Nos idos dos anos cinqüenta, época de grandes turbulências na política nacional, assumia a paróquia de Conceição do Piancó, alto sertã...

Os sermões de Chico Pereira

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Nos idos dos anos cinqüenta, época de grandes turbulências na política nacional, assumia a paróquia de Conceição do Piancó, alto sertão da Paraíba, o padre Chico Pereira — também conhecido como padre Pereira, tempos depois, em João Pessoa — passou a assinar F. Pereira da Nóbrega, em sua criação literária. O jovem vigário, inteligência aguçada, sorriso cativante, palavra fácil e envolvente, logo ganhou a simpatia e o carinho da população carente do lugarejo. Dava atenção a todos, sem distinção de sexo, idade e cor. A casa paroquial era frequentada por assíduos paroquianos, que a noite se acomodavam no alpendre para ouvirem, de queixo caído, as suas tiradas espirituosas.

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Igreja-matriz de Conceição do Piancó, Paraíba, nos anos 1950. ▪ Fonte: Instagram Conceição (adapt.)
E a cada dia essa admiração se tornava mais intensa, já havia sinais, aqui e ali, de exaltação cega e perigosa. Era Deus no céu e padre Pereira na terra. Quem não gostava nadinha dessa apegação eram alguns figurões, os coriféus da política local, que temiam o envolvimento em torno de sua figura carismática.

O tempo passou, o vigário seguiu outros rumos, mas deixou seu nome bem cravado na história da cidade. Mesmo agora, decorrido esse tempão, as lembranças da sua passagem por lá permanecem bem acesas.
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Talvez uma junção de fatores tenha concorrido para esse afeiçoamento. Alguns deles já foram narrados em outras ocasiões; exemplo, a sua participação na criação e aperfeiçoamento do "Ginásio Comercial Prof. Batista Leite". Também, quem haveria de esquecer o seu grito de guerra quando exigiu do púlpito que botassem abaixo o cabaré de João Cego, instalado numa das ruelas do aceiro da cidade, que escandalizava as famílias com a quebra da moral e dos bons costumes? A multidão seguiu à risca. Do cabaré só restou entulho; o proprietário e as meretrizes de mãos na cabeça ganharam as capoeiras.

É a vantagem da cidade pequena, as coisas acontecem de maneira espontânea, ganham vida, e se eternizam na tradição oral, no boca a boca; cada um dá a sua versão do ocorrido, sem prescindir dos enfeites e adornos. Dentre tantos acontecimentos marcantes, alguns se destacam e enchem a cidade de orgulho. Na cidade grande tudo se esvai com a pressa e o corre corre, não há história nem folclore que se sustentem.

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Foi no sossego e remanso da terrinha que o padre Pereira, se inspirou e se debruçou sobre papéis para escrever sua obra "Vingança, não". Livro de cunho memorialista, uma espécie de memória romanceada. A saga do pai arrastado para o infortúnio, vítima do mandonismo do coronelismo reinante, é retratada com a frieza de um cirurgião; cenas cruentas de um realismo macabro, escritas pelo filho, escritor estreante, mas que em momento algum se deixa trair pela emoção, mantém em todo trajeto da obra um equilíbrio factual.

O romance de costumes, "Rio Seco", também de autoria do então padre Pereira, onde ele denuncia com rigor e vigor, a injustiça e a calamidade a que seres humanos são submetidos, estranhos e degredados em seu próprio meio, é mais uma manifestação da sua ligação com Conceição do Piancó.

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Ascendentes do padre Chico Pereira. Seu pai, também chamado Chico Pereira, aparece nas imagens à esquerda e à direita. As demais fotografias retratam familiares do sacerdote e escritor sertanejo. Leia mais neste link.
Pois bem, a cidadezinha emprestou personagens reais, serviu de palco e de trama para os encontros e desencontros da desditosa Cecéu, forçada que foi a migrar do seu pequeno mundo, numa jornada dolorosa igual a de tantos outros que ainda hoje seguem numa busca incessante à procura da terra da promissão.

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