"Meu pai não foi um santo, um indivíduo perfeito, imaculado. Mas por ter sido um pecador como qualquer mortal, acabei aprendendo com os...



"Meu pai não foi um santo, um indivíduo perfeito, imaculado. Mas por ter sido um pecador como qualquer mortal, acabei aprendendo com os seus erros. Saudades, pai".
(Petrônio Souto)

"Meu pai nos amava e nos dizia isto em suas ações mais do que por suas palavras. Deu-se completamente à família, assim como a minha mãe, em estafantes duplas jornadas de trabalho. Não só criou os nove filhos que teve, mas tomou para si o encargo de criar os netos, quando as adversidades imperiosamente o convocaram para essa ação. A nenhum discriminou, a nenhum sonegou oportunidades, de todos exigiu retidão e decência; a todos abriu os devidos caminhos para a aprendizagem. Homem de pouca escola formal, fez da vida a sua grande escola e nunca abandonou o gosto pela leitura e pelo conhecimento. Mais de uma vez, eu o vi responder a algum incrédulo, com relação ao que falava – “Eu leio!”
(Milton Marques Júnior)

Meus dois amores!!! (pai e avô). A lua e o sol, o sonho e a realidade, a água e a terra: amores que se unem para firmar minha vida, minha personalidade, meu destino. Me ensinaram coisas diferentes e, ao mesmo tempo, tão parecidas... diferentes formas de lutar e de aprender, mas sempre com ética, respeito, paciência e abnegação. Hoje entendo melhor e consigo chegar mais perto... gratidão!! Que Deus os abençoe onde estiverem! E até breve!!
(Renata Simões)

"Costumo refletir que sou uma pessoa agraciada com as bênçãos divinas.
Tive um pai que me deu muito orgulho. Com ele, aprendi um legado de ética, de idealismo, de coragem para enfrentar a vida, de amor à família e de busca pela paz e conciliação.
Tempos depois de aprender esse legado, virei pai. E procuro passar para meu Vini tudo que herdei de meu querido pai. Sobretudo de ser plena devoção ao meu filho.
Não sei se consigo ser um grande pai, mas faço o que minha capacidade de discernimento dos deveres e amores de um pai permite.
Meu pai hoje está no Céu, tenho certeza. Esperando Lili chegar em definitivo ao seu descanso merecido.
E Vini é um anjo aqui na terra. Hoje vou permitir-me a alegria de ser pai de um anjo.
(Linaldo Guedes)

"Carlos é só vida e alegria.
Fico tão feliz em ter percebido que ele soube amar e ser amado!
Foi a razão de ser um homem feliz"
(Ângela Bezerra de Castro)

"Germano,
Você sempre foi um grande filho e no crepúsculo da vida de Dr. Carlos, você foi um grande pai."
(José William Montenegro Leal)

RINCÃO DAS FLORES

Meu pai sempre foi um rastro
nos prados da minha infância.

Rosto farrapo cercando
alambrados e ventanias.

Tordilho do galope ao trote.
Raio, relho e espora.

No mapa da cavalgada era
um príncipe de bombachas.

Laço e lenço no capricho.

Pala voando na
geografia ondulada.

Meu pai foi um riso que secou.
Bandeira rota nas trincheiras.

Foi bravio. Teve medo.
A vida sempre por um fio.

Chegava
antes e partia...
sem deixar rastros.

(Lau Siqueira - Rincão das Flores é o distrito de São Lourenço do Sul-RS, onde nasceu meu pai)

"A beleza desse amor entre Germano e seu pai ecoará por muitos anos mais e será eloquente exemplo para próxima geração! Parabéns!"
(Daniel Seixas)

"Não me lembro se fui pai
nem dos filhos que já tive
fora bicho, livro e planta

Mas na última jornada
de pão e de pai nosso
me veio uma fornada

Bom filho sei que fui
e com ele sou feliz
na vida que ainda flui"

(Germano Romero)

Numa matinê de sábado, depois de uma semana com rinite alérgica e sinusite, e de perder pessoas queridas da cidade, queria me distrair. E ...



Numa matinê de sábado, depois de uma semana com rinite alérgica e sinusite, e de perder pessoas queridas da cidade, queria me distrair. E fui assistir o filme Mamma Mia 2. Já tinha visto o primeiro (e adorei!) e assisti também o musical na Broadway, em 2015. O que me levou a sair do teatro com a lombar doída de tanto cantar e dançar na cadeira a trilha do grupo Abba. Realmente uma catarse !

Pois sábado fui ver a continuação do musical da menina e seus três pais. E passeando pelas Ilhas Gregas, e ouvindo aquelas músicas, me peguei choramingando. Um filme sobre a saudade. Saudade de uma filha pela mãe (a personagem de Meryl Streep no Mamma Mia 1). A história dessa vez, é sobre a vida de Donna (Meryl Streep), antes de chegar à Grécia, agora vivida pela linda Lilly James, atriz que tinha acabado de assistir no dia anterior, em outra ilha idílica, no filme – Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batatas.

E nessa saudade, viaje nas minhas lembranças pela Grécia, numa viagem esplendorosa que fiz em 1987; pelas mussakas que comi; pelos caminhos imbricados das ruelas brancas e azuis de Mikonos, e o meu êxtase particular de me ver perambulando também em Santorini a comer Octopus grelhado e me perder no azul anil do Mar Egeu.

Tive amigos gregos no meu ano de Mestrado na University of Warwick, na Inglaterra 1986/7. Chorei de saudades deles também. E de saudade em saudade, foi me dando um sentimento esquisito. Um misto de alegria e nostalgia. E quando dei por mim, estava aos prantos em Mamma Mia!

No meio do filme, me veio á tona a paixão pelos atores Colin Firth, meu eterno Darcy, e que, dançando desengonçadamente, fica ainda mais sedutor, e de Stellan Skarsgard (meu estranho querido de Melancolia, Dançando no Escuro, Dogville), e no filme, um dos dançarinos alegres e fanfarrões na festa pra Donna! Ah! Minhas paixões cinematográficas!

Cinema é diversão sim. E como foi reconfortante estar esparramada naquela Sala Vip, sessão da tarde, com os olhos rasos d´água cantando Mamma Mia, e passeando nas lembranças de um inverno em NYC com minha irmã Claude; ou re-lembrando minhas andanças, quando jovem, pelas Ilhas Gregas, com minha saia de chita, comprando brincos de alpaca , e identificada com aquelas figuras dançantes daquela ilha com portas azuis (pintei as da minha casa uma vez, só para ter o gostinho dessa lembrança; como também pintei a casa de terracota para me sentir no filme de Bertolucci – Beleza Roubada!). O cheiro de azeite fino e pepinos nos iogurtes, pude sim fazer uma viagem nas memórias afetivas de uma vida passada a limpo na diversão e arte. Como diz um amigo filósofo: “o esquecimento como lembrança!”

