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É inquestionável a importância vanguardista do compositor carioca Noel Rosa para a transformação poética da canção popular brasileira....

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É inquestionável a importância vanguardista do compositor carioca Noel Rosa para a transformação poética da canção popular brasileira. A poesia de Noel se torna ainda mais relevante quando se considera o fato de que foi ele o primeiro compositor branco, de origem na classe média, com formação escolar em tradicional instituição católica (Colégio São Bento, RJ) e com passagem, embora curta, por uma Faculdade de Medicina, a firmar parcerias regulares com compositores negros, iletrados,
dos morros do Estácio, Mangueira e cercanias. Para o jornalista João Máximo, um dos mais criteriosos biógrafos do Poeta da Vila Isabel, Noel teve, “de 1929 a 1934, quinze, ou talvez, dezesseis compositores negros como parceiros, o que não existia naquela época, parcerias inter-raciais”. Entre os mais notórios parceiros do morro de Noel Rosa estão Ismael Silva, Bide e Cartola.

A mais rigorosa biografia existente de Noel Rosa foi feita por João Máximo e Carlos Didier e publicada, em 1990, pela editora da Universidade de Brasília. Divergências entre os autores, até hoje não superadas, fizeram com que a obra ficasse restrita àquela primeira e única edição. Nessa biografia, foram levantadas 259 músicas com a participação autoral de Noel, que foram compostas em um pequeno período de oito anos, que findou em 1937, ano da sua morte. O pesquisador Jairo Severiano identificou, em toda a obra de Noel Rosa, 108 músicas feitas exclusivamente por ele, o que leva à conclusão de que quase 60% das músicas do poeta da Vila foram feitas com parceiros.

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Noel Rosa: uma biografia, livro de João Máximo e Carlos Didier. Retrato estilizado do compositor, com chapéu e olhar distante, sintetiza a figura boêmia e urbana de Noel Rosa (1910–1937). Obra de referência sobre sua vida e trajetória musical. Editora Universidade de Brasília, 1990.
Após a morte de Noel Rosa, a sua obra caiu em uma espécie de limbo. Para Ruy Castro “o enterro e a missa de sétimo dia para Noel foram apoteóticos, mas o esquecimento começou assim que o padre recolheu os paramentos. Nos onze anos seguintes, a música de Noel desapareceu das lojas de discos, ninguém o cantava no rádio, a imprensa o esqueceu”. Se esse esquecimento envolvia o nome de Noel Rosa, pode–se imaginar o que ocorria com os seus parceiros que tinham nomes menos destacados, como Puruca, Canuto, Nonô, João Mina, Antenor Gargalhada e tantos outros.

Quando se fala das músicas mais representativas da obra de Noel Rosa sempre são citadas “Feitiço da Vila”, “Conversa de Botequim”, “Pra que Mentir” e “Feitio de Oração”.

Feitiço da Vila
Quem nasce lá na Vila, nem sequer vacila Ao abraçar o samba Que faz dançar os galhos do arvoredo E faz a lua nascer mais cedo
Conversa de Botequim
Seu garçom faça o favor de me trazer depressa Uma boa média que não seja requentada Um pão bem quente com manteiga à beça Um guardanapo e um copo d’agua bem gelada

Embora essas músicas estejam, indelevelmente, associadas ao nome de Noel Rosa e sejam sempre indicadas entre os melhores sambas da sua vastíssima produção, nelas o Poeta da Vila participou apenas como o letrista das canções, cujas melodias foram feitas por Vadico. Muitos leitores vão se deparar, aqui, pela primeira vez, com o nome de Vadico, que foi um músico e compositor de destaque, principalmente no período que se estende do final dos anos 1920 até meados da década de 1940, comumente denominado, na historiografia, de "época de ouro" da música popular do Brasil.

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Auditório da Rádio Nacional, no Rio de Janeiro, durante uma apresentação ao vivo. O público lota a plateia enquanto músicos e cantores se reúnem no palco, em uma cena que traduz a força do rádio como principal veículo cultural e de entretenimento no Brasil de meados do século XX. ▪ Fonte: Arquivo Nacional
Vadico é o mais esquecido dos compositores dessa época dourada. E o seu caso é singular porque algumas das suas canções são bastante conhecidas e continuam a ser frequentemente regravadas e executadas, mas geralmente não se sabe que ele é o coautor das músicas, que são, quase sempre, creditadas apenas a Noel Rosa.

