24.10.25
Os ipês já floriram no Sertão. Surgem em pontinhos de amarelo na imensidão seca após a descida da serra e reaparecem pelas terras serta...
Os ipês já floriram no Sertão. Surgem em pontinhos de amarelo na imensidão seca após a descida da serra e reaparecem pelas terras sertanejas adentro. Dão tons alegres, assim como os inexplicáveis diamantes colados ao piche do asfalto que brilham ao cruzarem os olhares com os sóis matutinos e vespertinos. E mesmo a vegetação esquelética está viva, à espreita da chegada das chuvas na invernada de janeiro. Aguardam, ressequidas, poupando energia para rebrilhar de verde os recantos hoje áridos. Que a chuva não falte.
24.10.25
24.10.25
Não sei quem patenteou o elástico, mas estou informado de que isso ocorreu por volta de 1845, impulsionando a moda feminina e áreas ...
Não sei quem patenteou o elástico, mas estou informado de que isso ocorreu por volta de 1845, impulsionando a moda feminina e áreas afins. O Século 20 trouxe o refinamento da invenção e o termo comum ao mundo dito civilizado, o Lastex. Sempre assim: entrelaços de borracha e fios da tecelagem para as lingeries, roupas de banho, saias e vestidos simples e de gala com suas pregas, franzidos e armações. Estas últimas vieram para substituir hastes de ossos, ou molas metálicas em anquinhas e espartilhos. Flexibilidade e conforto têm sido, desde então, a promessa explícita dos fabricantes e profissionais da costura feita, hoje em dia, para a maioria dos bolsos. A depender da peça, o elástico, por sua vez, aposentou zíperes, colchetes e botões, o que vale para a moda íntima e a esportiva.
24.10.25
23.10.25
Um fato que parece inusitado na vida de um médico é o adoecer — e é evidente que isso o deixa em casa, afastado de suas sublimes ativida...
Um fato que parece inusitado na vida de um médico é o adoecer — e é evidente que isso o deixa em casa, afastado de suas sublimes atividades e missões no seu discipulado hipocrático. No meu caso, recuperando-me de uma pequena cirurgia — graças a Deus, muito bem-sucedida —, nos crepúsculos dessa recuperação seguirei as vertentes do contemplativo, do reflexivo, do estudo, do espiritual-religioso e do lazer, que incluirá viagens, entre outros.
Só retornarei às minhas, às vezes difíceis e muitas vezes cansativas, porém plenamente gratificantes, atividades profissionais após o Natal. Gosto sempre de recordar essa assertiva tão verdadeira: médico também adoece, ratificando o título inicial do texto.
Assim sendo, meus neurônios cerebrais não conseguem ficar em repouso. De repente, entraram em ebulição, norteando-me para a reflexão que se segue nas linhas abaixo.
Refletindo sobre a necessidade imperiosa de o médico possuir um espírito lógico, objetivo e pragmático, de súbito veio-me à mente que o estudo da medicina impõe uma preparação, uma formação médica, uma técnica lógica e uma maneira particular de pensar.
A vocação médica direciona de forma imperiosa, porque nenhuma profissão se projeta com tanta penetração sobre a vida humana quanto o sublime exercício da medicina.
Encerrando estas linhas, vem-me à mente um pensamento lapidar do grande gênio dos primórdios da ciência, Galeno:
“Aquele que mais estima a riqueza do que a virtude, e que aprende a sua arte para acumular fortuna, e não para o bem da humanidade, não merece figurar entre os que exercem a profissão médica.”
23.10.25
23.10.25
Simulacro refere-se a algo irreal que se tornou tão parecido com o real que não é possível distinguir qual é o verdadeiro. A teoria do ...
Simulacro refere-se a algo irreal que se tornou tão parecido com o real que não é possível distinguir qual é o verdadeiro. A teoria do simulacro – desenvolvida pelo filósofo e sociólogo francês
Jean Baudrillard (1929–2007), em seu livro
Simulacros e Simulação, publicado em 1981 – constitui uma reflexão sobre a sociedade contemporânea. Uma de suas teses defende que o real e sua representação tornaram-se indiscerníveis. Isso deu início a um sistema de imagens e signos no qual a realidade concreta desaparece, dissolvendo-se na proliferação de reproduções ou narrativas que já não remetem a uma origem estável. Nessa perspectiva, muitas pessoas vivem imersas em uma falsidade, na qual a própria noção de verdade se converte em um efeito produzido pelas representações enganosas.
23.10.25
23.10.25
Em um mundo onde a efemeridade parece ser a regra, a literatura se destaca como um refúgio eterno. Para muitos, como eu, essa arte não ...
Em um mundo onde a efemeridade parece ser a regra, a literatura se destaca como um refúgio eterno. Para muitos, como eu, essa arte não é apenas uma forma de expressão, mas uma verdadeira âncora emocional, um laço que conecta gerações e experiências. Minha trajetória literária começou sob a influência de uma poetisa que, com suas palavras, moldou meu entendimento sobre a beleza da escrita. Como professor, tive a honra de compartilhar essa paixão com alunos, plantando sementes de amor pela literatura em corações jovens, que, quem sabe, se tornarão novos escritores.
23.10.25
22.10.25
Não encontraremos por aqui refinarias de petróleo, montadoras de automóveis, fábricas de aviões, nem uma avenida que exerça o mesmo ...
Não encontraremos por aqui refinarias de petróleo, montadoras de automóveis, fábricas de aviões, nem uma avenida que exerça o mesmo poder de outra via — a Faria Lima — que, lá em terras paulistanas, detém as rédeas da vida financeira do país. Nada disso. Evoluímos na medida do possível, sem aquela pressa alucinante, escrava dos ponteiros e dos prazos.