Saí do cinema de olhos gordos e empapados de lágrimas. Um choro pelos mortos da semana (Juvenal e Jorge – que nem conhecia, mas que fazia parte do meu grupo de Caminhantes). Um choro também pelos meus mortos. Minhas saudades tantas. Mas nem por isso triste. O sentimento de efusão da celebração ao amor da filha pela mãe; dos brindes à amizade e ao amor, me deram mais ânimo e alegria para seguir direto à UFPb, Sala de Concertos Radegundis Feitosa, e assistir o Recital do menino Vitor Diniz, filho da minha amiga da infância, Dodora Diniz e Luismar , e que , desde a barriga acompanho os passos e os sopros da sua Flauta Mágica.

Quando lá cheguei, vi, pela primeira vez, o belíssimo mural- A Bagaceira – do artista Flavio Tavares. E por entre engenhos, cabritos, carros de boi, e senhoras com o olhares perdidos no horizonte, também me deixei perder no interior paraibano, no cheiro enjoativo do melado do açúcar, da minha infância pelos engenhos e usinas das primas queridas.

E do Brejo às Ilhas Gregas, a distância se fez pequena. Minhas lágrimas enxugaram. E o meu sábado terminou em pizza. Literalmente. Brindando à vida com as amigas, Margarida Assad e Fátima Duques. Na esquina de casa.

(Sérgio de Castro Pinto) A boa leitura sempre consistiu, para mim, numa espécie de revolução silenciosa. Dela,...


(Sérgio de Castro Pinto)

A boa leitura sempre consistiu, para mim, numa espécie de revolução silenciosa. Dela, sempre saí diferente de quando entrei. Ou seja, mal concluo a última frase de um romance ou o último verso de um poema, sinto-me com uma nova percepção da vida e do mundo. Pena que nem todos pensem assim e tratem o escritor, sobretudo o poeta, com certo ar de mofa e de desdém. Isso sem falar que os editores e os livreiros discriminam a poesia, gênero literário que, dificilmente, é exposto nas vitrines das livrarias, mas, quase sempre, escondido nas últimas prateleiras, nos locais mais longínquos e ermos. Tanto que, quando encontro numa livraria alguém de joelhos, numa posição contrita e genuflexa, não tenho dúvida: esse alguém esta à cata de um livro de poesia. É um leitor de poesia. E dos bons!

Sobre o livro, escreve João Cabral de Melo Neto: “(...) modesto: só se abre se alguém o abre”. Pois bem. Nestes meus sessenta e dois anos de vida, outra coisa não fiz senão abrir livros, devassá-los e gozar de sua intimidade. Não somente livros, mas tudo o que, feito de papel e tinta, me caia às mãos: jornais, revistas, gibis, almanaques, e até mesmo um vetusto tomo de um médico alemão, de cuja leitura o meu pai – jornalista, hipocondríaco e completamente leigo em medicina – extraía conclusões estapafúrdias para “diagnosticar” os achaques e as mazelas do filho único que eu sou e continuo sendo. O livro, que povoou a minha infância e parte da minha adolescência, denominava-se salvo engano, O conselheiro médico do lar.

Li, e ainda hoje leio, bulas de remédio, receitas culinárias e “fórmulas de preparados para pele”, como o fez – no caso dessas últimas – o poeta Manuel Bandeira para encontrar os caminhos tortuosos e íngremes do verso livre, segundo ele uma conquista difícil, pois, situando-se na confluência do Parnasianismo com o Simbolismo, habituara-se naturalmente, quase sem esforço, ao ritmo metrificado e às formas fixas dessas duas correntes líricas.

A minha primeira leitura foi um livro de crônicas do meu pai, cujo narrador – um menino da década de 30 – discorria a propósito do conflito entre liberais e perrepistas. Eram crônicas lidas ao sabor de uma profunda nostalgia, sentimento estranho para uma criança que, ainda sem passado, sentia uma saudade atávica do menino antigo que fora o seu pai. Daí, para também escrever as minhas “memórias”, foi um passo, apenas com uma diferença: impossibilitado de explorar o tempo pretérito, de convertê-lo em matéria bruta do meu texto, não me restou alternativa senão inventá-lo. O que fiz, inconscientemente, na esteira do verso de Manuel Bandeira: “A vida inteira que poderia ter sido e que não foi”.

Aprendi, a partir de então, que uns mais, outros menos, os livros quase sempre encerram uma espécie de “invenção da verdade”. E que essa, mesmo de forma velada, sub-reptícia, denota o inconformismo do escritor diante do mundo, o conflito que se estabelece entre “a vida vivida e a vida pensada”, pois já não disse Oscar Wilde que, “Para a maioria de nós, a vida real é a vida que não vivemos”? Cumpre-nos vivê-la, então, através da leitura. Mas principalmente, disseminar a leitura, pois o leitor “sozinho não tece uma manhã”.

(excerto de “O leitor que eu sou”)


(Ângela Bezerra de Castro) “Estética e Trabalho. Respondo ao chamamento dessa divisa que vem a ser o mesmo da primeira descoberta em relação...


(Ângela Bezerra de Castro)

“Estética e Trabalho. Respondo ao chamamento dessa divisa que vem a ser o mesmo da primeira descoberta em relação à palavra. Do primeiro arrebatamento diante de uma forma imprevisível de dizer ou de um ritmo inesperado, descortinando o reino onde “estão os poemas que esperam ase escritos”. O reino das palavras. Cedo me encantou o poder libertário de seus estatutos. Concretizado, na memória mais antiga, por aquele Pássaro Cativo de fala doutoral, mas que me fez enxergar a escravidão e a dor, onde antes eu pudera alcançar somente a beleza e o canto. A eloquência pedagógica de Bilac estabelecendo para os meus oito anos o impacto de uma nova ordem de sentimentos e valores.”

“A vida reinventada através da palavra arrebatou-me sempre mais que qualquer outro entusiasmo. Decidiu minha escolha profissional. Destinou-me amizades verdadeiramente inestimáveis. Assegurou-me as mais compensadoras alegrias. Fez-se parâmetro de minhas grandes admirações. Conduziu-me até aqui, reservando-me a eternidade deste instante. Instante-síntese, que parece acumular todos os tempos e todas as emoções.”