Oswaldo de Almeida Gogliano, o Vadico, era paulistano, nascido, em 1910, no bairro do Brás, descendente de imigrantes italianos e de uma família de músicos. Começou a estudar piano quando era criança. Muito jovem, iniciou a sua
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Vadico (Oswaldo de Almeida Gogliano, 1910—1962), compositor e pianista paulistano. ▪ Fonte: Wikimedia
vida profissional como músico em São Paulo, mas garantindo o seu sustento, também, como datilógrafo. Aos vinte anos, decidido a viver, unicamente, da música, deixou a máquina datilográfica de lado e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se concentrava o grande movimento musical do País.

Em 1933, já estabelecido no Rio de Janeiro como pianista e compositor, em um intervalo de uma sessão de gravação do cantor Francisco Alves, Vadico tocava uma das suas composições no piano. O maestro Eduardo Souto, encantado com a melodia, foi numa sala ao lado onde se encontrava Noel Rosa e o chamou para ouvir a música, sugerindo que Noel fizesse a letra. Noel fez, na hora, o que se costuma chamar um “monstro”, uma letra provisória para marcar o número de sílabas com as notas. Dois dias depois, Noel trazia a letra definitiva do samba, que iniciou a parceria entre ele e Vadico e se tornou uma obra-prima da canção popular brasileira:

Clara Nunes canta “Feitio de Oração”, em gravação de 1974, lançada no álbum Alvorecer. Voz que reza, samba que atravessa o tempo.
Feitio de Oração
Quem acha vive se perdendo Por isso agora eu vou me defendendo Da dor tão cruel desta saudade Que por infelicidade Meu pobre peito invade

Vadico foi o parceiro mais constante de Noel Rosa. Fizeram dez músicas juntos. Para João Máximo, nada do que fizeram “é menos do que bom. E quase tudo é mais do que excelente”. A última música da dupla foi “Pra que Mentir", que também se tornou um clássico da música brasileira. “Pra que Mentir" foi composta a menos de dois meses da morte de Noel, que não chegou a ver a música gravada. Uma das inúmeras regravações de “Pra que Mentir" foi feita por Caetano Veloso, que a usou como tema para compor “Dom de Iludir”, intertextualizando a letra da sua música com os versos de Noel em “Pra que Mentir".

Pra que Mentir
Pra que mentir Se tu ainda não tens Esse dom de saber iludir? [...] Pra que mentir Se tu ainda não tens A malícia de toda mulher?
Maria Bethânia interpreta Pra que mentir em gravação de 1972, lançada no álbum Drama – Anjo Exterminado. Leitura direta, com atenção ao texto e à estrutura da canção.
Infelizmente, os pulmões de Noel não resistiram, nos seus 26 anos de idade, à vida boêmia e desregrada que ele levava, não permitindo que as suas primorosas letras continuassem a se amoldar, de modo perfeito, às elaboradas construções melódicas e harmônicas criadas pelo piano de Vadico.

Dois anos após a morte de Noel, Vadico viajou para os Estados Unidos, como pianista de uma orquestra brasileira que ia fazer apresentações na Feira Mundial de Nova York. Ao término do evento, decidiu ficar por lá. Atuou, inicialmente, como arranjador e, depois, como pianista do Bando da Lua, o grupo que acompanhava Carmen Miranda.

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Carmen Miranda (ao centro) com os integrantes do Bando da Lua, durante as filmagens de Minha Secretária Brasileira (Springtime in the Rockies, 1942). A partir da esquerda: Zé Carioca, Vadico, Nestor Amaral, Afonso, Stenio e Aloysio de Oliveira. ▪ Fonte: Wikimedia
Quando não tinha compromissos com Carmen Miranda, Vadico tocava em grupos e orquestras em shows e espetáculos na Broadway. Para o jornalista Gonçalo Junior, biógrafo de Vadico, essa participação no teatro teria levado o compositor a ser convidado para fazer trabalhos para os estúdios de cinema Universal e 20th Century Fox.

