Havia uma folha no caminho, com muitas linhas escritas, várias para serem contadas, outras tantas rasuradas. Sobre a terra, caída, solta...

A vida pede passagem

cronica sertao poesia agreste paisagem nordeste
Havia uma folha no caminho, com muitas linhas escritas, várias para serem contadas, outras tantas rasuradas. Sobre a terra, caída, solta ao sabor do vento rasteiro do fim da tarde. O chão de cimento, ornado pelo verde da grama, é aguado pelas chuvas intensas de um verão quente e, muitas vezes, molhado e abafado. E as linhas formam o esqueleto perfeito do que já fora parte de uma grande castanhola, uma costura sem agulhas, emenda da natureza.

cronica sertao poesia agreste paisagem nordeste
GD'Art
As linhas também surgem no caminho para os sertões. Nos mapas, as previsões são traçadas em linhas meteorologicamente analisadas. Pelas estradas, as chuvas se anunciam em nuvens, ventos e cores. O colorido azul-negro dá o tom do tamanho da chuva. E a falta de cor das gotas juntas cria um esbranquiçado que encobre serras e horizontes, feito um lençol que se desfaz no chão. Não há precipitação: a chuva sempre chega em boa hora.

E o incolor repinta de verde a paisagem. Verde alegria, verde viva, verde esperança, verde que se planta na terra antes amarronzada. A terra também tem sede, deseja água. O chão transforma as irregularidades do relevo em mãos para aparar o máximo de água, contê-la, poupá-la, pensando no futuro, quando as nuvens chuvosas se forem e o sol voltar a reinar absoluto. Esse tempo é certeza de voltar.

Porém, por enquanto, o Sertão festeja as chuvas. O céu está bonito, com nuvens de um azul em negritude. Os açudes vão se recompondo, os rios almejam novas chuvas para que possam ser realmente o que já foram e não apenas um leito seco de areia. Pequenos lagos represados e mesmo poças de água criam lindas imagens.

cronica sertao poesia agreste paisagem nordeste
GD'Art
A linha da estrada é testemunha da alegria dos sertões. A invernada segue, promete continuidade, verdeja da esperança à realidade, e o sertanejo reza para que assim seja. Os olhos chegam a marejar, úmidos pelo tempo da fartura. E vê-se o agricultor escrevendo linhas no chão, e quase não se enxergam os desenhos das folhas das elevações, apagadas pela água que se espalha.

Onde antes havia beleza de poeticidade seca, agora há poesia em verde. As folhas e linhas se renovam, surgem caligrafias de novas escritas, a vida pede passagem...

COMENTÁRIOS

leia também

Postagens mais visitadas