7.7.13
Sim, estou me referindo ao meu irmão e quase pai, Eudes Barros. Irmão mais velho do primeiro matrimônio, pois minha mãe casou-se dua...
Eudes era assim
Sim, estou me referindo ao meu irmão e quase pai, Eudes Barros. Irmão mais velho do primeiro matrimônio, pois minha mãe casou-se duas vezes. Somos filhos de Alagoa Nova, cidade que Eudes qualificou com muita razão de “sítio público de mangueiras”.
6.7.13
G onzaga Rodrigues, por conta de seus bem vividos oitenta anos, do muito que fez e está fazendo pela nossa cultura, foi alvo de merecidas ho...
Gonzagração
Gonzaga Rodrigues, por conta de seus bem vividos oitenta anos, do muito que fez e está fazendo pela nossa cultura, foi alvo de merecidas homenagens. A União não pensou duas vezes e eis o cronista fazendo parte das comemorações do venerável matutino, que está completando 120 anos a serviço da cultura paraibana. O superintendente Fernando Moura fez questão de uma grande festa, reunindo toda a família do jornal, à qual não faltou o nosso Hélio Zenaide, um dos melhores veteranos da nossa imprensa.
Mas os oitenta anos do nosso Gonzaga e as doze décadas do velho matutino, que está cada vez mais jovem, motivaram a festa. E o nosso cronista-mor estava vibrando de alegria e entusiasmo como se estivesse mangando das suas oitenta primaveras. Aliás, Gonzaga, no seu sorriso parece chorar.
A verdade é que o mestre da crônica, que aprendeu jornalismo sem se ensinar, como diria o poeta pernambucano Ascenso Ferreira, é um homem de alma escancarada, jamais se fechando. Nasceu em Alagoa Nova, respirando o mesmo ar que respirei. Ar puro daquele “sítio de mangueiras”, como diria o poeta Eudes Barros.
Mas o bonito mesmo foi ver no telão da festa e na capa do Correio das Artes o nosso cronista cheirando uma flor. Que lindo! Perfume da flor, sorriso de Gonzaga.
A beleza é que tivemos uma verdadeira gonzagração. Parabéns ao superintendente Fernando Moura e sua equipe pela idéia de colocar a festa dos oitenta anos de Gonzaga Rodrigues na programação comemorativa 120 anos do nosso secular matutino.
E termino a crônica dizendo: Gonzaga velho? Não. Não envelhece quem nunca perdeu oentusiasmo pela vida, quem está com a cabeça cheia de idéias, quem sabe fazer amigos, quem tem uma família bonita com que o cronista soube transformar o lar num paraíso.
Vamos, Gonzaga, dar aquele sorriso de quem está em paz com a vida, com a consciência sem remorsos, de quem não esqueceu a responsabilidade de viver.
Vamos cheirar a vida como cheiraste aquela flor que a foto documentou, na capa da revista “Correio das Artes”, em homenagem aos teus muito bem vividos oitenta anos.
6.7.13
30.6.13
Para ver bem, através da memória, você tem de fechar os olhos. Aí o passado começa a se desenrolar no presente. Melhor dizendo, o passado vira presente. O homem agora é um menino de calças curtas, num sítio enorme, cheio de árvores com frutas de todos os tipos e sabores, desde o sapotí à manga. Manga espada, manga rosa, manga bacurí, manga baronesa, manga do papo roxo, manga... Basta! Senão vem aquela indigestão seguida de boas palmadas, pois o pai não permite abusos.
Para ver bem, através da memória, você tem de fechar os olhos. Aí o passado começa a se desenrolar no presente. Melhor dizendo, o passado vi...
Para ver bem
Para ver bem, através da memória, você tem de fechar os olhos. Aí o passado começa a se desenrolar no presente. Melhor dizendo, o passado vira presente. O homem agora é um menino de calças curtas, num sítio enorme, cheio de árvores com frutas de todos os tipos e sabores, desde o sapotí à manga. Manga espada, manga rosa, manga bacurí, manga baronesa, manga do papo roxo, manga... Basta! Senão vem aquela indigestão seguida de boas palmadas, pois o pai não permite abusos.
