Os poetas são volúveis? Talvez. Porém, exige-lhes a sociedade uma certa compostura, e ele mesmo elege a sua musa a patamares tão elevados que lhe fica difícil encontrar esse amor. Nisso reside a “estrela inalcançável”, tão declamada por Silvino Olavo da Costa.
O destacado intelectual nasceu na Fazenda Lagoa do Açude, município de Esperança, deste Estado, em 27 de julho de 1897, filho do Coronel Manoel Joaquim Cândido e de dona Josepha Martins Costa.
Formado em Direito (1924), foi orador da turma e defendeu, em sua tese (Socialização e Estética do Direito) — publicada em plaquete —, as “inquietudes e ânsias vivazes pela entronização da Ideia Nova”, lembrando à nova geração “o dever de não trair a confiança dos que esperam dela a conquista de novos horizontes para o progresso do mundo”.
Representante do Simbolismo na Parahyba, publicou Cysnes (1924) e Sombra Iluminada (1927), com os quais foi aclamado pela crítica nacional. O êxito literário, porém, escondia um desejo ardente de amar.
Quando jovem, em sua terra natal, sofreu um grande golpe do destino: um amor proibido. Apaixonara-se por uma linda jovem. Sua mãe não aprovava aquele romance, pois ela era da família “Cambeba”, chegando a declarar: “Antes quero ver você doido na corrente do que casado com Severina”.
Por outro lado, seu pai queria que ele seguisse seus passos no comércio e na criação de gado, coisas que o menino sonhador não cogitava, já que pendia para as letras e era um aluno dedicado do externato esperancense, mantido por Juviniano Sobreira e Maria Augusta. Este casal foi o progenitor do Cel. Elysio Sobreira.
A conjugação dessas duas vontades não poderia resultar em outra coisa senão a fuga de casa. Foi então que Silvino foi morar na Capital, na casa de sua tia Henriqueta de Souza Maribondo, matriculando-se na Escola Pio XI, onde, por três vezes, ganhou a medalha de honra ao mérito.
É ele mesmo quem discorre de seus primeiros anos:
“Quando os meus olhos acordaram para o mundo e a vida se desdobrou diante dos meus olhos, imensa, resplandecente, quase desconhecida, com o prestígio fascinante de seus mistérios, a dor irredutível das
decepções começou a fazer luz sobre o meu espírito e a refletir no espelho sensível das minhas ânsias, que se estilizavam dentro dos meus sonhos como fórmulas imprecisas e nebulosas. Na trama ativa da vida, empolgou-me logo uma grande luta interior e a primeira dor nasceu, dominadora e tenaz.
De um lado, o homem, cativo da realidade implacável; de outro lado, o sonhador, o sofredor idealista, em cujo espírito esculpira-se-lhe a estátua de ouro da Arte como uma coisa fatal, deliciosa e torturante, inseparável para sempre do doloroso e do quimérico” (MARTINS: 2017, p. 27-29).
Sob esse prisma, elegeu o poeta a mulher ideal. Nela, a essência feminina transcende a beleza e o mistério. Ela representa a elegância reveladora para aquele que a ama; evoca o sentimento e a introspecção como fonte de inspiração poética. Tais qualidades couberam a Carmélia Borges, moça do Pilar, filha de Anísio e Virgínia, proprietários do Engenho Recreio.
Antes, porém, fora noivo da “jovem e graciosa Tércia” (MAURÍCIO: 1992, p. 41). Por essa época, o poeta residia na casa de uma prima, na Praça São Pedro Gonçalves, no Varadouro. Porém, conhecendo Carmélia, desfez o desposório. A ex-noiva teria jurado: “Ele vai casar, mas não vai viver com ela”.
Silvino, com aquela fama de volúvel que a *vox populi* disseminou por todo o Brasil, selou casamento civil em 28 de novembro de 1929. Foram seus padrinhos José Américo de Almeida e esposa, e Manoel Velloso Borges e esposa, em presença do juiz de paz Arnóbio César Falcão.
Coincidências à parte, quatro meses antes, no dia primeiro de julho, Severina casara-se com um importante empresário campinense, dono de um curtume. O casamento pomposo — comentou-me uma sua parente — foi um desagravo à moça pobre que fora, já que, até aquele tempo, seu pai (Francisco Jesuíno) ainda não se havia firmado no comércio de tintas e ferragens em Esperança, o que viera a acontecer pouco depois.
Após esse consórcio, o poeta apresentou-se bastante doente, recolhendo-se ao Pilar. A imprensa assim destacava:
“Atacado de ligeiro incômodo, esteve acamado, na cidade do Pilar, o sr. Silvino Olavo, oficial de gabinete da presidência do Estado” (O Jornal/RJ: 14/07/1929).
“Acha-se enfermo o conhecido homem de letras dr. Silvino Olavo, oficial de gabinete do presidente do Estado” (Diário de Pernambuco/PE: 07/07/1929).
