A Canga, filme de curta-metragem, é, antes de tudo, a narrativa de W. J. Solha ; o escritor, o homem, o ator e o artista se confront...

A Canga, um filme premiado

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A Canga, filme de curta-metragem, é, antes de tudo, a narrativa de W. J. Solha; o escritor, o homem, o ator e o artista se confrontam e se completam. Solha encontrou nesse filme uma síntese rara: a do criador que, ao mesmo tempo, se reconhece criatura.

O autor literário, que concebeu a obra como parte de um romance maior, também se fez personagem, diretor e produtor em diferentes momentos de sua trajetória. Nos primórdios da década de 1980, já havia realizado, em Super-8, um curta-metragem baseado no mesmo universo, antecipando a densidade da narrativa que viria a se consolidar em 35 mm vinte anos depois.

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Waldemar José Solha em A Canga ▪️ Fonte: iMDb
A Canga já nasceu cinema, pois, em sua origem literária, não era apenas um texto isolado, mas um capítulo de um projeto narrativo mais amplo, que traduz o conflito humano em múltiplas dimensões: uma catarse do homem Solha.

Ao transpor essa escrita para o audiovisual, Solha não apenas cedeu o material, mas mergulhou integralmente no processo criativo: atuou como intérprete de Ascenço Teixeira, encarnando o personagem que ele mesmo havia concebido. Assim, a câmera não registra apenas uma atuação, mas a fusão entre autor e personagem, entre imaginário e corpo presente.

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Waldemar José Solha em A Canga ▪️ Fonte: iMDb
Essa condição faz de Solha uma figura emblemática no cinema paraibano. Ele não apenas escreveu, mas deu vida ao seu texto; não apenas idealizou, mas construiu com suas próprias mãos e sua própria presença.

Passaram-se vinte e cinco anos desde que A Canga ganhou forma diante das câmeras. Quando lembro daquele processo, não penso apenas em um filme realizado, mas em um momento decisivo para o cinema feito na Paraíba. Naquele tempo, ainda circulava a ideia de que só seria possível fazer cinema em grande escala, com recursos vultosos e equipes vindas de fora.

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Cena do filme A Canga, adaptação do diretor Marcus Vilar de um conto escrito pelo ator W.J. Solha ▪️ Fonte: iMDb
Os filmes de curta-metragem Eu Sou o Servo (1998), Passadouro (1999) e A Canga (2000), que produzi, mostraram o contrário: que projetos enraizados no nosso território, com equipe local e planejamento rigoroso, poderiam alcançar reconhecimento nacional e internacional, ao mesmo tempo em que formariam profissionais que seguiriam ativos no audiovisual brasileiro.

Quando recebi o projeto, após a produção, na Paraíba, da série e filme O Auto da Compadecida, no qual fiz a produção de locação e a produção local, tive um aprendizado para sempre. O roteiro, ao chegar às minhas mãos, a convite do próprio W. J. Solha, era para a montagem de um projeto de longa-metragem, estruturar um desenho de produção e viabilizar os custos.

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Atores Matheus Nachtergaele e Selton Mello ladeando Durval Leal Filho, produtor local da minissérie O Auto da Compadecida, gravado na cidade de Cabaceiras (PB) em 1988 ▪️ Fonte: Acervo do autor
O convite fortaleceu minha autoestima. Eu o admirava: um artista da Renascença. Solha sonhava em ver aquela narrativa no cinema e já havia tentado estruturar o projeto em formato de longa-metragem, que se tornou um curta em Super-8. Após ler o roteiro, percebi que o orçamento necessário para um longa era inviável e, ao mesmo tempo, poderia condenar a história a ficar no papel por mais alguns anos.

Assim, propus um redimensionamento: transformar a obra em curta-metragem. Essa decisão foi estratégica e fundamental. Um filme de 12 minutos, rodado em 35 mm, poderia ser executado com os recursos disponíveis, via Lei Viva Cultura, da Prefeitura de João Pessoa, e teria todas as condições de circular em festivais.

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Marcus Vilar, cineasta paraibano graduado em História e Educação Física pela Universidade Federal da Paraíba com formação em Cinema Direto, no Nudoc (UFPB), e na Associação Varan, em Paris ▪️ Fonte: @themoviedb.org
Hoje, olhando em retrospecto, vejo que essa escolha não foi apenas uma solução prática, mas uma chave para que o filme existisse e cumprisse sua missão. A partir daí, cada decisão, desde a adaptação do roteiro até a definição das locações e a montagem da equipe, foi pensada para um curta-metragem que preservasse a intensidade da obra original.