Nos primeiros anos da década de 1940, os estúdios de cinema norteamericanos, subsidiados pelo governo, participavam do empenho dos Estados Unidos
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Uma noite no Rio (1941), comédia musical ambientada no Rio de Janeiro, dirigida por Irving Cummings. O filme consolidou a presença de Carmen Miranda no cinema internacional.
em tentar melhorar o seu relacionamento com os países da América Latina, a chamada Política da Boa Vizinhança. Mas, como sempre, por trás da finalidade declarada, havia uma razão econômica.

Com o desenrolar da Segunda Guerra Mundial, houve uma substancial queda no mercado para os filmes produzidos nos Estados Unidos, em virtude da restrição imposta pelos países que estavam sob o domínio da Alemanha, Itália e Japão, mercado que precisava ser recuperado em outros locais. O estúdio Disney, que era o mais afetado com a perda de arrecadação externa, se envolveu inteiramente na iniciativa do governo.

Liberado pela Fox, com quem tinha vínculo contratual, Vadico foi cedido à Disney para colaborar em um desses filmes da Política de Boa Vizinhança. A película era Alô Amigos (Saludos Amigos), que foi a primeira experiência cinematográfica de utilização de personagens reais contracenando com figuras gráficas, como o Pato Donald e Zé Carioca. Partiu de Vadico a sugestão para que Walt Disney encerrasse a película com a música “Aquarela do Brasil” que, a partir do filme, tornou-se um grande sucesso internacional com o título de “Brazil”.

Trecho do filme Alô Amigos (1942), em que se ouve “Aquarela do Brasil”, composição de Ary Barroso. A animação apresenta o Brasil ao público internacional, com cores, ritmo e paisagens que ajudaram a difundir a música brasileira no exterior.
A sina do esquecimento parecia sempre pairar sobre Vadico. Ele compôs músicas de fundo para seis filmes nos Estados Unidos, em nenhum deles teve os créditos devidos. O compositor paulistano apareceu em cena em várias películas feitas por Carmen Miranda nos Estados Unidos, não ao piano, mas tocando tamborim, integrando o Bando da Lua.

Vadico resolveu deixar o Bando da Lua e ir para Los Angeles para trabalhar como pianista e estudar música com Mario Castelnuovo-Tedesco, maestro e compositor erudito italiano de origem judia, que havia emigrado para os Estados Unidos.
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Vadico e a cantora Ana Cristina, em 1954. ▪ Fonte: vadicogogliano.com
Vinícius de Morais, que ocupava posto diplomático na cidade e se tornara grande amigo de Vadico, relata que, na época, ele sempre se encontrava no piano de sua casa, em Hollywood, “nas boas noites em que ia visitá-lo, estudando sem parar harmonia, contraponto, fuga, composição e orquestração, sob a orientação do mestre Castelnuovo-Tedesco, grande da música contemporânea”.

O aperfeiçoamento musical de Vadico fez com que ele fosse convidado a assumir a direção musical da respeitada companhia de balé da bailarina, coreógrafa e antropóloga Katherine Dunham. O grupo, que era formado por componentes negros, é considerado uma das mais importantes companhias de balé dos Estados Unidos, no século passado. Katherine Dunham era, também, uma grande ativista no combate às práticas racistas no país.

Com o grupo de Dunham Vadico (que era apresentado nos cartazes como Vadico Gogliano) excursionou pela Europa, América Latina e Brasil. Durante a passagem por Paris, Vadico teve três peças instrumentais suas, as quais ele denominou “Choros”, incluídas no disco “Voyage au Brésil”, gravado pela companhia de Katherine Durham
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Katherine Dunham (1909–2006), bailarina, coreógrafa, educadora, antropóloga e ativista social norte-americana. ▪ Fonte: Wikimedia
na França. O cronista Rubem Braga que, na ocasião, estava em Paris como correspondente de jornais brasileiros, entrevistou Dunham, que ressaltou a importância de Vadico para a sua companhia: “Gogliano tem me ajudado muito, ele tem composições lindas!”. Durante esta excursão Vadico regeu orquestras sinfônicas, na execução da sua peça “Prelúdio e Fuga”, em Santiago, no Chile, em Buenos Aires e em São Paulo.

