A mais rigorosa biografia existente de Noel Rosa foi feita por João Máximo e Carlos Didier e publicada, em 1990, pela editora da Universidade de Brasília. Divergências entre os autores, até hoje não superadas, fizeram com que a obra ficasse restrita àquela primeira e única edição. Nessa biografia, foram levantadas 259 músicas com a participação autoral de Noel, que foram compostas em um pequeno período de oito anos, que findou em 1937, ano da sua morte. O pesquisador Jairo Severiano identificou, em toda a obra de Noel Rosa, 108 músicas feitas exclusivamente por ele, o que leva à conclusão de que quase 60% das músicas do poeta da Vila foram feitas com parceiros.
Quando se fala das músicas mais representativas da obra de Noel Rosa sempre são citadas “Feitiço da Vila”, “Conversa de Botequim”, “Pra que Mentir” e “Feitio de Oração”.
Quem nasce lá na Vila, nem sequer vacila Ao abraçar o samba Que faz dançar os galhos do arvoredo E faz a lua nascer mais cedo
Seu garçom faça o favor de me trazer depressa Uma boa média que não seja requentada Um pão bem quente com manteiga à beça Um guardanapo e um copo d’agua bem gelada
Embora essas músicas estejam, indelevelmente, associadas ao nome de Noel Rosa e sejam sempre indicadas entre os melhores sambas da sua vastíssima produção, nelas o Poeta da Vila participou apenas como o letrista das canções, cujas melodias foram feitas por Vadico. Muitos leitores vão se deparar, aqui, pela primeira vez, com o nome de Vadico, que foi um músico e compositor de destaque, principalmente no período que se estende do final dos anos 1920 até meados da década de 1940, comumente denominado, na historiografia, de "época de ouro" da música popular do Brasil.
Oswaldo de Almeida Gogliano, o Vadico, era paulistano, nascido, em 1910, no bairro do Brás, descendente de imigrantes italianos e de uma família de músicos. Começou a estudar piano quando era criança. Muito jovem, iniciou a sua
Em 1933, já estabelecido no Rio de Janeiro como pianista e compositor, em um intervalo de uma sessão de gravação do cantor Francisco Alves, Vadico tocava uma das suas composições no piano. O maestro Eduardo Souto, encantado com a melodia, foi numa sala ao lado onde se encontrava Noel Rosa e o chamou para ouvir a música, sugerindo que Noel fizesse a letra. Noel fez, na hora, o que se costuma chamar um “monstro”, uma letra provisória para marcar o número de sílabas com as notas. Dois dias depois, Noel trazia a letra definitiva do samba, que iniciou a parceria entre ele e Vadico e se tornou uma obra-prima da canção popular brasileira:
Quem acha vive se perdendo Por isso agora eu vou me defendendo Da dor tão cruel desta saudade Que por infelicidade Meu pobre peito invade
Vadico foi o parceiro mais constante de Noel Rosa. Fizeram dez músicas juntos. Para João Máximo, nada do que fizeram “é menos do que bom. E quase tudo é mais do que excelente”. A última música da dupla foi “Pra que Mentir", que também se tornou um clássico da música brasileira. “Pra que Mentir" foi composta a menos de dois meses da morte de Noel, que não chegou a ver a música gravada. Uma das inúmeras regravações de “Pra que Mentir" foi feita por Caetano Veloso, que a usou como tema para compor “Dom de Iludir”, intertextualizando a letra da sua música com os versos de Noel em “Pra que Mentir".
Pra que mentir Se tu ainda não tens Esse dom de saber iludir? [...] Pra que mentir Se tu ainda não tens A malícia de toda mulher?
Dois anos após a morte de Noel, Vadico viajou para os Estados Unidos, como pianista de uma orquestra brasileira que ia fazer apresentações na Feira Mundial de Nova York. Ao término do evento, decidiu ficar por lá. Atuou, inicialmente, como arranjador e, depois, como pianista do Bando da Lua, o grupo que acompanhava Carmen Miranda.
Nos primeiros anos da década de 1940, os estúdios de cinema norteamericanos, subsidiados pelo governo, participavam do empenho dos Estados Unidos
Com o desenrolar da Segunda Guerra Mundial, houve uma substancial queda no mercado para os filmes produzidos nos Estados Unidos, em virtude da restrição imposta pelos países que estavam sob o domínio da Alemanha, Itália e Japão, mercado que precisava ser recuperado em outros locais. O estúdio Disney, que era o mais afetado com a perda de arrecadação externa, se envolveu inteiramente na iniciativa do governo.