“Na leitura de um texto, não existe verdade sustentável, alheia às estruturas de linguagem que lhe emprestam forma e substância. Minhas convicções hermenêuticas se apoiam neste princípio, que se articula à distinção essencial entre a atividade crítica e a opinião descomprometida com a informação teórica e com a realidade histórica."

(excertos de discurso)

Devíamos agradecer ao ouvidor-geral Martim Leitão pela escolha do lugar onde mandou erguer o forte e, subindo a colina, a cidade do edito ...



Devíamos agradecer ao ouvidor-geral Martim Leitão pela escolha do lugar onde mandou erguer o forte e, subindo a colina, a cidade do edito real. Não houvesse ele chegado em novembro, pleno verão, poderíamos supor que tivesse atravessado o ribeirão do Jaguaribe e alcançado o Cabo Branco em dia de forte chuva. Encharcado, sem poder trotear no areal pedregoso das restingas, o lendário fundador só poderia ter se fixado na “planície de mais de meia légua, muito chã, de todas as partes cercada d’água”.

Mas água que não afoga, que encontra logo o caminho do mar ou do rio. Planície muito chã - assim descrita pelo frade que abriu caminho para a nossa História - livra-se em meia hora de uma noite inteira de chuva, ao contrário do Recife, fundado entre rio e maré por alguém que não a escolhera como morada para toda a vida.

Nisso os portugueses eram insuperáveis, manjados na experiência de ilhas e continentes como plantadores centenários de cidades.

Aqui, podiam ter começado pela península de Cabedelo, ao lado do forte. Mas nada garantia que a cidade não ficasse vulnerável aos surtos do índio e do corsário. Penetraram rio acima e só quando a colina se pronunciou alta e sobranceira, muito acima das águas e das armas, resolveram ordenar a fundação do casario, a começar pela capela matriz, no mesmo lugar da basílica de hoje.

Ficamos, pois, a salvo da enchente. Pelo menos até os limites urbanos traçados pelo ouvidor, seguidos e pela primeira vez planejados, trezentos anos depois, pelo administrador ainda hoje frequentando a memória histórica, Henrique de Beaurepaire Rohan.

O ponto fraco, que era a Lagoa, bacia das águas de inverno dos bairros que a rodeavam, foi urbanizado e convertido, numa quadra próspera de lavouras de exportação, no cartão postal da cidade modernizada. E como tivemos sorte, nisto! Já que se iria cavar um escoadouro para as do entorno, que se transformasse a grande bacia numa praça especial, num parque já visto como dos mais belos do mundo. Saturnino de Brito, a quem devemos o primeiro sistema de galerias e de esgotos, faz referências, na justificação do seu projeto, à “incolumidade da Capital da Paraíba aos flagelos da chuva e da maré.” Diz isso, dando uma de modesto, quando lhe elogiam a eficiência do sistema que implantara. “A topografia da cidade ajuda muito” – alegava.

É bom lembrar, entretanto, que a cidade inicial se limitava às bordas da colina, tendo Jaguaribe e Cruz das Armas como estrada. Nos anos 20, a balaustrada de Trincheiras era um ornamento urbano abrindo vista para o vale verde onde hoje escorrega a favela que, por absurdo, ganhou o nome de Saturnino de Brito, símbolo ou marco da modernização.

Vale verde, dizia Coriolano; anfiteatro, batiza José Américo. Anfiteatro e vale verde que são hoje, dali da balaustrada, um atentado aos foros cultos de um Camilo de Holanda, que tanto fez por uma João Pessoa bonita, ornada de lavores, moderna. Como paga, haviam surrupiado o pincenê da estátua e, para fechar, levaram agora o bronze inteiro. Resta só o pedestal em meio à ruína.

(Whashington Luís Fernandes Silva) Em contraste de suas representações, como a bandeira e o próprio nome, me vêm no sentimento os encantos d...



(Whashington Luís Fernandes Silva)

Em contraste de suas representações, como a bandeira e o próprio nome, me vêm no sentimento os encantos dos apaixonados. Seus flamboyants, os paus d'arcos, do Sol de Tambaú, da Lagoa, onde antes navegavam lindos gansos, tão bem desenhado na crônica de Carlos Romero, faz com que todos nós despertemos para pura vontade de amar. Ah como seria a vida dos seres contundentemente apaixonados sem a porta do sol, na mata verde, esperançosos por mais um dia e não sermos o Sol do extremo oriental?

Lindo o sabor configurado nestas paisagens, tornando a rotina um poema.

Somos restos de quimera, abraçando o crepúsculo no rio Sanhauá, como um pedido incessante dos enamorados para sua permanência e não se dissolver na cadência de Ravel.

Somos eternos apaixonados... esperando uma nova aurora para nos encantarmos em Tambaú e bater na porta do sol, para abrir sorrindo e balbuciar: BOM DIA JOÂO PESSOA!

(dedicado ao mestre do prelúdio da lua e dos sete mares, Germano Romero)

(Milton Marques Júnior) *para Germano Romero Almoçava ontem, quando veio-me à mente o quanto comer pode ser poético. Eu comia um spaghetti c...


(Milton Marques Júnior)

*para Germano Romero

Almoçava ontem, quando veio-me à mente o quanto comer pode ser poético. Eu comia um spaghetti com paillard e molho à bolonhesa, enquanto Alcione comia uma salada com farfalle. Foi o que ocasionou a associação entre poesia e gastronomia. Farfalle é aquela massa que as pessoas, comumente, chamam de gravata ou gravatinha, sem atentar para o fato de que ela tem o desenho de uma gravata borboleta. Não é à toa. Farfalla é borboleta em italiano, cujo plural é farfalle. Comentei, então, com Alcione que o nome, em italiano era, provavelmente, de origem onomatopaica – depois, fui conferir e realmente é –, pois nos induz ao bater das asas da borboleta. Chamar uma massa, que, normalmente, é antepasto na cozinha italiana, de farfalle é associar a leveza do inseto com a delicadeza e a leveza da massa que se ingere. Em suma, criativo, poético.

Ao chegar em casa, lembrei-me do filme O Tempero da Vida (Politike Kousína, 2003), direção de Tasso Boulmete (excelente filme, recomendo!), que nos ensina sobre como a vida tem que ser temperada, no dia-a-dia, ou na mesa. O personagem central, um professor de astronomia em Atenas, aprende com o avô, em sua infância na Turquia, que o saber temperar é essencial para saber viver. Recordo, en passant, que o verbo sapĕre, em latim, tanto significa ter o conhecimento de alguma coisa, saber, como sentir o sabor de algo. Sabor é saber e vice-versa, pois. É notável, no filme, o momento em que, na aprendizagem, o avô revela ao neto a relação entre gastronomia e astronomia, ao dizer que a segunda palavra está contida na primeira. Gáster, em grego, é estômago (stoma, por sua vez, é boca...) e áster, é astro, estrela; nómos é lei. A aproximação lúdico-etimológica faz com que um termo esteja contido no outro, trocadilho que fica melhor em grego, pois o termo gáster só nos remete para a doença gastrite... Assim, a lei que rege os astros é semelhante à lei que rege a vida, em que o estômago tem função primordial.

