HOJE E SEMPRE
Sou um caso de despertecimento, e não me dei conta até hoje. E não foi por desconhecer a sombra, ou o pecado existencial. Nasci com a mesma pele que reveste a alma dos alienados. (Na vida muitas coisas circulam no plano do despercebido.) Acerquei-me à beleza bem cedo; ela sempre foi os meus olhos. Mas, com alguma sorte, pude tingir de realidade a arte - e sobreviver. Grande casa do eu sozinho, em pé, neste acaso de um agora qualquer, sou alguém que tenta dizer da destruição do Mundo para as paredes vazias. (A memória das fotografias é indiferente ao futuro de suas molduras.) Querem que o poeta se cale, já que delira em suas propostas de impraticâncias no paraíso dos filisteus. Mas acordar na beleza, sabendo que ela tem a insistência do verde na multiplicidade acinzentada dos homens, é sentir a urgência do grito. DIÁLOGO COM O EU PERPÉTUO
CORO: ⏤ Repousávamos sob as possibilidades , e estas cobertas eram uma oferenda de impunidade. UMA TENTATIVA DE CONSCIÊNCIA: ⏤ Estar certo é um erro, e um obstáculo que sempre constou no contrato de sobrevivência. CORO: ⏤ Tecíamos nossa soberba, e comemorávamos a nossa gloriosa descoberta de sermos justos e ausentes. O HOMEM: ⏤ Sou este mito cuspido e me penitencio por sua ausência no meu gozo de ser único. CORO: ⏤ Retornávamos ao conforto da régua onde nos percebíamos imunes aos desvios. O HOMEM: ⏤ Por pouco me perdi no azul do que não me pertence; este ousado portal da poesia. ARREMATE DA CONSCIÊNCIA: ⏤ Uma porta não cabe no desmedido. ENCICLOPÉDIA DO DESASSOSSEGO
Quando me despedi, já não julgava, não era mais uma testemunha, havia me desprendido da culpa de um nascimento inadvertido. Quando recordei os números das casas, fiz com a indiferença do não pertencimento; de saber do absurdo da verdade de ser impossível reerguê-las. Quando atravessei o campo de batalha, percebi os sussurros dos mortos no imenso silêncio dos maus. Quando olhei o céu, percebi a impossibilidade de entendê-lo além de seu manto azul. Quando me refugiei no verde, escolhi repousar meu sopro de vida e minha versão da história.
Sou um caso de despertecimento, e não me dei conta até hoje. E não foi por desconhecer a sombra, ou o pecado existencial. Nasci com a mesma pele que reveste a alma dos alienados. (Na vida muitas coisas circulam no plano do despercebido.) Acerquei-me à beleza bem cedo; ela sempre foi os meus olhos. Mas, com alguma sorte, pude tingir de realidade a arte - e sobreviver. Grande casa do eu sozinho, em pé, neste acaso de um agora qualquer, sou alguém que tenta dizer da destruição do Mundo para as paredes vazias. (A memória das fotografias é indiferente ao futuro de suas molduras.) Querem que o poeta se cale, já que delira em suas propostas de impraticâncias no paraíso dos filisteus. Mas acordar na beleza, sabendo que ela tem a insistência do verde na multiplicidade acinzentada dos homens, é sentir a urgência do grito. DIÁLOGO COM O EU PERPÉTUO
CORO: ⏤ Repousávamos sob as possibilidades , e estas cobertas eram uma oferenda de impunidade. UMA TENTATIVA DE CONSCIÊNCIA: ⏤ Estar certo é um erro, e um obstáculo que sempre constou no contrato de sobrevivência. CORO: ⏤ Tecíamos nossa soberba, e comemorávamos a nossa gloriosa descoberta de sermos justos e ausentes. O HOMEM: ⏤ Sou este mito cuspido e me penitencio por sua ausência no meu gozo de ser único. CORO: ⏤ Retornávamos ao conforto da régua onde nos percebíamos imunes aos desvios. O HOMEM: ⏤ Por pouco me perdi no azul do que não me pertence; este ousado portal da poesia. ARREMATE DA CONSCIÊNCIA: ⏤ Uma porta não cabe no desmedido. ENCICLOPÉDIA DO DESASSOSSEGO
Quando me despedi, já não julgava, não era mais uma testemunha, havia me desprendido da culpa de um nascimento inadvertido. Quando recordei os números das casas, fiz com a indiferença do não pertencimento; de saber do absurdo da verdade de ser impossível reerguê-las. Quando atravessei o campo de batalha, percebi os sussurros dos mortos no imenso silêncio dos maus. Quando olhei o céu, percebi a impossibilidade de entendê-lo além de seu manto azul. Quando me refugiei no verde, escolhi repousar meu sopro de vida e minha versão da história.






