Uma travessia entre razão, memória e espiritualidade
Em Meu Encontro com Kardec, o escritor paraibano Carlos Romero constrói uma narrativa memorialista e reflexiva na qual o encontro com a obra de Allan Kardec ultrapassa o mero interesse doutrinário e transforma-se numa experiência existencial. O texto não se limita a apresentar uma adesão intelectual ao espiritismo; ele revela, sobretudo, a lenta metamorfose interior de um homem diante do mistério da vida, da morte e da permanência da consciência humana.
Hippolyte Léon Denizard Rivail (Lyon, 1804 – Paris, 1869) educador, autor, tradutor francês, discípulo do pedagogo Johann Heinrich Pestalozzi, e um dos pioneiros na pesquisa científica sobre fenômenos paranormais. Sob o pseudônimo de Allan Kardec notabilizou-se como Codificador do Espiritismo (neologismo por ele criado), que compilou em 5 volumes denominados o Pentateuco Espírita: O Livro dos Espíritos (1857), O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho segundo o Espiritismo (1864), O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868) ▪️ Fonte: @kardecpedia.com
O memorialismo empregado por Romero possui delicadeza e densidade psicológica. O “encontro” anunciado no título é menos físico do que simbólico. Trata-se de uma revelação íntima, quase silenciosa, em que o autor revisita lembranças, inquietações e percepções acumuladas ao longo da vida. O texto adquire, assim, um caráter confessional, mas sem cair na sentimentalidade fácil. Carlos Romero mantém sempre um refinamento estilístico que aproxima sua escrita da melhor tradição ensaística brasileira.
Carlos Romero (Lisboa, 2016) ▪️ Fonte: ALCR
Cecília Meireles /// Pedro Nava ▪️ Fonte: Arquivo Nacional
No plano simbólico, Kardec representa no livro a figura do mediador entre dois mundos: o da razão iluminista e o do mistério metafísico. Romero compreende que o verdadeiro drama humano nasce justamente da impossibilidade de separar completamente ambos. O homem moderno deseja provas, mas continua assombrado pelo infinito. É dessa contradição essencial que a obra retira sua força filosófica e literária.
Ao final, Meu Encontro com Kardec revela-se uma obra de introspecção elevada, escrita com inteligência, sobriedade e sensibilidade. Carlos Romero transforma a experiência espiritual em literatura de alta qualidade estética, evitando tanto o dogmatismo religioso quanto o ceticismo vazio. Seu texto permanece como uma reflexão madura sobre memória, transcendência e destino humano — uma obra em que pensamento e emoção caminham lado a lado, sob a luz serena da linguagem.
N. E.: Meu encontro com Kardec resultou de uma série de textos publicados no ano de 1999, no jornal A União, sob o título “Entrevistando Kardec”. O autor, naquela época, já estava, assim, comemorando com muita antecedência o bicentenário do Codificador. As crônicas foram inspiradas pelas frequentes visitas que Carlos Romero fazia com sua Alaurinda às livrarias do Quartier Latin, em Paris, particularmente a Leymarie, na rue Saint Jacques, em que Allan Kardec costumava ir, trabalhar, com a qual colaborava diretamente, e que levou o autor a conceber com ele uma entrevista imaginária. Nos tempos de hoje diríamos “uma entrevista virtual”, porém, baseada em fatos reais. A imaginação criada pelo autor serviu apenas de moldura à verdade histórica”. O livro tem prefácio de Octávio Caúmo, orelha de Germano Romero e foi lançado pela editora A União em 2004.