Nessa relação, o avô começa a descrever o nosso sistema solar, colocando os planetas na ordem que conhecemos, a partir do sol. O Sol relaciona-se com a pimenta, pois assim como o sol vê tudo (conceito de Homero), é quente e queima, e a pimenta dá vida a todas as comidas; Mercúrio, também quente, está relacionado com a pimenta vermelha em pó; Vênus é canela, doce e amarga, lembrando as mulheres; a Terra é o sal, pois na terra encontra-se a vida; para viver precisamos de comida e o que torna a comida mais saborosa é o sal. Magnífico! O neto não só aprenderá a cozinhar, como também, posteriormente, tornar-se-á um astrônomo respeitado.

Um único nome – Farfalle – desencadeou todo um voo do pensamento, batendo as suas asas, em busca do equilíbrio entre comida e natureza, ambas essenciais à vida, expressas na massa-borboleta, leveza poético-gastronômica.

Bom Domingo e bom apetite!

(Miryan Lucy de Rezende) Lembro-me bem. Foi quando julho se foi, que um vento mais gelado, mais destemperado, que arrastava ainda folhas dei...



(Miryan Lucy de Rezende)

Lembro-me bem. Foi quando julho se foi, que um vento mais gelado, mais destemperado, que arrastava ainda folhas deixadas pelo outono, me disse algumas verdades. Convenceu-me de que o céu começaria a apresentar metamorfoses avermelhadas. Que a poeira levantada por ele daria lições de que as coisas nem sempre ficam no mesmo lugar e que é preciso aceitar que a poeira só assenta depois que os redemoinhos se vão.

Foi quando julho se foi que a minha solidão me convidou para uma conversa. E me contou de tempo de esperas. E me disse que o barulho das árvores tinha algo a dizer sobre aceitação. E eu fiquei pensando como elas, as árvores, aceitam as estações que, se as estremecem, também lhes florescem os galhos. Mas tudo a seu tempo. Foi em agosto que descobri que os cachorros loucos são, na verdade, os uivos que não lançamos ao vento. São nossos estremecimentos particulares que a nossa rigidez de certezas não nos permite encarar.

O mês de agosto tem muito a ensinar. Porque agosto é mês jardineiro, é dentro dele, berço do inverno, que as sementes dormem. Aguardam seu tempo de brotar. Agosto é guardador da boa-nova, preparador de flores. Agosto é quando Deus deixa a natureza traduzir visivelmente o tempo das mutações.

Mude, diz agosto, em seu recado de sementes. Aceite, diz agosto, com seu jeito frio de vento que levanta poeira e a faz avermelhar o céu. Compartilhe, diz agosto. Agasalhos, sopas quentinhas, cafés com chocolate, abraços mais apertados – eles também aquecem a alma e aninham o corpo. Distribua mais afetos, que inverno é acolhimento, é tempo de preparar setembro. E, de setembro, todos sabemos o que esperar. Esperamos a arrebentação das cores, que com seus mais variados nomes vêm em forma de flores.

Vamos apreciar agosto, recebê-lo com o espanto feliz de quem não desafia ventos. Que ele desarrume e espalhe suas folhas e levante suas poeiras.

Aceite as esperas, mas coloque floreiras na janela.
Só quem vive bem os agostos é merecedor da primavera!

(Luiz Augusto de Paiva) Ele fazia Química na universidade e ela no mesmo curso, um ou dois semestres atrás. Conheceram-se ali pelos corredor...


(Luiz Augusto de Paiva)

Ele fazia Química na universidade e ela no mesmo curso, um ou dois semestres atrás. Conheceram-se ali pelos corredores e pintou entre eles aquela química, não a do curso, mas aquela atração danada, inevitável que faz qualquer elétron escapar de sua órbita. Hormônios pululando a todo vapor, nos dois. Então aconteceu. Não poderia ter sido diferente.

Mas antes que mal digam coisas dessa nossa Julieta, é bom que saibam, nosso Romeu era criatura do mais ilibado caráter e levou a sua mocinha aos cartórios e ao altar. Casaram-se. Ele sem uma pataca no bolso, ela muito menos, mas todo mundo sabe como é esse tal de amor, não é verdade? Os pais dele contra, a mãe dela que era viúva também, mas fazer o quê? Eram, como dizia a senhora – do rapaz – “di maior”, e deviam muito bem saber o que estavam fazendo.

O pai dele ainda deu uma força de início. Foi fiador numa casinha do tipo sala, quarto, cozinha e banheiro, ali por perto da universidade e ajudou na compra do essencial. Nada de primeira mão, tudo de brechó e sem reclamação. Quem mandou não ter responsabilidade? Já a mãe dela, mesmo com gordas economias na Caixa Econômica, não abriu mão de um centavo além do que havia gasto com os ornamentos da igreja e mais alguma coisa que a paróquia exigia para proceder o enlace. E só.

Criar uma filha com tanto zelo e depois entregar para um pé-rapado desses – reclamava a indignada senhora.

Nem é preciso explicar que foi um difícil começo. Para segurar a barra, sempre que havia uma brecha no horário da universidade ministravam aulas particulares. Tempos depois conseguiram alguns colégios para lecionar e assim foram levando a vida, com dificuldades, mas levando.

E o amor? Aceso! Aceso como brasa de churrasqueira. Felizes, iam se dando bem no curso, conseguiram mais trabalho e viviam aquela fase de “como o amor é lindo! ”. Tão lindo que já podiam, vez ou outra, tomar uma cervejinha com os amigos da universidade nos fins de semana, e, mais lindo ainda, porque conseguiram comprar uma Brasília de terceira ou quarta mão.

Que não me apareça com esse carro aqui para não me matar de vergonha – dizia a mãe dela, toda prosa, porque tinha um Monza (que era o carro da moda) novinho em folha.

A vida seguia seu curso, até que um dia... Depois da aula na universidade, o nosso Romeu deixou brotar da alma seu lado boêmio, ou melhor dizendo, seu lado gandaieiro, desregrado (todo homem tem isso, contido mas tem) e numa sexta-feira, depois das aulas da noite, saiu com um amigo para a esbórnia.