Eram os primeiros sinais da esquizofrenia, doença que o acompanharia até o final de seus dias. Atuava como chefe de gabinete do presidente João Pessoa, que, em carta a Epitacinho, datada de 1º de julho de 1929, comentara: “Silvino Olavo está bem doente no Pilar, para onde foi em véspera de São João passar este dia com a noiva”.
Dias depois, apresentou sensível melhora. Por ordens médicas, fez um breve repouso no Pilar. Após uma “cura” momentânea, reassumiu o seu posto no governo da Paraíba.
Raul de Góes assim também descreve esses fatos, demonstrando surpresa, pois nada no amigo antevia qualquer distúrbio mental:
“[...] revelando no sorriso franco uma índole forte, generosa e cavalheiresca, nada em Silvino Olavo, nenhuma alteração em seus hábitos e maneiras deixava entrever ou perceber que irremediável insanidade estava minando as suas faculdades mentais. Foi, portanto, com verdadeira estupefação e doloroso pesar que os seus íntimos e a sociedade paraibana tomaram conhecimento de que aquele cérebro privilegiado dera sinais de profundo desequilíbrio” (Diário de Notícias: 02/02/1969).
Como que antevendo o seu mal, Olavo assim descreve em “Solilóquio de um suicida”:
“Que tenebroso mal é o da existência! E os pobres homens
estão sós no mundo!!! Oh! O império da loucura em que me
afundo, sem força que domine a consciência.
[...]
Que vê minha retina alucinada?
Que me impressionam estas pupilas pasmas?
— Uma ronda noturna de fantasmas
que vêm do nada e voltam para o nada!”
(Sombra Iluminada. Rio de Janeiro-RJ: 1927, ex-libris do autor).
O casamento é o destino comum dos noivos, muitas vezes inevitável. Um amor do passado assombrava os pombinhos; quiçá, naquele último ato, encontraria o poeta a paz tão desejada. Silvino e Carmélia assim contraíram festejadas núpcias.
O seu biógrafo, João de Deus Maurício, comenta em sua obra:
“O destino unia assim um casal cheio de planos: de um lado, um poeta desejoso de amar a vida inteira — Silvino Olavo da Costa — e, do outro, a beldade simbolizada numa flor: Maria Carmélia Veloso Borges da Costa” (MAURÍCIO: 1992, p. 56).
O enlace religioso de Olavo foi em 31 de outubro daquele ano. Estiveram presentes João José Maroja, prefeito da Capital, além do Coronel Elysio Sobreira, Dr. Edgar Saeger, João da Cunha Vinagre, João Batista de Ávila Lins, Heitor Santiago e Jocelyn Velloso Borges, e distinta sociedade pessoense. A cerimônia foi realizada pelo Padre Arthur Costa.
Naquela época, estava como a declamar a sua “Felicidade”, poema que encerra uma das páginas de seu primeiro livro (Cysnes):
“Minha felicidade — ó Musa — nem descreves
no dia em que eu tiver uma esposa amorosa
e pura, assim com um ar da Senhora das Neves,
como essa que há de vir, serena e luminosa!”
Não fora o poeta bem-sucedido em seu casório, já agravado pela doença mental, e, pouco tempo depois, aconteceu o divórcio de Carmélia, tal qual descrito em seu poema “Vana”:
“Foste o meu sonho alado, de um momento,
— sonho fugaz que nem se humanizou...
Vaga que veio, ao vórtice do vento,
bateu de encontro à praia e se quebrou...”.
Matusalém Souza, prefaciando *Badiva* (1997), nos dá a seguinte explicação:
“O poeta jamais fora feliz no amor porque a mulher amada, como religiosa, não romperia com os votos. Por isso mesmo, é que ela aparece, em toda a obra, marcada pela santidade, embora sob recurso metafórico peculiar ao poeta. Assim mesmo, ela o ama e o trata com respeito e com muita formalidade:
— ‘tome, doutor... Faça do livro um homem educado!’
Badiva fora o grande amor de Silvino Olavo que, pelas circunstâncias, não poderia — como suplica e lamenta o vate paraibano — concretizar-se de maneira oficial para o comum dos mortais — o casamento”.
Abandonado pelos amigos e longe da vida intelectual, ainda assim escrevia, em seus intervalos lúcidos, chegando a anunciar um novo livro, A Harmonia das Esferas.
Ele considerava a arte “até certo ponto, uma escapada da vida” e uma “aspiração consoladora dos grandes sofrimentos idealistas” (A União, Paraíba, 21/02/1926).
Silvino Olavo
São volúveis os poetas? De certo, até encontrarem o amor; o silogismo contrário também é verdadeiro...
Silvino Olavo faleceu em 26 de outubro de 1969, vítima de complicações renais, no Hospital Dr. João Ribeiro, em Campina Grande (PB).