Uma justiça injusta que, antes de dar início aos ritos processuais, já decidiu pela condenação, não importando a argumentação da defesa, ignorando provas e engrolando uma sentença com juridiquês e latinório suficientes, para confundir e embair o público, tendo em um dos seus maiores representantes alguém que se expressa sempre com voz macia e educada, encobrindo a malignidade que o habita.
“Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser então.”Clarice Lispector
Eis o nosso grande desafio cotidiano: ser. Ser jovem é mais que estar jovem. Ser velho e não estar velho. A gente precisa se reinventar todo dia. Essa dinâmica da vida exige que tenhamos um desprendimento muito grande da pessoa que queremos ser e ainda não temos os instrumentais que, de fato, nos guiem. A linguagem me é essa bússola para que eu não me perca nesse mundo de possibilidades. Em contrapartida, há momentos em que nos deparamos com pessoas que não nos deixam ser.
Ladrões fortemente armados, portando metralhadoras, granadas e fuzis AR15 entraram num banco e anunciaram o assalto. Foi aquele maior clima. Enquanto o vigilante sabiamente escondeu-se no banheiro porque com um revólver 38 não iria se passar por herói, um dos bandidos gritou: “- Ninguém reaja porque o dinheiro é do banco mas suas vidas pertencem a vocês”. Deu certo, todos ficaram em silêncio e se deitaram no chão. Isso foi uma prova de mudança de mentalidade.
Faz parte das brincadeiras da infância, e das brincadeiras cretinas da juventude, colocar apelidos nas outras pessoas: irmãos, colegas, vizinhos, todos podem ser alvo de uma atividade (geralmente) chata chamada “apelidar os outros.” É inevitável.
Aos meus nove anos, por aí assim, aquilo me parecia uma ladeira enorme, assustadora, pois feita de água. Fosse por mim, de jeito nenhum eu desceria daquele ônibus. A coisa começava ao nível do chão e subia até tocar no céu, fundindo ambas as cores e seus limites. Não fosse por algumas nuvens, eu não mais saberia onde, lá no fundo daquela paisagem sem fim, começava um e terminava o outro.
A felicidade é um estado de espírito que muitas vezes pensamos estar distante de nós. Buscamos em lugares longínquos, em conquistas materiais ou em relacionamentos externos, achando que a felicidade está lá fora, longe de nós. Porém, a verdade é que a felicidade não mora longe,
O The New York Times chamou de “milagre” o fato de todos os 367 passageiros e os 12 membros da tripulação da Japan Airlines terem escapado do avião em chamas. Eu chamo de treinamento perfeito, excelente engenharia e passageiros capazes de seguir instruções e manter a calma em situações de extremo stress.
Retirar quase 400 pessoas de um avião em chamas é um grande feito, que remete diretamente à proverbial disciplina japonesa.
Quem diria... Até há pouco tempo comemorávamos o Natal e o Ano Novo, com muita festa, muito barulho, muita comida, muita bebida. Pouco mais virá o “Folia de Rua” e o Carnaval... Decididamente o homem é um animal festivo por excelência. E não falta motivo para festas. Seja para comemorar um nascimento, um casamento, uma formatura, as bodas de prata, de ouro, de diamante. Festa... Ah, quantas festas!
Havia o cabide e nele, quais morcegos, as roupas esfarrapadas dependuradas. O relógio marcava o embranquecer da vida em cabeleiras mal penteadas do casal que perambulava, sem ter o que fazer, pelos recantos da moradia pobre. Casaram-se todos os moleques que tiveram, levaram suas vidas para terras distantes, deixando uma vacuidade. Somente um rádio de pilhas tocava: cantigas de viola, nas tardes que se iam amolecendo até tudo puxar uma escuridão que estendia seu corpo pelo pequeno sítio onde habitavam.
O conselho de Nathanael Alves era de que devemos fazer a leitura do livro, para depois retornar ao prefácio, ao texto de apresentação. Assim procedo, há mais de quatro décadas, seguindo, à risca, essa recomendação.