Após mais de dois anos de trabalho com Katherine Dunham, Vadico desligou-se da companhia. Rubem Braga, que também entrevistara o compositor quando da passagem do grupo por Paris, relata um trecho da conversa com Vadico, em que indaga sobre as moças do balé: "ele ri, conserta os óculos, mas diz que prefere as francesas.” Isso, entretanto, não era verdadeiro. Para Gonçalo Junior, em sua biografia de Vadico, o músico teria se apaixonado por uma das bailarinas, que se tornaria, anos depois, a famosa cantora e atriz Eartha Kitt.

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Eartha Kitt (1927—2008), atriz e cantora norte-americana.
Na década de 1960, Eartha seria a Mulher-Gato do seriado Batman da televisão norte-americana. Eartha Kitt teve uma destacada carreira como cantora e dentre os seus maiores sucessos estão a canção francesa “C’est Si Bon”, que ela gravou no idioma original, e “I‘ve got you under my skin” de Cole Porter.

Eartha Kitt interpreta “I've got you under my skin” em gravação de 1963, marcada por sensualidade contida e fraseado preciso. A canção foi composta em 1936 por Cole Porter e se tornou um clássico do cancioneiro popular, revisitado aqui com a assinatura vocal inconfundível da cantora norte-americana.
O diretor e ator Orson Welles considerava Eartha Kitt “a mulher mais sensual do mundo”. Ela se apresentava com voz sussurrante, gestos lascivos e não era uma pessoa muito cordata. Conta-se que, certa vez, reclamada por causa de seu comportamento, pelo dono de uma boate em que atuava, deixou-o no chão com um soco digno de um boxeador.

Em 1955, por ocasião do lançamento de um disco de Eartha Kitt no Brasil, Vadico já estava de volta ao Rio de Janeiro. Em entrevista concedida na época, destaca-se o impiedoso comentário sobre a artista: “como bailarina, é medíocre; como mulher, idem; como cantora, uma droga!”. Isso mostra que a relação entre os dois não foi bem resolvida. Mas, talvez, o pacato e retraído Vadico não tivesse mesmo se amoldado à tempestuosa Eartha Kitt.

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Vadico, nos anos 1940. ▪ Fonte: vadicogogliano.com
Vadico permaneceu nos Estados Unidos por quase 15 anos. Ainda quando se encontrava por lá, recebeu a desagradável notícia de que, em discos que haviam sido lançados no Brasil com músicas em que ele era parceiro de Noel Rosa, as gravadoras haviam omitido o seu nome na autoria das canções. Vadico teve que recorrer à justiça para fazer valer os seus direitos.

Em 1954, Vadico voltou, definitivamente, para o Brasil, retomando, no Rio de Janeiro, o seu antigo trabalho como pianista e intensificou a sua atividade como arranjador, orquestrador e, também, como compositor, com vários parceiros,
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tendo sido Marino Pinto o mais constante deles. Gravou alguns discos instrumentais, que foram elogiados pela crítica, sendo eleito, em 1955, “o arranjador do ano”.

Em meados de 1956, Vadico recusou um convite do seu amigo, e também parceiro, Vinícius de Morais, para musicar uma peça que o poeta iria encenar, transportando o mito grego de Orfeu para os morros cariocas. Em depoimento, Vinícius afirma que Vadico se escusara do convite alegando não se julgar em condições para a tarefa. Para João Máximo, grande pesquisador da vida do compositor, isso não faria sentido, já que Vadico, no tempo que passou nos Estados Unidos, trabalhou na composição de músicas para filmes e peças na Broadway, e a recusa teria sido motivada por problemas de saúde que ele já vinha sofrendo desde os Estados Unidos. Para o trabalho recusado por Vadico, Vinícius de Morais encontrou um jovem maestro chamado Antônio Carlos Jobim, e a parceira entre eles mudaria a história da música popular brasileira.

