Pra começar, essa coisa de que "quem tem boca vai a Roma" é a maior furada. Nem sentido faz. Na verdade a origem desse legue...

Pra começar, essa coisa de que "quem tem boca vai a Roma" é a maior furada. Nem sentido faz. Na verdade a origem desse leguelhé é a revolta que os povos conquistados na antiguidade tinham da Roma poderosa. Portanto o correto seria "Quem tem boca VAIA Roma". Lembro disso a propósito da constatação de que viajar ao exterior sem ter ao menos um conhecimento básico do idioma do país de destino é um convite ao caos. Portanto, não somente erroneamente Roma, mas em qualquer lugar há de se ter "boca", saber falar.

" São as coisas pequenas de que têm sido feitos meus livros " (Go...

literatuta paraibana gonzaga rodrigues
"São as coisas pequenas de que têm sido feitos meus livros"
(Gonzaga Rodrigues)

Clamoroso equívoco, diria Eduardo Portela, quem considera a crônica um gênero menor, um desdobramento marginal ou periférico do fazer literário, quando ela é, sem tirar nem pôr, o próprio fazer literário.

Não faz muito tempo, escrevi que imaginava o cronista à semelhança de um camelô vociferando a céu aberto, vendendo o seu produto: o cotidiano, que é a matéria do dia a dia que nutre a crônica, quer o camelô grite a plenos pulmões, quer se feche em copas, introspectivo, conversando com os seus botões, consigo mesmo, embora procure fazer com o que ele diz repercuta entre os que se aglomeram inamovíveis ao seu derredor.

literatuta paraibana gonzaga rodrigues
Kitap Yayinlanirken
Se o título do livro de Gonzaga Rodrigues é “Com os olhos no chão”*, Antonio Candido utiliza um termo mais ou menos semelhante para observar “(...) que a celebração da vida ao rés-do-chão pela crônica é enfocada na tradição da prosa modernista, como conversa aparentemente fiada”.

Aqui, valho-me de um texto do poeta Mario Quintana: “Subnutrido de beleza, meu cachorro-poema vai farejando poesia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará desperdiçado por aí... Quanto filhotinho de estrela atirado no lixo”.

literatuta paraibana gonzaga rodrigues
Desiderius Erasmus
De olhos no chão, o cachorro-crônica de Gonzaga Rodrigues também fareja poesia em tudo, pois sabe cascavilhar e localizar nas coisinhas miúdas, no aparente monturo, nos sobejos de Deus, os filhotinhos de estrela que constelam e iluminam a sua linguagem solar. É um “demiurgo de inutilidades”.

Alguns se admiram da memória de Gonzaga quando ele reconstitui os episódios da infância, da juventude, como se os estivesse vivendo no calor da hora. A mim me alumbra não só a memória, mas, sobretudo, a maneira como ele a concatena de forma inteiriça, com a linguagem firme, ereta espinha dorsal que não se verga, não se dobra, diante dos seus novent’anos recém-inaugurados.

literatuta paraibana gonzaga rodrigues
Manet
Em “Com os olhos no chão”, a par dos pequenos causos que só adquirem significado, importância, grandeza, porque Rodrigues os enlaça com os cordéis dos “demiurgos de inutilidades”, outros escritos tratam da alma das ruas e dos homens, anônimos ou não, que compõem a história da Paraíba. Ou seja, abordam assuntos e temas mais abrangentes, pois em Gonzaga Rodrigues, convivem em harmonia e sem riscos de abalroamentos, o cronista, o articulista, o historiador, o poeta etc.

literatuta paraibana gonzaga rodrigues

* Gonzaga aproveitou o excelente prefácio de Antônio Barreto Neto do livro “Notas do meu lugar” (1978), de sua autoria, como texto de abertura de “Com os olhos no chão”, cuja concepção gráfica é do competente designer e saudoso poeta Juca Pontes. O filho de Gonzaga, Paulinho Rodrigues, colaborou na seleção dos textos. A capa do livro é do excelente Flávio Tavares.

Não havia pranto em volta da nossa amiga, à exceção dos olhos da filha que se marejaram quando da nossa chegada ao velório, apenas nest...

santo catolico morte separacao
Não havia pranto em volta da nossa amiga, à exceção dos olhos da filha que se marejaram quando da nossa chegada ao velório, apenas neste momento. É como se aquela mãe houvesse passado a ordem aos três rebentos, uma moça e dois rapazes: “Sem choro”. Não o fizesse para poupá-los do desespero, assim o faria a fim de não comprometer o bom humor com que sempre se postou na vida. Em seus bons momentos, ninguém ficava sem rir ao seu lado.