O livro A Arte de Amar foi escrito em 1956 por Erich Fromm (1900–1980), psicanalista, filósofo e sociólogo alemão. A obra aborda o amor como uma forma de arte. Nele, o autor argumenta que o amor requer prática e concentração contínuas, além de maturidade, desenvolvimento pessoal, capacidade de amar o próximo, humildade, coragem, fé e disciplina. O pensador afirma, no terceiro capítulo:
O Espiritismo, particularmente, tem uma presença muito forte na nossa vida, na nossa família. Desde meu avô, que presidiu a Federação Espírita Paraíba por 44 anos consecutivos (uma vida!), e depois com meu pai, que se tornou espírita muito cedo.
Eis que, kardecista convicto, apaixona-se por uma garota católica, filha de uma recatada viúva, apostólica romana, típica devota que vai à missa e comunga todas as manhãs a hóstia consagrada.
A cidade, vamos chamá-la pela fictícia denominação de Nazaré do Espírito Santo e que ficaria nessas brenhas de mundo esquecidas de Deus. Umas cinco mil almas, não mais que isso, viviam naquele grotão, um vale entre algumas elevações montanhosas com Igrejas, a Católica e a Universal, uma escola de Ensino Fundamental, um posto de polícia e nada mais relevante para aqui se registrar.
As grandes datas têm sobretudo um valor simbólico. É o caso do Ano-Novo, que em essência não muda nada mas nos dá a impressão de que alguma coisa recomeça.
Todo ano a mais é um sinal de envelhecimento, mas insistimos em pensar que um novo tempo nasce à medida que outro morre. Em vez de sucessão, renovação. Na ingênua alegoria do nosso desejo, o Ano-Novo aparece como um bebê rechonchudo e risonho que vem substituir um velhinho magro e decrépito.
O precursor da carta dos direitos humanos foi o Cilindro de Ciro, uma peça rara cunhada em forma de barril e argila cozida, descoberta nas ruínas da Babilônia (Mesopotâmia), em 1879. O objeto, criado em vários estágios, mede 22,5 centímetros por 10 cm, no seu diâmetro máximo. Data do século VI a.C. (539 a.C.) e o texto talhado sua estrutura elogia Ciro, o Grande, listando sua genealogia como um rei de uma linhagem de reis. Nele, é declarada a liberdade de religião e a abolição da escravatura. Todavia, o Museu Britânico e alguns estudiosos rejeitem essa interpretação de protagonismo sobre as normas que reconhecem a dignidade humana.
▪ Mabruk: palavra de origem árabe que significa “Felicidade”, “Próspero”, “Que comece abençoado”. Expressa o caráter de bênção daquele dom pelo qual felicitamos alguém.
▪ Mazal: termo usado no misticismo judaico para descrever a raiz da alma.
Vendo, com Alcione, da janela do nosso quarto, aqui em Coimbra, as brumas do Ano Novo, lembrei-me de que publiquei neste Ambiente de Leitura Carlos Romero, um texto intitulado As brumas de dezembro, em que eu me reportava à passagem do que se convencionou chamar “Ano Novo”. Em rápidas palavras, o ano, no primeiro calendário do mundo ocidental, atribuído tradicionalmente a Rômulo, o mítico primeiro rei de Roma, começava em março, acompanhando o ritmo das estações. Como Roma se situa no hemisfério norte, entre os dias 20-22 de março, sob o influxo da Constelação de Peixes, ocorre o início da primavera, a primeira das estações, com o fenômeno conhecido por Equinócio de Primavera.
Janeiro é o primeiro mês do ano, mês de expectativas positivas, planos, projetos, mas que, ainda assim, traz o gosto das experiências e sensações legadas pelo ano findo.