O sítio era imenso, como já disse, e o gostoso mesmo era subir nas árvores e ficar espiando, lá do alto, o quintal dos outros. Minha irmã dizia que era o “nosso cinema”. Agradável bisbilhotice. Ah, se meu pai soubesse... Naquele tempo ainda não havia a lei da palmada. E existia o castigo nas nádegas para tudo. Não ter apetite (também chupando manga e outras o tempo inteiro)... Não querer ir à escola, responder mal às pessoas, não desejar tomar banho, dizer nome feio, como bunda e assim por diante. Mas, pior do que as palmadas eram os bolos, palmadas nas mãos. E que dizer de tomar óleo de rícino (ruim como o diabo) para matar as lombrigas, sem esquecer o óleo de fígado de bacalhau?
O sítio era um reino encantado. Tinha de tudo, de frutas às brincadeiras. Tinha até namoros com as meninas das vizinhanças: Iara, Susana, Belkiss, Graziela... Mas tudo terminava e não passava de um beijo. Beijo na boca...
Lembrar que eu era caçula e ser caçula é a melhor coisa do mundo. Bem que deveria haver o Dia do Caçula.
E que tal o primeiro dia de aula? Uma beleza. Um novo mundo se descobria aos nossos olhos. A professora (minha professora se chamava Beatriz) era branquinha e perfumada. Primeiro dia de aula. Como era gostoso cheirar os livros novos que a escola recomendava. Tantos rostos desconhecidos. Garotas lindas, meninos chatos. Mas, logo depois vinha aquela saudade do sítio. A boca pedindo manga, os pés pedindo espaços para correr, a vida virando paraíso...
Mas chegou a hora de abrir os olhos e esquecer o passado. Abrir os olhos para a realidade, e para o presente.
O sítio era um reino encantado. Tinha de tudo, de frutas às brincadeiras. Tinha até namoros com as meninas das vizinhanças: Iara, Susana, Belkiss, Graziela... Mas tudo terminava e não passava de um beijo. Beijo na boca...
Lembrar que eu era caçula e ser caçula é a melhor coisa do mundo. Bem que deveria haver o Dia do Caçula.
E que tal o primeiro dia de aula? Uma beleza. Um novo mundo se descobria aos nossos olhos. A professora (minha professora se chamava Beatriz) era branquinha e perfumada. Primeiro dia de aula. Como era gostoso cheirar os livros novos que a escola recomendava. Tantos rostos desconhecidos. Garotas lindas, meninos chatos. Mas, logo depois vinha aquela saudade do sítio. A boca pedindo manga, os pés pedindo espaços para correr, a vida virando paraíso...
Mas chegou a hora de abrir os olhos e esquecer o passado. Abrir os olhos para a realidade, e para o presente.
30.6.13
30.6.13
O lho para o relógio, em que os ponteiros parecem parados. Dir-se-ia que o tempo anda a passos de cágado. E talvez assim seja, ou que assim...
Ah, o tempo...
Olho para o relógio, em que os ponteiros parecem parados. Dir-se-ia que o tempo anda a passos de cágado. E talvez assim seja, ou que assim pensemos. Dessa maneira a gente não se inquieta tanto com o passar do tempo.
Mas, a verdade é que, teoricamente, a trindade “futuro, presente e passado” vai marcando nossa marcha no tempo. Afinal, qual desses momentos devem ser levados a sério? Que indagação tola, cronista. Está na cara que o que importa, o que vale, é o presente, que é este tempo que já está virando passado. Dir-se-ia que o passado é o cadáver do tempo. Mas aí é que está o engano. Este cadáver está cada vez mais vivo, na nossa memória. É nele que estão os nossos erros, as nossas frustrações, nosso aprendizado. É recomendável, vez por outra, estar consultando-o. É bom viver o presente com as advertências do passado, esse cemitério de experiências. Queiram ou não, somos, em muitas coisas, o nosso próprio passado. Que seria dos museus se não fosse o passado? O presente está nele gritando advertências.
Mas falemos também do futuro, que nada mais é do que uma hipótese, um vir-a-ser. Como diz o ditado , o futuro a Deus pertence. A verdade é que toda a nossa vida se encaminha para ele. O futuro, portanto, se caracteriza pela incerteza. Nesta vida a gente não sabe o que ocorrerá no minuto seguinte...