Foram para um daqueles estabelecimentos onde moças gentis satisfazem as necessidades afetivas e urgentes da rapaziada. Não era o caso do mancebo em questão, que por sinal era muito bem nutrido nessas necessidades, mas naquele dia resolvera, como se diz, enfiar o pé na jaca. Ali ficaram bebendo com as meninas, beijinhos, carícias poucas. Nada mais que isso. Queriam mesmo é fugir da rotina. Mas tomaram todas e na saída, noite bem avançada, tiveram que usar a Brasília para dar carona para duas daquelas criaturas. Cumprida a gentileza, antes de chegar em casa, parou a “poderosa” e deu um geral para não deixar rastro. Achou uma bijuteria, um batom e uma tiara. Ufa! Provas do crime jogadas fora, portanto devidamente eliminadas.

Em casa, a mulher ainda acordada. Brava! Com aquele bico de ornitorrinco, lembrou nosso transgressor que na manhã seguinte iam ser testemunha no cartório. A prima dela ia se casar.

Acordou daquele jeito. Gosto de cabo de guarda-chuvas na boca. Cérebro como se estivesse solto na cabeça. Tomou café amargo, trêmulo. Botou terno e gravata. A mulher sem dizer uma palavra, só fez lembrar na saída:

Pneu do carro de minha mãe está baixo, vamos passar lá para pegar ela.

Lá, entraram na “poderosa”, a sogra e duas cunhadas. A mulher ao entrar já foi dizendo:

Que cheiro de Avon é esse aqui dentro?

Ele eliminara qualquer vestígio, menos o cheiro. Não pensara nisso. A mulher esticou mais o bico ainda, mas não disse uma palavra (o que é pior!). Na primeira freada, algo resvala no pé dele. Disfarçadamente estica as mãos, toca. Um sapato! Como não vira? Precisava eliminar aquela evidência tão comprometedora. Com a desculpa que um pneu poderia estar baixo para o carro, e disfarçadamente joga fora o sapato. Entra no carro aliviado até que chegam ao cartório. Saem do carro, menos a sogra.

A senhora não vai sair? Vai ficar aí? – interroga nosso Romeu, e ela: "Estou procurando meu sapato. Alguém viu?"


Decorridos quase 90 anos, fica fácil a um dos meus interlocutores do Ponto de Cem Réis questionar o nome de João Pessoa dado em setembro d...



Decorridos quase 90 anos, fica fácil a um dos meus interlocutores do Ponto de Cem Réis questionar o nome de João Pessoa dado em setembro de 30 à cidade. E pior, atribuir a esse nome o emperro na Projeção turística merecida. “É esse nome que atrapalha” – insiste-se.

Mas por que João Pessoa atrapalha se Florianópolis (em homenagem a Floriano Peixoto) não atrapalha? Sem falar noutras cidades grandes e pequenas com nome que a maioria motivada, comovida consagrou?

No nosso caso, este batismo é o único nascido efetivamente de vontade autóctone, paraibana, fruto da espontânea comoção popular, sobretudo de sua mocidade. Dos restantes topônimos, o que não veio imposto de fora (Filipeia, Frederice) foi Parahyba, que por vir do rio o historiador José Leal queria o Estado no masculino, Estado do Paraíba, como Estado do Rio de Janeiro.

Nascida de sua mocidade? Sim, da mocidade livre das escolas lideradas, na capital, pela ala feminina, pelas meninas da Escola Normal, do Colégio das Neves, que antecipavam um momento especial da projeção da mulher em sonhos de emancipação cultural e social. Nos jornais e revistas dos anos 1930, sobretudo nas revistas e almanaques do gosto da época, a frequência da mulher em suas páginas emula com a dos varões. Desde a “Era Nova” dos anos 1920 que as Analyce Caldas e Eudésia Vieira ganhavam espaço.

E o fervor político de 1930 dispôs desse arrojo trazido às ruas pelas mulheres do povo. Celso Furtado, menino de poucos anos, vem dar esse testemunho em suas memórias. As mulheres eram o maior contingente nas passeatas e procissões que beiravam a sua janela da General Osório, rua que terminou encenando o capítulo inicial do romance de outro menino que descobria o mundo e a paixão desvairada dos seus moradores por um dos postigos que filtravam o tumulto o Virginius da Gama e Melo em seu “Tempo de Vingança”.

E se faltassem outros testemunhos mais vivos desse protagonismo límpido, sem interesses subalternos da mulher, recorra-se ao de d. Olívia Athayde, com seus 102 anos, em entrevista à “A União” de quinze anos atrás. Ela que falou pela juventude na hora em que o presidente Álvaro de Carvalho sancionava a lei que dava nome cívico, verdadeiramente cívico, à capital. No ato do Teatro Santa Roza falaram apenas o deputado Lima Mindelo, representando a Assembleia Legislativa, a senhorita Olívia Athayde, e o governador. A voz incitante do apelo feminino deu força à assinatura do chefe do Executivo paraibano, um catedrático do Liceu, homem de pensamento e de letras, fundador da nossa Academia de Letras, até ali ainda um tanto relutante:

“Proclamo que estais, nesta hora histórica, sendo um distinguido paraibano. Andais, quanto possível, de acordo com o povo. E é isto, precisamente, o que o povo quer. (...) Contai conosco e não leveis a mal uma solicitação de nossa brava gente. A Paraíba nova deu o nome de João Pessoa à nossa linda capital. Nós esperamos, exmo. sr. presidente, o vosso apoio moral para a bandeira com as cores do heroísmo e do sacrifício – rubro e negro”.

Não foi sem motivo que Celso Furtado, homem de emoções depuradas, não se comportou muito diferente da jovem que falava em nome das normalistas: “O assassínio brutal desse homem (...) provocou uma tal angústia coletiva que ainda hoje não posso recordar sem me emocionar. Várias vezes acompanhei aquelas domésticas em longas procissões (...) seguindo um andor sobre o qual ia uma fotografia de João Pessoa de corpo inteiro”.

Não foi um batismo de cima para baixo, imposto pelo rei ou pelo general vencedor.


(Alaurinda Romero) A beleza da vida está nas nossas escolhas, no nosso livre arbítrio e nas responsabilidades que tomamos para nós. A primei...



(Alaurinda Romero)

A beleza da vida está nas nossas escolhas, no nosso livre arbítrio e nas responsabilidades que tomamos para nós. A primeira vez que vi Carlos foi quando fui buscar o meu irmão, João Bosco, em sua casa, e ele estava na entrada do portão. Então, eu perguntei: “o senhor é o pai de Germano?” - “Sim. Eu vim buscar Bosco”.