O projeto materializado tinha Solha em tudo, Marcus Vilar na direção e eu na produção. Passamos a estruturar o projeto a partir do roteiro escrito por Solha e Marcus, moldado em torno de metas alcançáveis, mas ambiciosas na qualidade.

A locação escolhida foi Monteiro, no Cariri paraibano, região onde eu havia produzido e dirigido o vídeo Terra de Morada (1995), que revelou a vida de Zabé da Loca. A paisagem da caatinga já fazia parte do repertório e oferecia horizonte aberto, textura de terreno e luz natural que valorizavam os planos de Walter Carvalho, diretor de fotografia que, com sua presença, deu maior dimensão ao projeto.

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Painel com a equipe que participou da produção de A Canga ▪️ Acervo do autor
Negociamos apoio da prefeitura local. O prefeito Carlos Batinga era aficionado por cinema, apoiou o projeto e, com outros parceiros, garantimos a logística e a infraestrutura mínimas para a filmagem. A caatinga e o sertão ali não são apenas cenário, mas parte constitutiva da narrativa. Cada pedra, cada sombra, cada árvore seca integrava a gramática visual que sustentava o drama.

O elenco reunia alguns dos maiores nomes do teatro e cinema nordestinos. W. J. Solha, além de autor, interpretava Ascenço Teixeira, o patriarca que impõe à família a carga simbólica e física da canga. Zezita Matos interpretava sua mulher; Everaldo Pontes, o filho mais velho; Servílio de Holanda, o filho marcado pela loucura; e Verônica Cavalcanti, a nora grávida.

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Atores Verônica Cavalcanti e Everaldo Pontes ▪️ Fonte: Mubi
A equipe técnica foi outro ponto alto. Tivemos a sorte de reunir profissionais experientes e jovens promissores, muitos deles atuando pela primeira vez em um projeto de cinema em película. Valdir Santos assumiu a direção de arte, criando a canga como objeto de cena central, com peso real e presença marcante.

O som direto e o desenho sonoro ficaram a cargo de Márcio Câmara, cuja sensibilidade preservou os ruídos de fricção, respiração e silêncio como parte da dramaturgia. A montagem foi feita por Francisco Sérgio Moreira. A trilha sonora contou com a presença do grupo Cabruêra, que completou a atmosfera, inserindo a sonoridade contemporânea da Paraíba no coração da narrativa.

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W. J. Solha /// Romance A Canga (Escrito em 1975 e publicado em 1979)
E a circulação foi notável. A Canga percorreu o Brasil e o exterior entre 2001 e 2002, acumulando prêmios que consolidaram sua importância. Recebemos o Prêmio Especial do Júri em Portugal, Melhor Filme no Cine Ceará, Melhor Música e Júri Popular em Gramado, além de distinções em São Paulo, Bahia, Vitória, Cuiabá, Recife, Florianópolis, Goiás e Miami.

Mas talvez o legado mais importante de A Canga não esteja apenas nas premiações. O filme foi um espaço de formação. Jovens técnicos e estudantes acompanharam de perto um processo profissional completo: da pré à pós-produção, passando pela experiência do set em película, com diárias cronometradas e alto nível de exigência.

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Cenas de gravação de A Canga Fonte: @cinemaparaibano9103 (YouTube)
Se pudesse resumir em uma palavra o que A Canga representou, eu diria: capacitação. Capacitação de mão de obra, formação de equipe, desvelar de identidades, paisagens e narrativas. O filme não apenas contou uma história. Ele inaugurou possibilidades de crescimento cinematográfico. Hoje, como produtor, olho para trás e vejo que aquele projeto foi um marco de aprendizados.

Como paraibano, sinto que sua importância vai além da tela: ela se espelha nos caminhos que o fazer cinematográfico da Paraíba percorreu desde a fundação do PARA’IWA, em 1995, com a formação exitosa de uma parceria que fortaleceu o audiovisual por meio da Extensão Universitária, com a COEX — Coordenação de Extensão Cultural da Universidade Federal da Paraíba —, numa relação entre academia e sociedade civil organizada que conquistou vários prêmios e reconhecimento nacional.

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