22.10.25
22.10.25
Fomos felizes enquanto estávamos distraídos. Distraídos, venceremos a certeza de que a finitude nos encontrará com seu olhar indifere...
Fomos felizes enquanto estávamos distraídos. Distraídos, venceremos a certeza de que a finitude nos encontrará com seu olhar indiferente aos nossos sonhos e esperanças.
22.10.25
21.10.25
Tenho uma amiga que gosta de viajar e conhece as vozes de muitas paisagens de nosso país — inclusive a paisagem da alma. Quando relata...
Tenho uma amiga que gosta de viajar e conhece as vozes de muitas paisagens de nosso país — inclusive a paisagem da alma. Quando relata suas viagens, eu viajo com ela. Faço uma viagem imaginária quando conversamos sobre os lugares por onde andou. Parto do que me conta para fazer minha viagem fantasmagórica. Nada dissipa as conspirações dos sonhos que ousamos realizar sob a ótica de suas palavras.
21.10.25
21.10.25
Introdução A influência do Medievo permeia toda a produção literária que lhe é posterior — sobretudo a que se vincula a estéticas na...
Introdução
A influência do Medievo permeia toda a produção literária que lhe é posterior — sobretudo a que se vincula a estéticas nas quais é visível o primado da subjetividade, da musicalidade ou da emoção. Seja através dos trovadores galego-portugueses, com as cantigas de amor e, sobretudo, as de amigo, seja pela vertente dos romanceiros, observa-se, desde o Pré-Romantismo, a presença de temas e de recursos retórico-estilísticos ligados à Idade Média.
21.10.25
20.10.25
Mesmo que lá se vá mais um dia, o crepúsculo se despeja sobre a cidade com a mesma ternura dourada de sempre. Observo da janela os tran...
Mesmo que lá se vá mais um dia, o crepúsculo se despeja sobre a cidade com a mesma ternura dourada de sempre. Observo da janela os transeuntes, cada um carregando seu fardo invisível de horas, e me pergunto se também sentem isso: a estranha persistência de uma paisagem interior que o tempo não consegue erodir. Os cabelos embranquecem, a pele marca seu território, os joelhos reclamam de subidas que antes eram voos. O corpo, ah, o corpo é um relógio de areia implacável. Mas há algo dentro dele que não aceita a contagem.
20.10.25
20.10.25
A desvirtuação e a banalização das honrarias geram inevitavelmente o seu descrédito. A falta de critério e a excessiva generosidade na ...
A desvirtuação e a banalização das honrarias geram inevitavelmente o seu descrédito. A falta de critério e a excessiva generosidade na concessão, retiram de títulos, medalhas e premiações todo o valor, reduzindo-os a meros penduricalhos, não raro mais constrangendo que orgulhando seus ganhadores. Temos visto muito disso entre nós e para além dos muros baixos da aldeia.
20.10.25
19.10.25
Embora nenhum biógrafo de Schopenhauer confirme, diz-se que, certa vez, o filósofo alemão foi visto parado diante de um jardim, imóvel,...
Embora nenhum biógrafo de Schopenhauer confirme, diz-se que, certa vez, o filósofo alemão foi visto parado diante de um jardim, imóvel, silencioso e com o olhar perdido entre as flores.
19.10.25
18.10.25
A crônica, a que é fruto da subjetividade, infunde bem mais vivência (e certamente por isso) do que a sua versão historiográfica. Corio...
A crônica, a que é fruto da subjetividade, infunde bem mais vivência (e certamente por isso) do que a sua versão historiográfica. Coriolano de Medeiros, corógrafo no tempo em que esse nome dava mais prestígio, escrevendo tão seguro quanto o mestre B. Rohan, identifica-nos com a alma da terra, com o nosso jeito um tanto desligado de ser — mais pela crônica do que mesmo pelos seus elaborados estudos e pesquisas de estilo ensaístico.
18.10.25
18.10.25
Pense bem em tudo que você já fez e que ninguém imagina... Aquele segredo oculto, aquela escolha impura, aquele impulso que você esc...
Pense bem em tudo que você já fez e que ninguém imagina...
Aquele segredo oculto, aquela escolha impura, aquele impulso que você esconde no fundo do armário da consciência.
E as mentiras?
18.10.25
18.10.25
O poema deve agradar ao leitor, não ao crítico. Se ele agrada ao crítico, tanto melhor. Vejo o poema como um relógio, cujo destino fi...
O poema deve agradar ao leitor, não ao crítico. Se ele agrada ao crítico, tanto melhor. Vejo o poema como um relógio, cujo destino final é o usuário, não o relojoeiro. Ao usuário é suficiente que o relógio lhe forneça o que ele deseja: a exatidão na marcação das horas. Quanto mais o relógio atender à expectativa do usuário, maior será a sua satisfação. O usuário admira-se com a exatidão, com a marcação, dia após dia, dos segundos, minutos e horas.
18.10.25
17.10.25
CATABI – É o resultado da passagem do automóvel por um buraco no meio da rua. Zeca Porto é testemunha da definição de Carlos Aquino, ...
CATABI – É o resultado da passagem do automóvel por um buraco no meio da rua. Zeca Porto é testemunha da definição de Carlos Aquino, quando íamos os três ao T.R.F. do Recife em busca de justiça: “– São as oscilações excêntricas do asfalto.” Era um catabi de intelectual, né?
O CARNEGÃO DA PEREBA – Eram aqueles olhinhos de pus que nasciam no meio das perebas que os xaropes colocavam pra fora do nosso corpo. Minha avó tinha um certo prazer sádico em estourar aquelas porcarias. Doía demais.
17.10.25