O ludismo exerce um importante papel no exercício da expressão verbal, desde o instante em que se faz a manipulação livre dos fonemas...

linguagem educacao ludico
O ludismo exerce um importante papel no exercício da expressão verbal, desde o instante em que se faz a manipulação livre dos fonemas, até quando é considerado o efeito da polissemia das palavras, colaborando para ambiguidade como instrumento dessa investigação linguística que a criança necessita como forma de explorar também o mundo. Ela altera partes das palavras para experimentar, utiliza-se de abstrações à procura do concreto. Joga com as palavras, transformando-as para conhecer o quanto de força argumentativa/retórica elas possuem.

Eu lia uma dessas pesadas Histórias da Arte, quando tive um alívio enorme: depois de mais uma vez atravessar a Renascença Italiana...

haicai bonsai saulo mendonca marques arte japonesa
Eu lia uma dessas pesadas Histórias da Arte, quando tive um alívio enorme: depois de mais uma vez atravessar a Renascença Italiana – cheia de calvários, mártires, batalhas e juízos finais – entrei numa leve e clara abordagem da arte japonesa. Com isso entendi porque ela foi agente importante da grande revolução ocorrida com o Impressionismo. Imagine o frescor que os europeus da época sentiram na descoberta, por exemplo, das Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji, de Hokusai.

A fé é um sentimento profundo que reside no coração de cada ser humano. É a crença inabalável em algo ou em alguém, mesmo quando não há...

fe sentimento religiosidade otimismo
A fé é um sentimento profundo que reside no coração de cada ser humano. É a crença inabalável em algo ou em alguém, mesmo quando não há provas concretas. É uma convicção que nos sustenta e nos impulsiona a continuar acreditando, mesmo diante dos obstáculos e das incertezas da vida.

O pulo da gata Só mesmo a super heroína Para olhar o mundo de ponta cabeça E, mesmo subindo pelas paredes Achar tudo...

poesia tatui cristina siqueira
O pulo da gata
Só mesmo a super heroína Para olhar o mundo de ponta cabeça E, mesmo subindo pelas paredes Achar tudo normal
Era aquela lua…
Entre as grandes luas há uma lua que colhi com gosto meio despida e orvalhada por meus olhos em amor tocada

Quando meu pai ficou em Tapuio, eu fui em busca de alguma coisa no mundo distante. Andei, virei e mexi, e quanto mais andei, mexi e vir...

Quando meu pai ficou em Tapuio, eu fui em busca de alguma coisa no mundo distante. Andei, virei e mexi, e quanto mais andei, mexi e virei, mais tornei a voltar em busca do menino que fui e que continua a morar nas encostas e veredas do meu lugar.

A Gaia Ciência ( Die fröhliche Wissenschaft , em alemão), obra publicada em 1882, apresenta um conhecimento estético presente na apreen...

nietzsche munch gaia estetica
A Gaia Ciência (Die fröhliche Wissenschaft, em alemão), obra publicada em 1882, apresenta um conhecimento estético presente na apreensão humana do mundo, que une arte e ciência de forma a integrar o teórico e a experiência ética. Foi escrita pelo filósofo, filólogo, poeta e compositor alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 — 1900). Para este gênio, a arte é uma prática inspirada de um sentido ético que impulsiona o ser humano a tornar a própria existência uma obra de arte e suportável por ser um fenômeno estético. Considerando isso, a estética da ética exige o desenvolvimento

Pegar a estrada, sair por aí e abraçar a Paraíba. A cada quilômetro rodado se desvendam as terras, os cenários e os recantos paraibanos...

Pegar a estrada, sair por aí e abraçar a Paraíba. A cada quilômetro rodado se desvendam as terras, os cenários e os recantos paraibanos. É uma oportunidade de ver o que o estado tem de tão encantador. Município a município as placas demarcando limites territoriais se acumulam pelas estradas, misturando a receptividade de cada povo, expondo características dos lugares que, unidas, formam a Paraíba de paisagens, alegrias e particularidades.