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Vinícius de Moraes (1913–1980) e Tom Jobim (1927–1994), na década de 1950. A conversa descontraída, com o violão ao alcance das mãos, evoca o início de uma parceria decisiva para a música brasileira, nascida no período de criação de Orfeu da Conceição e amadurecida nos anos da bossa nova.
Em 1962, Vadico sentiu-se mal durante uma sessão de gravação, e apesar de ser levado ao hospital mais próximo pelo baterista Wilson das Neves, seu amigo, morreu no trajeto, dentro do táxi que o transportava. O compositor e músico, de méritos amplamente reconhecidos, que trabalhara na Broadway e em importantes estúdios de cinema, que se apresentara nas mais importantes casas de espetáculos do mundo, na ocasião, morava em Copacabana,
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Capa do álbum Evocação III, lançado em 1979, com cancões de Vadico ▪ Ouça no Youtube.
em um minúsculo quarto e sala, que tinha apenas uma cama e um pequeno piano de armário.

Em 1979, dezessete anos após a morte de Vadico, foi produzido, por uma pequena gravadora de São Paulo, o primeiro disco somente com músicas do compositor, álbum que, hoje, é uma raridade. Nessa gravação, pode-se ter uma amostra da qualidade das músicas de Vadico que, até então, ainda permaneciam inéditas, como os dois choros instrumentais que foram interpretados no disco por Amilton Godoy, o pianista do Zimbo Trio.

Depois daquela iniciativa de 1979, novamente um véu de esquecimento voltou a encobrir o nome de Vadico. De lá para cá, já se passaram mais de quarenta anos e um absoluto silêncio envolve a obra do compositor paulistano.

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escritor jose vieira mamanguape
Quando são feitas listas com os principais escritores paraibanos o cronista, novelista e romancista José Vieira, quase sempre, é esquecido, apesar de sua obra ter tido referências elogiosas dos principais críticos literários do país na sua época, como José Veríssimo, João Ribeiro, Agripino Grieco, Alceu de Amoroso Lima (Tristão de Athayde), Álvaro Lins, Valdemar Cavalcanti, Brito Broca, Wilson Martins e Antônio Cândido.

mm José Vieira nasceu, em 1880, em Mamanguape. Ficou órfão muito jovem e, conforme um perfil biográfico elaborado pelo pesquisador e historiador Eduardo Martins, “fora obrigado a trabalhar no comércio, em profissão modesta, até os dezoito anos, quando ingressou num curso noturno recém-fundado e destinado aos comerciários”.
escritor jose vieira mamanguape
José Vieira, retratado por Dmitri Ismailovitch, 1940s
Naquela época, Mamanguape que já fora a segunda cidade da então Província da Paraíba, em população e comércio - que era feito diretamente com o Recife - entrara em um ciclo de declínio e, como disse José Américo de Almeida, os olhos de José Vieira “se abriram desde logo para um quadro de decadência e de ruína. Seu berço pobre também não poderia embalar esperanças” o que fez com que ele deixasse a cidade “à procura de sua estrela que podia estar brilhando em outros céus”.

José Vieira, inicialmente, se mudou para a capital da Paraíba, onde se matriculou no Liceu Paraibano em um curso preparatório para tentar ingressar na Faculdade de Direito do Recife. Não chegou a concluir os preparatórios na Paraíba e, em uma nova mudança, foi para a capital pernambucana. Passou pouco tempo no Recife e se transferiu para o Ceará atendendo um convite do escritor e político paraibano José Rodrigues de Carvalho. Em Fortaleza, José Vieira ingressou no curso de Direito, fez parte da direção de um colégio e iniciou sua produção literária. Para Rodrigues de Carvalho:

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R. Carvalho
José Vieira, humilde guarda-livros, timido, modesto e obscuro, iniciava-se com o brilho fugidio do vagalume que tremeluz furtivamente. Eram contos, escriptos de pura ficção, sonêtos nostalgicos, tudo revelando alma, sentimento, apuro de linguagem, esthetica em summa.”
A União, 1923

Convidado por paraibanos que militavam na imprensa de Belém, José Vieira se mudou para o Pará, mas durou apenas um ano a sua permanência na cidade. Nas palavras de José Américo de Almeida, ele foi outra vez “à procura de sua estrela que podia estar brilhando em outros céus” e o Rio de Janeiro, a capital federal, o centro cultural do país, onde se publicavam os principais jornais do Brasil, seria a sua próxima parada.

