A Canga, filme de curta-metragem, é, antes de tudo, a narrativa de W. J. Solha; o escritor, o homem, o ator e o artista se confrontam e se completam. Solha encontrou nesse filme uma síntese rara: a do criador que, ao mesmo tempo, se reconhece criatura.
O autor literário, que concebeu a obra como parte de um romance maior, também se fez personagem, diretor e produtor em diferentes momentos de sua trajetória. Nos primórdios da década de 1980, já havia realizado, em Super-8, um curta-metragem baseado no mesmo universo, antecipando a densidade da narrativa que viria a se consolidar em 35 mm vinte anos depois.
Waldemar José Solha em A Canga ▪️ Fonte: iMDb
Ao transpor essa escrita para o audiovisual, Solha não apenas cedeu o material, mas mergulhou integralmente no processo criativo: atuou como intérprete de Ascenço Teixeira, encarnando o personagem que ele mesmo havia concebido. Assim, a câmera não registra apenas uma atuação, mas a fusão entre autor e personagem, entre imaginário e corpo presente.
Waldemar José Solha em A Canga ▪️ Fonte: iMDb
Passaram-se vinte e cinco anos desde que A Canga ganhou forma diante das câmeras. Quando lembro daquele processo, não penso apenas em um filme realizado, mas em um momento decisivo para o cinema feito na Paraíba. Naquele tempo, ainda circulava a ideia de que só seria possível fazer cinema em grande escala, com recursos vultosos e equipes vindas de fora.
Cena do filme A Canga, adaptação do diretor Marcus Vilar de um conto escrito pelo ator W.J. Solha ▪️ Fonte: iMDb
Quando recebi o projeto, após a produção, na Paraíba, da série e filme O Auto da Compadecida, no qual fiz a produção de locação e a produção local, tive um aprendizado para sempre. O roteiro, ao chegar às minhas mãos, a convite do próprio W. J. Solha, era para a montagem de um projeto de longa-metragem, estruturar um desenho de produção e viabilizar os custos.
Atores Matheus Nachtergaele e Selton Mello ladeando Durval Leal Filho, produtor local da minissérie O Auto da Compadecida, gravado na cidade de Cabaceiras (PB) em 1988 ▪️ Fonte: Acervo do autor
Assim, propus um redimensionamento: transformar a obra em curta-metragem. Essa decisão foi estratégica e fundamental. Um filme de 12 minutos, rodado em 35 mm, poderia ser executado com os recursos disponíveis, via Lei Viva Cultura, da Prefeitura de João Pessoa, e teria todas as condições de circular em festivais.
Marcus Vilar, cineasta paraibano graduado em História e Educação Física pela Universidade Federal da Paraíba com formação em Cinema Direto, no Nudoc (UFPB), e na Associação Varan, em Paris ▪️ Fonte: @themoviedb.org
O projeto materializado tinha Solha em tudo, Marcus Vilar na direção e eu na produção. Passamos a estruturar o projeto a partir do roteiro escrito por Solha e Marcus, moldado em torno de metas alcançáveis, mas ambiciosas na qualidade.
A locação escolhida foi Monteiro, no Cariri paraibano, região onde eu havia produzido e dirigido o vídeo Terra de Morada (1995), que revelou a vida de Zabé da Loca. A paisagem da caatinga já fazia parte do repertório e oferecia horizonte aberto, textura de terreno e luz natural que valorizavam os planos de Walter Carvalho, diretor de fotografia que, com sua presença, deu maior dimensão ao projeto.
Painel com a equipe que participou da produção de A Canga ▪️ Acervo do autor
O elenco reunia alguns dos maiores nomes do teatro e cinema nordestinos. W. J. Solha, além de autor, interpretava Ascenço Teixeira, o patriarca que impõe à família a carga simbólica e física da canga. Zezita Matos interpretava sua mulher; Everaldo Pontes, o filho mais velho; Servílio de Holanda, o filho marcado pela loucura; e Verônica Cavalcanti, a nora grávida.
Atores Verônica Cavalcanti e Everaldo Pontes ▪️ Fonte: Mubi
O som direto e o desenho sonoro ficaram a cargo de Márcio Câmara, cuja sensibilidade preservou os ruídos de fricção, respiração e silêncio como parte da dramaturgia. A montagem foi feita por Francisco Sérgio Moreira. A trilha sonora contou com a presença do grupo Cabruêra, que completou a atmosfera, inserindo a sonoridade contemporânea da Paraíba no coração da narrativa.
W. J. Solha /// Romance A Canga (Escrito em 1975 e publicado em 1979)
Mas talvez o legado mais importante de A Canga não esteja apenas nas premiações. O filme foi um espaço de formação. Jovens técnicos e estudantes acompanharam de perto um processo profissional completo: da pré à pós-produção, passando pela experiência do set em película, com diárias cronometradas e alto nível de exigência.
Cenas de gravação de A Canga Fonte: @cinemaparaibano9103 (YouTube)
Como paraibano, sinto que sua importância vai além da tela: ela se espelha nos caminhos que o fazer cinematográfico da Paraíba percorreu desde a fundação do PARA’IWA, em 1995, com a formação exitosa de uma parceria que fortaleceu o audiovisual por meio da Extensão Universitária, com a COEX — Coordenação de Extensão Cultural da Universidade Federal da Paraíba —, numa relação entre academia e sociedade civil organizada que conquistou vários prêmios e reconhecimento nacional.


