Futuro, presente e passado. Qual seria o mais importante? Eu torço pelo presente. De sua vivência, depende um bom ou mau passado. Portanto, vamos aproveitar este presente, este aqui-e-agora.
O perigo do tempo é que ele passa silencioso e imperceptível. Se ele gritasse, se ele advertisse, se ele chamasse nossa atenção... Se ele dissesse: não durma, não se distraia, não deixe a vida se escoar, inutilmente.
Disse um autor espiritualista que o tempo é como a terra. Se nada plantamos nela, nada colheremos. Tempo vazio implica numa grande responsabilidade. E quando cerrarmos os olhos para a outra vida, a indagação será esta: o que fizeste de tua vida, do teu tempo, e de tua inteligência?
30.6.13
30.6.13
P ois é, deu-me vontade de escrever sobre meu tio torto, José Leal, ou Zé Leal para os mais íntimos. Um grande homem, que não tinha nada de ...
Zé Leal, que legal!
Pois é, deu-me vontade de escrever sobre meu tio torto, José Leal, ou Zé Leal para os mais íntimos. Um grande homem, que não tinha nada de torto. Pelo contrário, o homem era muito espigado. Parece que estou o vendo no seu trânsito diário em direção ao jornal O Norte, mas antes de ter dado um dedo de prosa na Associação Paraibana de Imprensa, que ele fundou e que era a sua segunda casa.
José Leal rima com jornal e este foi sua cachaça a vida inteira. Jornalista sem diploma, seja de Mestre, seja de Doutorado, muito menos de pós-doutorado...
Sua grande universidade foi a vida. Mas antes de vir lá de Alagoa Nova para cá, José Leal trabalhou na conservação de estradas. E foi nesse trabalho que ele foi soterrado com a queda de uma barreira. Deram-lhe como morto. E quando retiraram a terra que o cobria, eis que o encontraram totalmente sujo, mas sorrindo. Ninguém quis acreditar no que via. Assim me contaram.
Mas deixemos o trabalhador de estradas e voltemos a falar sobre o jornalista que aprendeu jornalismo sem se ensinar, como diria o poeta Ascenso Ferreira.
José Leal não foi apenas meu tio, e sim meu amigo. Davam-nos muito bem, Sabendo do meu gosto pela música erudita, convidou-me, justamente com Gonzaga Rodrigues, para organizar, naquela casa, a sua A.P.I., uma discoteca com discos de Bach, Beethoven, Chopin e vários outros gênios, Os discos eram pesados e grandes. A vitrola era enorme e movida a corda. Não sei se Gonzaga se lembra disso. Só sei que a nova discoteca veio modernizar aquela casa.
José Leal foi um homem de uma tenacidade admirável. Se não me engano (me ajuda, Wilis Leal!) ele ignorava o que era medo. Outra coisa: não sabia o que era ociosidade. Levou toda a vida trabalhando. Enquanto seus dedos dançavam no teclado da Remington, o cigarro ia enchendo a sala de fumaça. José Leal foi um fumante inveterado. Até andando a caminho de casa, lá para as bandas de Trincheiras, o cigarro não saía de sua boca. Outra coisa: nada o perturbava. Podiam jogar uma bomba aos seus pés, que ele não se incomodava. Parecia que tinha nervos de aço, tal era a sua serenidade. E José leal conhecia bem a história da Paraíba. Escreveu bons livros sobre essa matéria.
Meu tio José Leal... Fui vê-lo no hospital. Estava arquejante. Calado, o olhar fixo no teto. Tossia com muita dificuldade Os pulmões, completamente avariados em conseqüência do enfisema. O silêncio dominava a sala. Que diferença do burburinho agitado da sala da redação... Por fim, ele olhou para mim e cochichou: “Carlos, só levo um desgosto da vida: o de ter fumado. “E virou o rosto para a parede. Seu pulmão estava profundamente comprometido. Não havia mais cura... Ainda bem que eu, que fui fumante, deixei o vício em tempo.
Meu tio José Leal, tão forte para tantas coisas, mas se deixou dominar pelo venenoso e fedorento vício... Assim mesmo não podemos deixar de dizer: Zé Leal, que legal!...
30.6.13
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