escritor jose vieira mamanguape
Mario Cattaruzza ▪ Fonte: BN
O escritor Francisco de Assis Barbosa escreveu que José Vieira chegou ao Rio de Janeiro “pobre, feio e tímido, não trazia pistolão, nem mesmo um diploma de bacharel.Como tinha talento e sabia escrever deu-lhe a mão Mario Cattaruzza” que era um influente jornalista do Correio da Manhã, o mais importante jornal do país na época. Cattaruzza foi um dos personagens usados, com nomes fictícios, por Lima Barreto no seu livro Recordações do Escrivão Isaías Caminha. No Rio, Vieira passou a cobrir as sessões da Câmara dos Deputados e conta-se que após as suas primeiras matérias para o jornal o cronista João do Rio teria ido procurá-lo na redação para elogiá-lo pela sua forma de cobertura dos trabalhos da Câmara. Vieira faria a crônica parlamentar por cerca de cinco anos.

Em 1913, José Vieira publicou o seu primeiro livro, A Cadeia Velha – Memória da Câmara dos Deputados. A Cadeia Velha era o prédio onde funcionou por quase 90 anos (1826-1914) a Câmara dos Deputados. Anteriormente, se instalara na edificação uma cadeia onde esteve aprisionado Tiradentes e que de lá foi retirado para ser enforcado. No local, foi construído o Palácio Tiradentes, atual sede da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. O período abordado por Vieira no A Cadeia Velha foi aquele no qual se sobressaia no Congresso o senador gaúcho Pinheiro Machado, o “chefe dos chefes”, que “distribuía pistolões, empregos, elegia deputados, reconhecia senadores e dava até ordens ao Presidente da República”,
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como escreveu Francisco de Assis Barbosa. O livro de Vieira foi elogiado por José Veríssimo que considerou que a obra poderia “sempre ser consultada”. Em 1980, o Senado Federal publicou uma segunda edição do livro e na apresentação da obra o escritor e político baiano Luiz Viana Filho a considerou “um dos mais interessantes documentos sobre a vida parlamentar na Primeira República”.

A correção com que José Vieira relatava as sessões da Câmara para os jornais o levou a ser indicado para ocupar o cargo de redator dos debates da Casa. No Rio, Vieira concluiu o curso de Direito e passou a frequentar a vida literária da cidade. Entre os seus amigos estava o escritor Lima Barreto, conforme registrado por Francisco de Assis Barbosa, um dos principais biógrafos do autor de Triste fim de Policarpo Quaresma.

Em 1913, José Vieira passou sete meses em tratamento em uma clínica na Suíça. Na volta para o Brasil, permaneceu certo tempo em Viseu, em Portugal, na casa do seu sogro, de onde escreveu uma série de crônicas que foram reunidas e publicadas, em 1918, com o título de Sol de Portugal. O livro foi bastante elogiado na imprensa carioca e na Paraíba causou grande impressão no jovem José Lins do Rêgo que o leu por influência de José Américo:

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J. Lins do Rêgo
Era estudante quando li no ‘Diário do Estado’ de Paraíba, um artigo de José Américo de Almeida sobre um livro novo, ‘Sol de Portugal’, de autoria de José Vieira. Nada sabia do escritor, mas o livro que José Américo me deu a ler convenceu-me do entusiasmo do amigo. Era um admirável paisagista aquele que se embriagara com a cor e a luz das terras de Nobre. Nunca lera, a não ser em Eça de Queiroz, trechos mais vivos, mais coloridos sobre as aldeias, os vinhedos, as praias de Portugal. Tinha razão José Américo. Havia um escritor magnífico em José Vieira”.

