Conheci uma mulher que vivia em tons de cinza. O cabelo já estava acinzentado, com raízes brancas. As roupas buscavam o desbotamento do azul acinzentado e, no próprio rosto, refletia-se a palidez absoluta, onde nenhum sol ultrapassava a pele.
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Vivia em tons de cinza não por falta de cor, mas para conter excessos. A vida organizada em cinza era mais cômoda. As emoções eram filtradas, os gestos calculados e as palavras não ultrapassavam o necessário.
Vivia a calma das coisas sem surpresa, onde as emoções não doíam mais, mas também nada adquiria brilho.
A visão iniciou seu ciclo de decadência, e a cor preta entrou.
Não impetuosa, nem como sinal de queda, mas como convite. Ali, no escuro, percebeu as coisas que evitava havia anos. Naquele escuro, sentiu medo, sentiu vazio e sentiu verdade.
Mas foi no escuro que o inesperado aconteceu: uma fresta por onde o amarelo entrou. Uma ida ao médico, um colírio poderoso, e o amarelo surgiu tímido,
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Trouxe a claridade da manhã, mostrou o contorno dos objetos que enfeitavam a casa e que, havia muito, estavam invisíveis. O amarelo não resolveu a vida, mas a fez querer vivê-la.
De repente, o laranja surgiu e reacendeu seu corpo. O laranja era movimento, impulso e criação. Voltou a espalhar tubos de tinta pela mesa para pintar, iniciou passeios ao entardecer, quando o laranja misturava o calor do vermelho com a luz do amarelo, e transformou coragem em alegria.
Já não precisava prever tudo antes de agir; deixou-se levar pelo inesperado.
E, nesse inesperado, o vermelho entrou. Veio intenso, sem aviso e, por ser verdadeiro, não pôde ser contido. Trouxe paixão por alguém, por ideias e por ela mesma.
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E foi uma surpresa. Era a mistura do vermelho com o azul, da paixão com a calma, e o roxo se transformou em algo profundo, espiritual: a cor dos sentimentos amadurecidos, das dores compreendidas. Era o amor que já não precisava ser possuído para existir.
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Nesse descanso, descobriu o verde. Veio devagar, como as coisas que crescem. Era a mistura do azul com o amarelo, da calma com a esperança. Com o verde, surgiu o recomeço. Plantas voltaram a brotar, projetos saíram das gavetas, relações com amigos floresceram com mais cuidado.
O verde a ensinou que a vida sempre encontra um jeito de continuar.
Mas talvez a maior descoberta tenha sido o aprendizado de que as cores não surgem separadas e a vida não é uma paleta organizada. É uma pintura em constante movimento e, mais do que isso, o bonito não está nas cores puras, e sim nas misturas.
Não era mais cinza, preta ou vermelha. Era tudo ao mesmo tempo. Agora, ela era uma composição viva, imperfeita, intensa.
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Pense nisso: ao se interrogar sobre a cor de um objeto, de um ambiente, pergunte-se: que sensação essa cor deixa em meu corpo e espírito?