A umidade me é familiar; ela me envolve como um útero materno — penso, enquanto contemplo o sol nascer no deserto de Nevada. Ardem as p...

deserto nevada arizona cronica viagem
A umidade me é familiar; ela me envolve como um útero materno — penso, enquanto contemplo o sol nascer no deserto de Nevada. Ardem as pedras do solo áspero e bruto, com minúsculas sombras a se projetarem na planície desenhada em ocre, bege, marrom e amarelo-claro. Estranha é a aridez, exótica sensação que me toca a pele. Ela se aproxima de mim desidratando, ressecando e me pedindo para compreendê-la em meu corpo. O deserto me convida a desvendar os seus e os meus mistérios; a pensar nele como um receptáculo de vida que se esgueira, subterrânea, sob a areia quente e em mim como um ser capaz de buscar alturas e testar a borda dos abismos.

Torço pelo Botafogo desde que, menino de calças curtas, vi Garrincha atuar no time. Posso dizer que minha escolha se fez certa por pe...

botafogo futebol garrincha
Torço pelo Botafogo desde que, menino de calças curtas, vi Garrincha atuar no time. Posso dizer que minha escolha se fez certa por pernas tortas, como é a escrita de Deus.

Com o tempo, passei a identificar Garrincha como a melhor representação do emblema do time – a estrela solitária. Seu drama pessoal, marcado pelo alcoolismo e por uma ingenuidade que o levou a ser explorado por empresários do futebol, dava-lhe um brilho que repercutia no meu ânimo de torcedor. Ele era também a alegria do povo.

Que tipo de guerra pode ser doce, em que a munição se transforma num imenso lago vermelho, quase sangrento, espalhado pelas ruas de ...

tomatina livros markus zusak
Que tipo de guerra pode ser doce, em que a munição se transforma num imenso lago vermelho, quase sangrento, espalhado pelas ruas de uma cidade, e toda população se pinta da cor de sangue, com tamanha intensidade com que se espalha como a tinta das balas?

Pois é com esse modelo de violência que os moradores de Buñol, na província de Valência, morrem de rir, de se divertir e de cansaço. O nome dessa guerra é "A Tomatina", uma das festas tradicionais que mais atraem turistas à Espanha. Todos os anos, multidões se banham na rua, tomada de vermelhos tomates maduros e esmagados. Uma bela confusão lambuzada que acontece na última quarta-feira de agosto.

Ela se chamava Isabel da Nóbrega (pseudônimo de Maria Isabel Guerra Bastos Gonçalves), escritora portuguesa, autora de respeitada obra...

saramago isabel premio nobel
Ela se chamava Isabel da Nóbrega (pseudônimo de Maria Isabel Guerra Bastos Gonçalves), escritora portuguesa, autora de respeitada obra e falecida em 2021, aos 96 anos, no Estoril. Ele, o tal prêmio Nobel, foi José Saramago, companheiro dela de 1970 a 1986 e falecido em 2010. A partir de quando se separaram, em 1986, literariamente ele foi cada vez mais em frente (e para o alto), enquanto ela, pode-se dizer, estagnou ou, digamos, permaneceu onde estava, com seu nome praticamente restrito ao seu país. Ele foi ao mundo e se apaixonou por outra, a jovem jornalista espanhola Pilar, a quem legou o título de “viúva” e os bônus correspondentes. Eu diria que legou-lhe até mais, dado o sumiço imposto a Isabel desde a separação: seu presente, sua posteridade e até,

Somos todos, presentemente, passageiros de um navio em perigo. Alguns já perderam até a esperança, e aceitam em silêncio a fatalida...

medicina dedicacao humanismo
Somos todos, presentemente, passageiros de um navio em perigo. Alguns já perderam até a esperança, e aceitam em silêncio a fatalidade de uma catástrofe que sua covardia torna mais certa. Entretanto, alguns, se sobreviverem ao naufrágio, recusam-se a morrer sem ter feito tudo para salvar, não as matérias mortas, mas, as forças vivas, os calores espirituais, que são as chamas onde se acenderão novos focos.

Eis agora o mar de volta. Vastidão que aqui reflete esperança adormecida Com a brisa que me trazes, agora não tão morna...

Eis agora o mar de volta. Vastidão que aqui reflete esperança adormecida Com a brisa que me trazes, agora não tão morna, vejo como é bom sentir o teu cheiro, tuas ondas, ver o céu em que te espelhas Seja bravo em tempestade, ou terno em calmaria, é a ti que a Terra deve tudo o que exala a vida

Postagens mais visitadas