José Vieira somente publicaria a sua primeira obra ficcional em 1923, o romance O Livro de Thilda. As críticas, novamente, foram favoráveis ao texto de Vieira. O temido crítico literário Agripino Grieco sentenciou em O Jornal:

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A. Grieco
“Cumpre-nos agora frizar que a maneira literaria do sr. José Vieira, o seu processo, por assim dizer, frio e cinzento de escrever, parece-nos mais pessoal do que pretendem os criticos que viram nelle apenas um discipulo de Machado de Assis [...] O seu geito de romancear romantizando é, sem duvida, digno de attenção. Trata-se de um romancista authentico, de um talento com que se deve contar”.

Em 1924, José Vieira publicou, nos meses de junho e julho na revista paraibana Era Nova, a novela Ladrão de Moças e, somente após um intervalo de uma década, apareceria uma das suas obras mais marcantes, O Bota-Abaixo (Crônica de 1904). A trama do romance acontece no período em que ocorreram as obras de reforma urbanística na área central do Rio de Janeiro implementadas na administração do prefeito Pereira Passos sob a orientação do Presidente Rodrigues Alves.
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O O Bota-Abaixo somente teria uma segunda edição em 2019. Na opinião do professor José Roberto Fernandes Castilho, que organizou a obra e escreveu uma estudo introdutório, o livro de José Vieira “é o menos lido dos romances ‘clássicos’ brasileiros” e acrescentou:

Tomo o termo ‘clássico’ com o sentido de muito citado e muito referido: todo trabalho de peso sobre a remodelação do Rio de Janeiro que marcou o começo do século XX o refere e o cita [...] Tanto assim que a melhor obra até hoje escrita sobre o tema – Pereira Passos – Um Haussmann Tropical, de Jaime Larry Benchimol (1990) – não só cita o livro como transcreve longos trechos aduzindo que as grandes obras executadas no Rio de Janeiro é que dão ‘substância ao perfil e às ações dos personagens’.”

Em 1938, Vieira publicou pela Editora José Olympio, com a capa elaborada pelo paraibano Tomás Santa Rosa, um novo romance: Espelho de Casados. A obra foi elogiada pelo crítico Alceu de Amoroso Lima (Tristão de Athayde) que escreveu:

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A. Amoroso Lima
“Digamos desde logo que o sr. José Vieira não fez um romance sobre a perna [...] Como todo livro profundamente meditado e cuidadosamente escrito e polido, sem a ansia de sair a lume quanto antes, é um livro minucioso e meticuloso. Não ha coisas inuteis, não ha palavras perdidas, não ha episodios meramente accidentaes ou pittorescos, não ha dispersão de idéas e factos, nem trechos de estylo para effeito. Ha uma extrema unidade, tanto no thema como na expressão. O livro é um bloco só [...] Todo o livro é assim empolgante”.

Com o fechamento do Congresso, em 1937, pela ditadura do Estado Novo, José Vieira passou a trabalhar no que viria a ser o Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP do governo federal. Cabia a Vieira a revisão e o “tratamento literário” dos discursos de Getúlio Vargas, muitos deles feitos de improviso e a partir dos quais o escritor paraibano elaborava os textos com base em simples notas taquigráficas. Esses discursos de Vargas foram publicados em vários volumes sob o título de A Nova Política para o Brasil e acabaram envolvendo José Vieira em um episódio pitoresco.

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Getúlio Vargas, durante discurso em emissora de rádio. ▪ Fonte: Gov.BR
No início da década de 1940, a Academia Brasileira de Letras pleiteava do governo federal a cessão em definitivo do terreno, que era propriedade da União, onde até hoje funciona a Academia. Surgiu então a ideia, “para facilitar as coisas”, de tornar Getúlio Vargas um dos acadêmicos. Havia dois problemas a serem superados. O primeiro era que não havia nenhuma vaga aberta. Do vasto anedotário que existe sobre Vargas, a solução teria vindo do poeta pernambucano Olegário Mariano que num surto de puxa-saquismo teria proposto se suicidar para abrir a vaga para o ditador. Um providencial falecimento de um acadêmico evitou o “suicídio” do poeta. O episódio, por conta da censura aos jornais, foi descrito em forma de sátira por Osório Borba em uma crônica depois publicada nos seu livro A Comédia Literária.