Carlos simplesmente olhou para mim, e foi aí que não me detive apenas no seu olhar. Senti-o tão forte e profundo que até hoje não encontro palavras para descrevê-lo. Aliás, por mais nítidas e bem escritas, em nenhum idioma as palavras serão capaz de definir com exatidão aquilo que sentimos, aquilo que nos emociona.

Nessa mesma noite, fui convidada para um jantar, na casa de Carlos, oferecido após o concerto de nossa Orquestra Sinfônica – da qual fiz parte, como violinista, durante 30 anos –, em homenagem ao pianista Nelson Freire, à cantora lírica Maria Lúcia Godoy e ao grande maestro Eleazar de Carvalho, na época, nosso regente titular.

A noite só foi minha e dele. Fomos à sua biblioteca, folheamos muitos livros, conversamos sobre viagens, música, literatura. Tudo o que eu mais gostava estava ali com ele. Eu nunca fui tão autêntica, tão eu mesma e ele era ele. Uma verdadeira comunhão de pensamentos e vontades. No dia seguinte, Carlos me telefona e pergunta se poderia me levar para o ensaio da orquestra. “Sim” - respondi.

Quando chegou, vi que ele estava ainda mais bonito, no seu modo lento e cordial de ser. Como é bom ver e sentir a autenticidade transparente de uma pessoa verdadeira... Carlos, durante quase 30 anos, sempre foi e sempre será o mesmo, desde que o conheci. Compreensivo, íntegro, sincero, discreto, elegante, nunca alterou o tom de sua voz mansa e tênue. Quando eu insinuava uma discussão, ele apenas dizia: “Lau, meu anjo, eu não tenho mais tempo para ser infeliz”, e esboçava apenas um sorriso. E assim, costumava dizer, carinhosamente, que eu era “um anjo que apareceu em sua vida”.

Mas, o anjo era ele, que tanto me ensinou. Ah, como aprendi com ele! Às vezes, eu não encontro palavras para me expressar e dizer o quanto Carlos foi e continua sendo valioso para mim. Os livros que ele me indicava, os filósofos que mais amava… Bertrand Russell, Michel de Montaigne e tantos outros. Uma vez perguntaram a Montaigne, porque ele gostava tanto e admirava tanto o seu grande amigo, Étienne de La Boétie? Ele apenas respondeu: “Porque ele era ele”. E é por isso que eu amei e continuo sempre amando o meu Carlos. Porque ele era ele e eu me via nele.

“Amor, eu te amo. Você, fofinho, possui o meu pensamento. Vou tentar conviver com essa saudade eterna, mas, sempre com o consolo e a certeza de um novo reencontro.

De sua Lau”.

(Chico Viana) Há de tudo neste mundo. Li na internet a entrevista de uma estilista alemã especializada em roupas para defuntos. A princípio ...



(Chico Viana)

Há de tudo neste mundo. Li na internet a entrevista de uma estilista alemã especializada em roupas para defuntos. A princípio achei a idéia esquisita, depois me dei conta de que não é tão absurda assim. Ninguém se enterra nu; logo, não é irrelevante que o indivíduo se preocupe com a roupa com a qual vai adentrar a última morada.

Talvez só os muito vaidosos dêem importância a isso. Para a grande maioria, pouco importa o que vestir no caixão. Esse pouco caso teria a ver com o que Machado chama de “o desdém dos defuntos”, que envolve a moda e todo o resto.

A estilista mostra, no entanto, que é muito importante escolher a roupa adequada a ocasião tão especial. Afinal de contas, vai-se passar o resto da vida (ou melhor, da morte) com ela. O apuro com que o defunto está vestido concorre para a imagem que ele vai legar aos parentes e amigos. É preciso evitar comentários do tipo: “Viu que desleixado? Nem morto soube se arrumar”.

Um dos inconvenientes de não escolhermos a própria mortalha, segundo a entrevistada, é que corremos o risco de ser enterrados com uma roupa que não nos agrada. Aquela camisa berrante, aquele paletó apertado, aquela cueca áspera que roça e avermelha as virilhas.

Para evitar esse tipo de constrangimento, é melhor definir o figurino e deixá-lo no guarda-roupa. Assim como existe a indumentária do trabalho e a do domingo, existe a do repouso eterno. Ela ficaria ali, esperando o momento de entrar em cena. E indiretamente nos soaria como uma advertência sobre a efemeridade da vida.

A estilista já escolheu o que vai usar, e faz questão de dar sugestões aos clientes. O ideal é que o tecido seja leve, simples, despojado. Por dois motivos. Primeiro, porque lá embaixo faz calor. Segundo, porque não convém nessa delicada e misteriosa viagem sugerir arrogância. A vestimenta simples indica humildade de espírito, atributo sumamente desejável em quem vai se submeter ao julgamento eterno.

(Milton Marques Júnior) Como é próprio à juventude ser soberbo, saber tudo! Eu também já fui assim; hoje, velho, não me iludo. Não te obrigu...



(Milton Marques Júnior)

Como é próprio à juventude ser soberbo, saber tudo!
Eu também já fui assim; hoje, velho, não me iludo.
Não te obrigues a certeza, nem ser dono da verdade,
nem imponhas tuas crenças, tudo isso é vaidade.
Busca a paz no equilíbrio, não te nutras de ilusão;
pra quem quer sempre estar certo, que terrível solidão!
Ó efebo, desde já, vai tecendo esta verdade:
Não progride o Saber que desdenha a Humildade!



Quem não tem algum distúrbio, quem não tem algum conflito?
Só o feicibuquiano é histérico irrestrito.
A manchete já lhe basta, pra ativar a sua sanha
e repete, sem critério, toda e qualquer patranha.
Sem critério, não, Senhor! ele sabe como agir:
o critério que utiliza busca sempre confundir.
Distorcendo sempre os fatos, exacerba sem razão,
de um anão faz um gigante; de um gigante, um anão.
A caterva que o acompanha profetiza apocalipses,
num discurso verborrágico, todo cheio de elipses,
pois propaga o que não leu e se ler inda dirá:
De mentira em mentira a verdade morrerá.



O Pudor e a Justiça nos deixaram, foram embora...
É o que diz o grande Hesíodo em poema de outrora.
Sós, ficamos à mercê dos bandidos, dos ladrões,
do seu séquito de fâmulos, que ignora os padrões.
E tais fâmulos são piores que os bandidos que defendem,
ordenando que outros leiam, mas se leem nada entendem.
Meus queridos xerimbabos, de si mesmos tenham dó,
pois se alguém muito se abaixa, vai mostrar o fiofó.