A origem do nome janeiro está no deus latino Jano. Numa Pompílio, no século VI a.C., incorporou o mês de janeiro ao calendário,
Eu tinha 15, 16 anos, trabalhava de dia e fazia um curso um tanto ingênuo de pintura à noite. Foi quando meu pai me deu o Primeiro Encontro com a Arte, da Melhoramentos, obra do alemão-baiano Karl-Heinz Hansen. Aconteceu que nesse livro dei - entre tantas obras-primas espalhadas pela Europa -
com o então divulgado como o Autorretrato do artista com a barba nascente, de Rembrandt, no MASP, o que me fez passar a insistir para que alguém me levasse ao Museu de Arte de São Paulo que, na época, ficava na 7 de abril (Somente iria para a Av. Paulista em 68). Aquele filho-de-deus-na-Terra estava a hora e meia de ônibus de mim! Quem me levou foi minha irmã Wilma (que perdemos em 2019, aos 87 anos). Inesquecível, isso, porque - ao cruzarmos a rua para chegarmos ao museu -, ela teve um belo flerte com Hélio Souto (1929-2001), então galã famoso do cinema brasileiro. Anos depois, a autoria do quadro foi desautorizada por experts holandeses. Mas tudo bem. Conheci o MASP. Tive outro ganho igualmente notável, que ainda subsiste: o texto, nesse livro, que há sob a foto do Les Glaneuses (As
Respigadoras), de Millet:
- Os braços das duas mulheres mostram em seu trabalho uma tendência para baixo, dão ao quadro um peso para a esquerda. Para compensar, Millet utilizou-se do cavaleiro no alto, à direita.
O CENÁRIO D'A VERDADEIRA ESTÓRIA DE JESUS era composto de duas torres e uma mesa, tudo feito com canos de ferro galvanizados. As torres consistiam em quatro tubos verticais cada uma, sustentando dois pisos e uma escadinha, também de ferro. Quando o diálogo dos quatro evangelistas anunciava que se ia rememorar a travessia do Mar Vermelho, havia um blecaute e, no reacender dos refletores, a cena... passava a ser vista,
WJ Solha
pela plateia, ... de cima, Dema e Tião já na horizontal, como se os dois canos laterais das duas torres fossem balaustradas de um par de pieres. Aí o Jorge (de repente Moisés), também na horizontal, suspenso um pouco acima da mesa, via Dema alarmando que o exército egípcio se aproximava e que eles estavam encurralados pelo Mar Vermelho (a cortina do teatro, vermelha, "abaixo" deles). Aí um tubo de luz surgia da entrada da plateia sobre o grupo, que ouvia - olhando "para cima", na verdade por cima do público, para a fonte do clarão - minha voz ampliada, dizendo as palavras de Jeová: Moisés, estende o teu cajado sobre o mar... e fende-o! Jorge fazia isso, ... as cortinas do Teatro Santa Roza se abriam ao som da música imponente,... e a plateia ... delirava. Acho que foi a criação mais aplaudida de meu teatro.
MAS ACHO QUE O MAIOR "MILAGRE" que vi, em arte, como Suspension of Disbelief (Suspensão da Incredulidade ou "suspensão do julgamento sobre a implausibilidade, numa realidade secundária") foi a que me deixou pasmo no Louvre: a magnífica Vitória de Samotrácia, em que o autor desconhecido, há vinte e dois séculos, fez, na pedra, um belo corpo de mulher vestido em "transparente" tecido... de pedra!
Vitória de Samotrácia (Museu do Louvre) Marie-Lan Nguyen
Excertos do livro "Autob/i/ografia", disponível impresso na Arribaçã e em formato Kindle na Amazon
O leitor já ouviu falar nesse tal questionário Proust? Não tem problema se não. Ele é um conjunto de perguntas de autoconhecimento tornado comum em fins do século XIX e era algo assim como os diários, cultivados por moços e moças, principalmente por estas, sempre sonhadoras. O célebre escritor francês Marcel Proust (1871-1922) respondeu-o quando tinha 18 anos,