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Osório Borba (1900—1960) ▪ Fonte: BN
O outro problema a ser solucionado para que Getúlio Vargas ocupasse uma das cadeiras da Academia Brasileira de Letras era a exigência de que o candidato à vaga aberta tivesse publicado pelo menos um livro e Vargas nunca tinha escrito nada. Foi aí que se lembraram dos discursos de Getúlio Vargas que José Vieira dava uma “arrumada literária”, E foi com essa ajuda de Vieira que Getúlio se tornou imortal por votação praticamente
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unânime dos acadêmicos, antes mesmo de sua morte trágica em 1954 que o imortalizou para a história do Brasil.

Nos anos de 1941 e 1942, José Vieira publicou em duas edições da Revista Brasileira, que era editada pela Academia Brasileira de Letras, o Romance da Solteira. Em 1944, sairia a obra que foi o maior êxito literário de Vieira: Vida e Aventura de Pedro Malasarte. O livro, que teve a capa criada por Santa Rosa viria a ter uma segunda edição, em 1980, pela Editora A União, em comemoração ao centenário de nascimento do escritor. Quando da publicação da primeira edição de Pedro Malasarte o consagrado crítico Antônio Cândido classificou-a como uma “obra original, clássica ao seu modo, e de características invulgares nas nossas letras”. O escritor Oswald de Andrade escreveu sobre o livro que “da primeira à última página [...] o escritor nordestino humaniza com tal força e tal verdade e tão boa prosa, a figura lendária, que nos dá uma autêntica obra-prima”.

Em novembro de 1945, José Vieira foi nomeado Diretor do Expediente da Presidência da República, cargo no qual permaneceu até a sua morte. Em 1947, por decisão unânime dos acadêmicos,
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Vieira foi designado Diretor da Secretaria da Academia Brasileira de Letras. Em julho de 1948, José Vieira faleceu no Rio de Janeiro aos 68 anos de idade. Poucos dias antes da sua morte, chegava às livrarias a sua última produção literária, o romance Um reformador na cidade do vício. A obra de José Vieira, a partir daí, caiu em total esquecimento, excluindo-se apenas os pequenos interregnos quando foram publicadas as segundas edições de Vida e Aventura de Pedro Malasarte e de O Bota-Abaixo. O que teria motivado essa omissão sobre a obra do romancista paraibano? Ivan Bichara em um ensaio sobre José Vieira formulou outra pergunta: “Por que um autor é consagrado e outro mestre do mesmo ofício é esquecido?”

Gonzaga Rodrigues também procurava em uma crônica o motivo para o esquecimento da obra de José Vieira:

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Gonzaga Rodrigues
“José Vieira teria falhado em sua arte? Sob esse aspecto a falha também teria sido da crítica. Não foram menores, entretanto, os que bem o receberam em seu tempo: Tristão de Ataíde, Grieco, seguidos de Antônio Cândido, Valdemar Cavalcanti, Wilson Martins, Álvaro Lins, Adonias Filho, gente que não admite suspeições.”

Na mesma crônica, publicada em maio de 2023, Gonzaga Rodrigues lamentava a não inclusão de José Vieira entre os escritores da série A Paraíba na Literatura publicada pela Editora A União: “Acabamos de editar quatro belíssimas coletâneas abrangendo novos e velhos das nossas letras, um empreendimento cultural
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do governo do Estado através de A União, e novamente sobramos em Vieira”.


Felizmente, as lembranças de Gonzaga Rodrigues alcançaram Naná Garcez e William Costa na EPC e A União e o Volume V da série A Paraíba na Literatura, lançado em abril deste ano, contemplou um capítulo sobre o esquecido escritor paraibano José Vieira.

Para o crítico literário Valdemar Cavalcanti, José Vieira “realizou no campo da ficção brasileira uma obra que seria profundamente injusto esquecer ou subestimar”, acrescentando:

“Não a procurem os que desejam no romance os transbordamentos da imaginação, a incontinência – ou a suposta incontinência – da força criadora, o novo, o imprevisto, o original. Que a leiam, porém, os que apreciam o gênero, a acuidade psicológica, o senso da medida, a sobriedade de construção, o apuro da forma”.

Nota do autor Este texto foi parcialmente extraído do capítulo sobre José Vieira incluído no Volume V da série A Paraíba na Literatura.