Joaquim passou a concordar com o genro Noah, canadense da gema e aprendiz de português, acerca da falta de sentido de muitas das nossas expressões. “Para quem vem de fora, é mesmo difícil alcançar o significado do que falamos, dia sim e outro também”, comentou em recente conversa no nosso grupo de amigos, todos do mesmo prédio. Um deles pediu-lhe para falar daquilo que confunde o moço.
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De volta à mesa do sogro, fez toda a família rir do seu espanto com a resposta confusa ao pedido pela guloseima cuja receita Minas Gerais ofereceu ao restante do País. “Ou tem, ou não tem”, comentou com um Joaquim que emendava gargalhadas. E saibam que Noah já tinha sido avisado dessa possível confusão, ainda em Toronto, nos primeiros dias do casamento. Na ocasião, pensou que a mulher caricaturasse os modos e os ditos da própria gente para diverti-lo. Não, ela não exagerou.
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O cunhado lembrou-se da profusão de canais no YouTube criados por visitantes estrangeiros, a fim de expor o nonsense do que dizemos no dia a dia. “Expressões que só os brasileiros entendem” é o título comumente dado a esses vídeos.
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Ao que ouvimos de Joaquim, Noah logo se reconheceu nos sustos tomados por turistas e nômades digitais, gente de todos os continentes que largou o berço natal em busca do nosso sol, das nossas praias, dos nossos pratos, dos nossos hábitos. “Como uma carne pode ser verde?”, perguntou o moço mais para si do que para os que o cercavam na sala onde Carol deu os primeiros passos. Ocasionalmente, ele divertia a pequena plateia mais do que assim o faziam aqueles vídeos curtos. Isso acontecia sempre que citava casos pessoais. Falou, por exemplo, do quanto estranhou a pergunta da esposa a um roceiro quando ela então procurava a casa de uma prima do interior: “Essa ponte vai dar aonde?”.
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Joaquim sabia o quanto o verbo “dar”, aparentemente simples, é capaz de dar nós no juízo de muitos estrangeiros, em pontos diversos do Brasil. E nos perguntou: “Querem ver só?”. Queríamos.
Então, vieram os exemplos por ele colhidos em leituras sucessivas: “Deu ruim a festa, ontem à noite”. “Não deu conta do trabalho”. “A janela do quarto dá para a rua”. “Essa rua vai dar na principal”. “Deu o maior rolo”. “Deu-me um estalo”. “Deu uma de Mané”. E o verbo “arrumar”? Quantos significados! “Arrumar o carro”, isto é, consertá-lo; “Arrumar ingressos”, consegui-los; “Arrumar a mesa”, organizá-la; “Arrumar-se”, produzir-se, visualmente.
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Mas, a bem da verdade, não tinham a exata compreensão de como “não” pode significar “sim”. Passado dos 70, nosso amigo isso também não compreendia e teve que pesquisar.
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Metendo o bedelho (desculpa, Noah), eu e os meus botões entendemos, neste aspecto, que os espanhóis estão de melhor modo servidos. “Você pode me trazer água?”. E a resposta: "¡Cómo no!". Assim, também, os que falam a língua do marido de Carol: “Why not?”.
Não desejo fundir o juízo de nenhum visitante, fale o idioma que falar. Mas um “pois sim” a um apelo pode significar um “não” pronto e acabado em qualquer dos quadrantes deste enorme País Tropical. Ouçam um “pois sim” de alguém a quem vocês tenham pedido algo e esperem o atendimento sentados pelo resto da vida. Ironia pura, meus caros.
Soubemos que, aos trancos e barrancos, a crescente convivência faz Noah captar o sentido das nossas mensagens com boa margem de acerto. Tempo atrás,
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Esta história não poderia terminar sem outras anotações de um Noah abismado. Ei-las: “Acabou de começar”, “Agora, só amanhã”, “Daí, eu peguei e falei”, “Vou dar uma chegadinha”, “Você segue reto toda vida”, “Escuta só para você ver”, “Não conheço, mas sei quem é”, “O movimento tá parado”.
O sujeito cheio de vazios que me tornei não sabe se essa coisa pode ser gramaticalmente tomada por “paradoxo”, a figura de linguagem destinada a explicar a aproximação de termos e conceitos ilógicos entre si. Nem sabe do quanto isso ocorre em outros grupos linguísticos como o germânico e o eslavo. E então? Mas, desde já, estou com Carol e não abro. Cada povo com suas expressões e manias.