A justiça no Brasil é injusta e morosa.
Para os ricos, vista grossa; para os pobres, poderosa;
pro delito irrisório, dura lex, sed lex;
para a grande corrupção, sobram malas e triplex;
para o roubo de um shampoo, o coitado amarga pena;
para malas de reais, liberdade sempre plena.
Pra justiça ser assim, colabora o imbecil,
defendendo os seus ídolos, sem defesa do Brasil. 
Não te esqueças, grande parvo, que reclamas retrocesso:
Corrupção e violência são sistêmicas, são processo
e se algo deu pra trás, é porque algo avançou,
algo infame, vergonhoso, que a cegueira edificou.

(garimpados do facebook do autor)

(Carlos Cordeiro) “Algumas coisas boas às vezes são ótimas”. Assim se expressaria o velho Conselheiro Acácio. Recorro a ele para dizer que a...


(Carlos Cordeiro)

“Algumas coisas boas às vezes são ótimas”. Assim se expressaria o velho Conselheiro Acácio. Recorro a ele para dizer que as crônicas do Carlos, publicadas em seu blog - agora felizmente reaparecido por obra do seu filho Germano, como justíssima homenagem ao nosso cronista maior – estão nessa assertiva acaciana. Esclareço que a pecaminosa associação do nome de Carlos à imbecilidade conselheiral é apenas uma brincadeira de quem tem talento escasso, pois não existe ninguém menos acaciano que o Carlos.

Na verdade, ele é exatamente o oposto - em vez das frases bombásticas e vazias que Eça habilmente dependurou nos lábios inertes do Acácio, encontramos no texto do Carlos uma “simplicidade profunda” – uma capacidade de falar de coisas que transcendem o raciocínio diário e comum por meio de frases e raciocínios de aparência semelhante. Uma “superficialidade profunda” (perdoem o oximoro) que esconde magicamente um mergulho no pensamento mais profundo, tarefa que não é para qualquer um. E nisso ele está, por exemplo, com Santo Agostinho, que em suas Confissões soube acondicionar tão destramente sofisticadas reflexões metafísicas em um texto leve, gracioso, de comovente simplicidade.

A gente sabe se o escritor é bom quando vez por outra acorre à nossa lembrança alguma frase, um pensamento, uma descoberta, que lemos uma vez e ficou para sempre impregnada na memória, para nos acudir em nossos momentos de perplexidade filosófica ante a aparência desconcertante de um mundo tão violento, injusto e desonesto em que nos foi concedido viver para apurarmos o caldo grosso de nossa vida cheia de pecados. Falando assim, parece que estou a dizer que o Carlos era um moralista intransigente, inflexível na condenação dos defeitos humanos e incapaz de ver na natureza simples e colorida que nos cerca um cenário preparado por Deus para aliviar-nos na pesada tarefa de viver.

Quantas vezes, ao ler suas crônicas, peguei-me surpreendido com sua capacidade de ver nos coqueirais de Tambaú, numa simples florzinha do mato, na brisa do mar que abençoa seu ninho fincado nos contrafortes do Cabo Branco, revelações de uma verdade maior, que só os artistas, seres antenados, conseguem captar e transmitir. A quem comparar o escritor Carlos, que literatura pode ser semelhante à sua, na beleza, na acuidade, na plácida sensibilidade? Há muitos, e não vou cansar algum caridoso leitor que tenha me acompanhado até aqui, com listas de falsa erudição e risco de omissões criminosas. Nem precisamos sair da Paraíba para encontrar seus símiles. Ocorre-me de pronto José Lins do Rego. Basta este para ajudar-me nesta comparação de estilo, de sensibilidade e de beleza.

Soube agora que sua companheira e irmã de alma Alaurinda, artista de sensibilidade igualmente refinada, está compondo uma espécie de “Espaço Carlos Cronista” (criei esse título por puro enxerimento, ninguém mo pediu), ao recompor com a indispensável colaboração do Germano, os lugares onde ele viveu seus momentos de intimidade familiar, seus longos colóquios com os artistas de sua predileção, às vezes na biblioteca, outras no aconchego de seu canto predileto. Grande, inestimável Carlos. Lembrei-me de parafrasear um texto sobre Guimarães Rosa escrito pelo Drummond: “O Carlos Romero existiu mesmo, de se pegar?”

(Ângela Bezerra de Castro) Narrativa Narrar é sobreviver. É vencer o tempo e as armadilhas da vida. É enganar a morte. Foi assim com Sheraza...


(Ângela Bezerra de Castro)

Narrativa

Narrar é sobreviver. É vencer o tempo e as armadilhas da vida. É enganar a morte.

Foi assim com Sherazade e continua a ser com todos aqueles que dão sequência ao texto ou ao “risco do bordado” que a humanidade vai desenhando e tecendo ao longo de sua história.

Na força da narrativa o real se transfigura, permanece e se eterniza, mesmo quando a referência temporal que lhe deu origem já se apagou na paisagem do mundo ou na memória dos homens.

É esse poder de recriar o mundo, de restaurar o tempo, de reinventar a vida que atrai e consagra o narrador, e tem contrariado até hoje as vozes que se arriscaram a profetizar o fim do romance e da literatura.

                              

Crítica literária

A Crítica Literária não se pode restringir a uma atitude individual e muito menos reduzir-se ao elogio vazio ou de conveniência.

A crítica é um saber exercitado através de século que, na segunda metade do século XX, atingiu um nível de competência e objetividade impossível de ser confundido com o discurso da banalidade.

Crítica é Leitura especializada, instrumentada pela Teoria Literária, pela História da Literatura e por outros conhecimentos que o texto-objeto exija, na decifração dos seus códigos. É análise rigorosa e conclusão fundamentada. Criação e descoberta. Luz que ilumina o texto para revelar as armadilhas da construção e suas estruturas de sentido. Ponte que faz mais segura a travessia dos leitores que empreenderão depois a mesma viagem.

É isto a Crítica. A verdadeira Crítica que se incorpora definitivamente à historia do texto literário estudado e não pode ser ignorado pelos novos leitores, tal a procedência de suas descobertas e a exatidão de suas lições.

(excertos do livro “Um certo modo de ler”)

(Davi Lucena) Meu caso de amor e amizade com Carlos Romero começou em 1994, mais exatamente no mês de abril. Foi o começo de um valioso rela...