Liberado pela Fox, com quem tinha vínculo contratual, Vadico foi cedido à Disney para colaborar em um desses filmes da Política de Boa Vizinhança. A película era Alô Amigos (Saludos Amigos), que foi a primeira experiência cinematográfica de utilização de personagens reais contracenando com figuras gráficas, como o Pato Donald e Zé Carioca. Partiu de Vadico a sugestão para que Walt Disney encerrasse a película com a música “Aquarela do Brasil” que, a partir do filme, tornou-se um grande sucesso internacional com o título de “Brazil”.
Vadico resolveu deixar o Bando da Lua e ir para Los Angeles para trabalhar como pianista e estudar música com Mario Castelnuovo-Tedesco, maestro e compositor erudito italiano de origem judia, que havia emigrado para os Estados Unidos.
O aperfeiçoamento musical de Vadico fez com que ele fosse convidado a assumir a direção musical da respeitada companhia de balé da bailarina, coreógrafa e antropóloga Katherine Dunham. O grupo, que era formado por componentes negros, é considerado uma das mais importantes companhias de balé dos Estados Unidos, no século passado. Katherine Dunham era, também, uma grande ativista no combate às práticas racistas no país.
Com o grupo de Dunham Vadico (que era apresentado nos cartazes como Vadico Gogliano) excursionou pela Europa, América Latina e Brasil. Durante a passagem por Paris, Vadico teve três peças instrumentais suas, as quais ele denominou “Choros”, incluídas no disco “Voyage au Brésil”, gravado pela companhia de Katherine Durham
Após mais de dois anos de trabalho com Katherine Dunham, Vadico desligou-se da companhia. Rubem Braga, que também entrevistara o compositor quando da passagem do grupo por Paris, relata um trecho da conversa com Vadico, em que indaga sobre as moças do balé: "ele ri, conserta os óculos, mas diz que prefere as francesas.” Isso, entretanto, não era verdadeiro. Para Gonçalo Junior, em sua biografia de Vadico, o músico teria se apaixonado por uma das bailarinas, que se tornaria, anos depois, a famosa cantora e atriz Eartha Kitt.
Em 1955, por ocasião do lançamento de um disco de Eartha Kitt no Brasil, Vadico já estava de volta ao Rio de Janeiro. Em entrevista concedida na época, destaca-se o impiedoso comentário sobre a artista: “como bailarina, é medíocre; como mulher, idem; como cantora, uma droga!”. Isso mostra que a relação entre os dois não foi bem resolvida. Mas, talvez, o pacato e retraído Vadico não tivesse mesmo se amoldado à tempestuosa Eartha Kitt.
Em 1954, Vadico voltou, definitivamente, para o Brasil, retomando, no Rio de Janeiro, o seu antigo trabalho como pianista e intensificou a sua atividade como arranjador, orquestrador e, também, como compositor, com vários parceiros,
Em meados de 1956, Vadico recusou um convite do seu amigo, e também parceiro, Vinícius de Morais, para musicar uma peça que o poeta iria encenar, transportando o mito grego de Orfeu para os morros cariocas. Em depoimento, Vinícius afirma que Vadico se escusara do convite alegando não se julgar em condições para a tarefa. Para João Máximo, grande pesquisador da vida do compositor, isso não faria sentido, já que Vadico, no tempo que passou nos Estados Unidos, trabalhou na composição de músicas para filmes e peças na Broadway, e a recusa teria sido motivada por problemas de saúde que ele já vinha sofrendo desde os Estados Unidos. Para o trabalho recusado por Vadico, Vinícius de Morais encontrou um jovem maestro chamado Antônio Carlos Jobim, e a parceira entre eles mudaria a história da música popular brasileira.
Em 1979, dezessete anos após a morte de Vadico, foi produzido, por uma pequena gravadora de São Paulo, o primeiro disco somente com músicas do compositor, álbum que, hoje, é uma raridade. Nessa gravação, pode-se ter uma amostra da qualidade das músicas de Vadico que, até então, ainda permaneciam inéditas, como os dois choros instrumentais que foram interpretados no disco por Amilton Godoy, o pianista do Zimbo Trio.
Depois daquela iniciativa de 1979, novamente um véu de esquecimento voltou a encobrir o nome de Vadico. De lá para cá, já se passaram mais de quarenta anos e um absoluto silêncio envolve a obra do compositor paulistano.












































































