Mimo não era fácil. Arredio, desconfiado, de cara amarrada, com a boca para baixo, característica comum dos gatos da sua raça, o persa. Quando chegava gente em nossa casa, se escondia ou se afastava, para ficar olhando a distância, de preferência embaixo da mesa, recanto em que ele se considerava protegido.
Foto: M. Marques Jr
Sazonalmente, tinha os seus lugares preferidos. O canto da sala, à esquerda da televisão, de onde ficava, nos mirando ou descansando, sempre sobre um paninho ou uma toalha velha. De nada adiantava comprar casinhas, almofadas ou congêneres. Desdenhava, com a liberdade, superioridade e altivez que fizeram seus ancestrais serem divinizados, no antigo Egito dos Faraós, e levaram Baudelaire a dedicar-lhes três poemas, nas Flores do Mal, exaltando, quando sonham “as nobres atitudes/Das grandes esfinges alongadas, no fundo das solidões/Que parecem adormecer em um sonho sem fim” (tradução nossa).
Outro lugar preferido era a última cesta da fruteira, na cozinha. Se havia algo nessa cestinha, ele se aproximava olha para ela e, em seguida, olhava para nós, de modo enviesado, como se estivesse pedindo contas por aquela ousadia nossa, em ocupar um lugar que era, inalienavelmente, seu.
Foto: M. Marques Jr
Pouco dormia em nosso quarto. Acredito que o frio do ar-condicionado o incomodava, se bem que quando sentia calor, deitava esparramado embaixo do ventilador da sala, aproveitando a frieza da cerâmica do piso. Quando se dignava a dormir no quarto, era no tapete do banheiro. Chegava a ressonar.
Foto: M. Marques Jr
Era birrento, mas traía, muitas vezes, a sua doçura. Quando chegávamos, se deitava na nossa frente, empatando a passagem, para que lhe fizéssemos um carinho; agradecia, quando colocávamos
Foto: M. Marques Jr
De vez em quando, o gato brincalhão despertava de dentro do gato aborrecido. Para que Mr. Hyde desse lugar ao Dr. Jeckyll, bastava que balançássemos um cordão à sua frente ou que passássemos os dedos, como se fossem pernas correndo, pela lateral da cadeira ou do sofá. Lá vinha Mimo querendo pegá-los e, cheio de artimanhas, ficava à sorrelfa, procurando se esconder, até dar o bote.
Correr era um dos divertimentos preferidos dele. O problema é que ele queria brincar às dez horas da noite... Corria, corria e, depois, se escondia, na clássica pose do gato escondido com o rabo de fora.
Era birrento, sim, mas divertido e carinhoso, quando lhe convinha; atento de ficar de orelha em pé e em posição de alerta, à espera, olhando para a porta, quando sentia que alguém chegaria, principalmente Alcione ou eu.
Foto: M. Marques Jr
Era esperto. Bastava se falar em banho e tosa, que se escondia, relutando, quando encontrado, em entrar na casinha, para ser levado à loja de animais de estimação. Quando fazia um malfeito grande, tinha noção do que fizera e se escondia. Até certo ponto, vingativo. Se viajávamos e o deixávamos por um dia sozinho,
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Assim, era Mimo. Muito querido por nós e fazendo parte do nosso cotidiano, sendo ele mais dono da gente do que nós dele (não gosto dessa invenção de “tutor”. É tentar dourar a pílula ou dar odor de morango silvestre e frutas cítricas, àquilo que ele, por não suportar, enterrava...), Mimo nos trazia muita alegria, principalmente de sabermos que ele, ao sentir o barulho na porta, estaria nos aguardando.
Tinha 12 anos, de preto, que fora, tornou-se cinzento. Nos últimos tempos, já não corria com a mesma intensidade, cansando logo e procurando o seu esconderijo embaixo da mesa. Passou a comer menos, emagreceu mais do que o normal. O diagnóstico do veterinário, após três dias internados, foi uma pancada: falência renal. Despedimo-nos dele, com muito carinho. Mal tinha força para levantar a cabeça, mal abria os olhos. A tristeza nos tomou, mas saber que ele parou de sofrer e que estivemos do seu lado até os últimos instantes, é o que nos conforta.
Foto: M. Marques Jr
Requiescat in pace, Mimo.













