguns projetos na seara da cultura. É bom que saibam: aí é onde ando ancorando minha canoa. Gostaria de deixar, como já mencionei, um espólio interessante às gerações futuras. Tenho conseguido algumas coisas nesse segmento, mas poderia ser mais. E qual a dificuldade? Ah, nada se faz sem o vil metal; precisamos correr atrás de licitações, leis de incentivo etc. Também andei à caça de quem se interessaria em bancar alguns projetos.
Havia gente muito disposta, e meu santinho nada de me avisar. Agora a torneira fechou, e a bronca é grande. Vocês já viram no noticiário um banco que andou distribuindo grana para filmes cujo enredo era a vida de políticos famosos? Distribuiu dinheiro a rodo, inclusive para muita ilicitude. Esse banco patrocinaria uma edição em capa dura, mil exemplares, de uma jornada poética pela nossa capital das acácias? Se financiou festanças sob a égide de Baco, deus do vinho e das safadezas, não nos presentearia com um coquetel para o lançamento de nossa obra? Coisa pouca, “merreca” diante do que temos visto nos noticiários.
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