(Davi Lucena)

Meu caso de amor e amizade com Carlos Romero começou em 1994, mais exatamente no mês de abril. Foi o começo de um valioso relacionamento de pai e filho. Estava eu com os meus 27 anos, recém-estabelecido em João Pessoa. Ele nunca gostou de conversar sobre idade e coisas do passado. Quando fomos apresentados, com um aperto de mão, a primeira coisa que dele ouvi foi: “não me chame de senhor”. Jamais obedeci, por causa da reverência que a figura dele me impunha. Naquele mesmo ano, em outubro, fizemos nossa primeira viagem. Nos preparativos, ele brincava dizendo que detestava fazer as malas, coisa que, na verdade, ele jamais experimentou.

Desembarcamos em Bruxelas. Ele, Alaurinda, Germano e eu, numa tarde ligeiramente fria. Era minha primeira viagem internacional e meus olhos reviravam com as belezas do velho mundo. Tudo era novidade: as casas bem alinhadas, os bosques de pinheiros, as igrejas milenares, as pessoas conversando em outras línguas. Ficamos no centro da cidade, pertinho da Grand Place e meu entusiasmo, ao debutar naquelas paragens, me impelia a querer estar na rua a todo instante, para ver o movimento, as bicicletas, os bondes, as pessoas. Logo percebi que meu companheiro de viagem, Carlos, que já tinha cruzado o Atlântico, não se dava muito a deslumbramentos. Com seu inseparável caderno de anotações, ele costumava sentar num banco da praça e escrever seus rabiscos, enquanto observava as pessoas indo de um lado a outro. Naquele pequeno papel, o cronista registrava curtas impressões, que mais tarde eram processadas e transformadas em sensíveis exposições do cotidiano. O vento, as nuvens, as pernas que passavam apressadas pelas ruas, os pombos à procura do milho que os transeuntes bondosos jogavam… tudo era inspiração para os textos do escritor.

Ele logo passou a me chamar de “Deivis”, na forma mais carinhosa que poderia existir. Quando me encontrava de manhã, no lugar do clássico “bom dia”, ele olhava pra mim e repetia a palavra 3 vezes: “Deivis, Deivis, Deivis”, como se fosse um mantra ou uma forma de benção. Carlos adorava cooper. Ainda na casa de seus 80 anos, com uma vitalidade impressionante que a genética lhe presenteou, ele singrava quilômetros, incansavelmente, e nos levava todos juntos em suas caminhadas. Com ele aprendi a ver o mundo por prismas que jamais tinha imaginado. As viagens, que muitos veem como oportunidade de compras e de festas, para nós eram momentos de renovação cultural e espiritual. Sua paixão por livros levou-me a conhecer grandes livrarias mundo afora. E não só isso. A nossa convivência potencializou ainda mais a minha inclinação pela leitura. Foi a espiritualidade de Carlos Romero que me deu a oportunidade de ouvir palestrantes de renome, a visitar a loja em que Allan Kardec trabalhou, a cidade em que nasceu, o túmulo no cemitério Père Lachaise. Por causa dele, fui apresentado a orquestras, pianistas, condutores, óperas, balés. Atravessamos riachos, passeamos por desfiladeiros, cruzamos mares e percorremos grandes distâncias, por terra, mar e ar. Em alguns momentos, sua voz ecoava de forma mansa, com uma observação sobre as ovelhas e vacas que pastavam nos campos. Sim, é isso mesmo, ele pensava alto e parecia conversar com os seres que o cercavam, inclusive os inanimados.

Já chegando aos 90, sua estrutura física deu sinais de declínio, mas sua vivacidade mental permaneceu acesa, a todo vapor, como um alegre trem sobre os trilhos, transporte no qual ele mais gostava de viajar. Nas escadarias, ele apoiava o seu braço no meu e puxava alguma conversa só pra disfarçar a ajuda de que precisava para escalar os degraus. Continuou vaidoso. Escondia a bengala para tirar fotografias e se recusava a entrar em filas prioritárias. Adorava camisas coloridas, abotoadas até o pescoço. Sempre exaltava a música erudita, e considerava relevante comparecer aos eventos de paletó e gravata. Certo dia foi presenteado com um chapéu Panamá e nunca mais quis deixar de usá-lo. “Esta é a minha marca registrada”... dizia ele.

Não reclamava de nada. Se a comida servida no restaurante era boa, elogiava. Se não estivesse apetitosa, elogiava do mesmo jeito. Diante de um prato de bacalhau fresco, então, seus olhos brilhavam. No carro, durante os trajetos, a paisagem soberana composta de árvores, campos e nuvens resplandecia lá fora, mas a atenção dele ela toda para a sua bonequinha, Alaurinda. Gostavam muito de conversar, discutir sobre arte, filosofia, religião, e, vez por outra, engatilhavam umas “briguinhas”, porque ela queria responder todas as enquetes que ele fazia durante os passeios. A Germano, a quem ele chamava de “meu anjo”, pedia sempre para colocar no som do carro um concerto de Bruckner ou Beethoven.

E assim as viagens transcorriam como uma festa, singela, divertida, cultural. As paradas serviam para um pequeno descanso e para contemplação. Na margem de lagos espelhados, ele colocava apelidos nas montanhas e recolhia seixos para levar como lembrança. Ao ver um gramado, estendia-se ao sol, sem querer saber de mais nada, só dos raios que acariciavam seu rosto. Nos jardins, parques e praças, pedia para ser fotografado entre as flores. Não podia ver uma estátua ou busto, que logo queria saber de quem se tratava. Do frio não gostava muito, mas nada o impedia de querer sair às ruas, passear nas calçadas, folhear um livro em algum recanto, fazer suas anotações para futuras crônicas.

Trago na lembrança aquele olhar sereno, aquele sorriso simpático, aquela companhia que sempre tornava agradável qualquer ocasião. Passamos por turbulências e navegamos em voos tranquilos. Vencemos tempestades e nevascas. Descansamos na calmaria. E ele, já impedido de ficar em pé por muito tempo, servindo-se do conforto de uma cadeira de rodas, participava de tudo, tirando o melhor que a vida tinha a lhe oferecer, sempre cantarolando alguma canção e fazendo com que todos o acompanhássemos em coro.

Será difícil, senão impossível, enfrentar alguma outra viagem sem a companhia física de tão adorável ser. Não sei se a dor da saudade permitirá. Mas, com certeza, ele irá nos incentivar a continuar fazendo aquilo de que mais gostava. Rodar o mundo, contemplar as belezas do planeta. Se isto acontecer, será ele, agora, que me dará apoio com o seu braço… e eu sei que vou ouvir aquele sussurro de incentivo e amizade em meu ouvido, a repetir, com carinho, “Deivis, Deivis, Deivis”.