Ai, que saudade me dá dos tempos em que fazia mala sem planejamento. Levava um monte de coisas desnecessárias, carregava dois, três vo...

Fazendo mala

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Ai, que saudade me dá dos tempos em que fazia mala sem planejamento. Levava um monte de coisas desnecessárias, carregava dois, três volumes, e a nécessaire dos remédios só tinha Melhoral e Vick Vaporub. Mentira! Era uma aventura inglória carregar tanto peso e sair deixando as malas nos guarda-volumes dos aeroportos mundo afora.

Mas hoje o inferno é o antes. Não sou uma pessoa prática, longe disso. Começo a mala de viagem alguns dias antes. Separo as possíveis roupas, lavo tudo, coloco em cima da cama e começo. O clima? Do lugar? Frio, quente, temperado? Calças, moletom, blusas, camisas, cardigans, casaco, echarpes, meias, tênis confortável, um ou dois? E se chover, e se fizer sol, e se esquentar muito, e se... Lembro da chuva toró que tomei em Buenos Aires e não tinha levado guarda-chuva. E cadê um para comprar? Agora o guarda-chuva vai na mochila de mão. Vai que chove... Seguro morreu de velho. E é assim que estou: “vivida” e segura. Ó céus!

Ai, que inveja das amigas que viajam um mês para longe com mala de bordo. Não consigo. Tenho sempre que ter as sobras, os espaços, para as compras. Nada grandioso, mas aqueles souvenirs, aquela ecobag, aquela camiseta, aquele óleo de lavanda para os meus sonhos, aquele perfume de laranja, aquele chocolate, aqueles cartões de arte dos museus, alguma coisinha da Uniqlo, loja japonesa para enlouquecer nas roupas modernas e práticas. Sem falar nos mercados. Aí me endoido. Os brincos, as comidas, os lenços, os pratinhos. Olha só para os nomes: Feira da Ladra (Lisboa), Feira do Jardim Secreto (SP), já me encanto.

As coisas miúdas são as mais difíceis: bolsinha para maquiagem, bijuterias, higiene pessoal e os remédios. Agora, tantos, tantos... Aqueles de uso contínuo. E se tiver uma cólica? Uma dor aguda? Um mal-estar? Tonteira? Tome Vounau. Antialérgico, probióticos, para a pressão, para isso e aquilo. Tenho medo de ser presa na esteira como contrabandista de pílulas.

Quando chega perto do dia da viagem, checo dez vezes o clima. Vai nevar? Em plena primavera? Casaco corta-vento, corta mesmo? Chapéu, protetor solar, livro para ler. A que horas? Sim, e agora, nos voos longos, tem-se que levar meias contra trombose, telefone com podcasts baixados, música e até comida. Pois voos econômicos não estão para te fartar. Por vezes vejo homens mais encorpados pedirem um segundo jantar, e na maioria das vezes não tem. Uma vez tive uma crise alérgica a shiitake em São Paulo e voei tomando água e fazendo xixi — imaginem naquele banheiro minúsculo, e eu com a minha claustrofobia, pois no avião só tinha Tylenol. Cheguei direto para o hospital da Unimed, tomar corticoide na veia. No geral, me viro bem e tento dominar os meus medos de avião. Não consigo imaginar como uma geringonça daquelas voa. E voa longe. Tento me abstrair. Mas, antes de sair de casa, apago tudo e deixo bilhetes para os filhos com as providências. E rezo. Rezo para todos os santos me trazerem de volta.

Hoje, para se viajar, há de se dominar um pouco de tudo no virtual: compras, reservas, pesquisas de roteiros, quanto custa andar de camelo, a distância daqui para ali, acessar todos os sites. E eu, analógica e do milênio passado, preciso de companhia: excursão ou amigas mais antenadas que desenrolam os iPhones. Sou boa companhia para andar, contemplar, sentar-me nos cafés, conversar, mas, para esse robô dublê de organizador de viagem, sou bem sofrível. Faço tudo no papel. Listas e listas. Copio e colo. E hoje, gente assim como eu perde tempo. Para não dizer o pior: perde o trem, perde o bonde, perde.

Fico a pensar na tripulação Artemis II e naquela equipe de três homens e uma mulher. Tudo flutuando e fazendo as necessidades de cabeça para baixo. E com aquele cenário e trilha de Pink Floyd. Que sensação será essa? E como fazem para esses foguetes voarem tanto, atravessarem tanto, viajarem tanto? Ontem assisti, emocionada, a uma nave a mais de 40 mil km por hora se transformar numa capsulazinha vagarosa para amerissagem. E aquelas pessoas de laranja saírem da nave — bote, balsa, navio — içadas, helicópteros e exames. De volta à Terra. Fico a imaginar como voltam, depois de tamanha aventura espacial. Espremidos, de cabeça para baixo, de repente chegam vivos. Sabe-se lá a que preço, a que gravidade, a que doenças poderiam ter. Mas quem se importa? As bagagens estão salvas. E as suas malas, com certeza mais enxutas e importantes que a minha.

Só sei que, para mim, viajar está ficando difícil: um emaranhado de coisas a ver, organizar, e ser resumida e básica ao máximo. Imaginem eu, que estou mais para as estampas de Frida Kahlo, ter que me uniformizar em preto e bege...

Nos aeroportos? Saudades daqueles bons dias de “posso ajudar?”, dos funcionários das companhias aéreas. Agora são máquinas para tudo: check-in, mala, tags e os totens mudos, todos que não falam nem ajudam. Sempre dependi da bondade dos estranhos, e estou longe de ser Blanche DuBois. Cadê meu Marlon Brando? E o meu bonde chamado Desejo?

Partiu!
Entrando de férias. Até a volta.

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