15.9.13
T udo o que eu disse, até agora, sobre a Rua Nova foi pouco. A rua da minha adolescência, a rua-museu, a rua que guarda em suas calçadas min...
Uma rua dentro de mim (II)
Tudo o que eu disse, até agora, sobre a Rua Nova foi pouco. A rua da minha adolescência, a rua-museu, a rua que guarda em suas calçadas minhas lembranças, a rua que, por milagre, ainda continua, quase a mesma. Ninguém até hoje teve a coragem de derrubar uma de suas casas, de porta e janela, sem vigilantes, ainda com suas salas de visita. Qualquer pessoa podia bater palmas e gritar “ô de casa”, que alguém respondia: “ô de fora”. E tudo corria na paz do Senhor, com o relógio da Catedral avisando o passar das horas. As calçadas largas, cheias de sombras, serviam de campos de futebol para a meninada. E a bola não era de couro, mas de borracha ou de meia.
O silêncio era sólido. As pessoas deslizavam numa mansidão de sombras. Freiras e padres era o que mais se via. E a meninada quando avistava um padre, com sua batina preta, corria para ele, pedindo “santinhos”. Mas o bonito mesmo era a missa dos domingos, com os fiéis passando para a Catedral, muito bem vestidos. Muita gente indo para as janelas para ver e criticar os passantes. Os das janelas e os da rua se olhavam, se cumprimentavam. Ainda se dava um respeitável “bom dia”. Hoje não se usam mais os cumprimentos anunciando as horas. Hoje os homens viraram robôs. Ontem, tirar um chapéu era um gesto elegante e respeitoso.
E haja fofocas, críticas, sorrisos. O sino chamando o povo para a missa e quase todas as janelas ocupadas. Havia até mulher idosa usando binóculos para verem as pessoas de perto. Ah, a curiosidade humana! Mas isso era só aos domingos. Os dias comuns eram de silêncio.
Outro grande acontecimento, que tirava o silêncio da Rua Nova era a Semana Santa. A catedral se enchia. E haja jejum, nada de comer carne. Os santos todos vestidos de roxo. Uma tristeza mística tomava conta do templo. E na Sexta Feira Santa, a semana terminava com um longo sermão proferido defronte da Igreja de São Bento, em que se evocava Maria, a mãe de Jesus, com muitas lágrimas no rosto. Se não me engano, esse sacerdote se chamava João de Deus.
Rua Nova, hoje General Osório, não passa de um museu urbano. A cidade de ontem está, ali, naquela calçada, naquelas casas de porta e janela, naquele silêncio ainda místico.
E agora, me chega à lembrança um fato que me encantava os olhos e fazia vibrar meu coração. A saída das meninas do Colégio das Neves, ao lado da Catedral, defronte da estátua de Nossa Senhora de Lourdes. As garotas fardadas de blusa branca e saia azul, enchiam a rua com as suas risadas, a sua alegria, a sua juventude. Iam ao colégio sozinhas e muitas delas voltavam acompanhadas dos namorados. Nada de namoro perto do colégio, que as freiras proibiam. O policiamento do colégio era severo. Os rapazes sabiam disso e ficavam, de longe, esperando as namoradas. Meninas lindas, morenas, loiras e abrindo-se para o mundo com a sua alegria, seus sorrisos. Evidente que a Rua Nova também se contagiava com aquela euforia das adolescentes do colégio mais badalado da época, colégio de meninas ricas, cujo prédio ainda hoje existe e onde funciona uma faculdade de medicina.
Rua Nova... Por que diabo mudaram o nome para General Osório, que nem conheceu aquela rua, e que, decerto, nunca esteve na Paraíba? Mas, e a badalada Festa das Neves? Ah, sobre isso tenho muito o que dizer. Aguardem!
15.9.13
S im, eles são mudos. Melhor dizendo, eles falam, mas em silêncio. São centenas deles, aqui, à minha disposição. Não sei se gosta...
Mudos que falam
Sim, eles são mudos. Melhor dizendo, eles falam, mas em silêncio. São centenas deles, aqui, à minha disposição. Não sei se gostam de ser consultados, já que dormem, num gostoso silêncio. E com que alegria e orgulho são lembrados pela curiosidade do saber. Curiosidade que é fome de conhecimento. Sim, eles nos ensinam. Sem eles, seriamos ignorantes. E haverá maior desgraça do que a ignorância?
Com eles, não estou só. Dizem os apressados que os nossos mudos vão se acabar fisicamente. Vão ser todos virtuais. Mas eu fico duvidando... Ariano Suassuna, no seu eterno humor, disse que estar em sua companhia, deitado na cama, é uma delícia.
Mas voltemos ao que eu estava dizendo no começo sobre esses mudos que falam. Estou aludindo aos livros. Que adorável mutismo! Leitura, não esqueçamos, exige silêncio. Eis porque não admito uma livraria que venha perturbar esse silêncio. Ler é como orar. Jesus quando desejava se comunicar com o Pai, procurava um lugar deserto e silencioso. E assim nos ensinou a orar. Deus não fala através do barulho.
Entro na minha biblioteca como quem entra num mosteiro. Os livros dormem mas prateleiras e só despertam quando começamos a lê-los, isto é, a puxar conversa com eles. De música, só se for baixinho e que induza à reflexão. Que tal a Sonata ao Luar de Beethoven ou Clair de Lune de Debussy?
Livraria com música alta não dá. Logo agora que elas oferecem recantos com poltronas para a leitura. Lá em Lisboa visitei uma que era uma ilha de silêncio. Mais ainda: havia um espaço reservado à leitura com suave música ambiente. Que delícia. E os livros, estes mudos que falam, não perturbam o sossego.
E que tal esta bem-aventurança que não está no sermão inaugural de Jesus: “Bem aventurados os que lêem bons livros porque se diferenciam dos brutos”. E termino com este slogan do grande livreiro de Campina Grande, o saudoso Pedrosa: “faça do livro seu melhor amigo”.
E, aqui vão os aplausos ao amigo Heriberto, do “Sebo Cultural”, pela campanha que está empreendendo em favor da criança, cujos pais devem estimular o gosto pela leitura, a boa leitura.
15.9.13
14.9.13
Eis aqui um passatempo interessante para os beatlemaníacos: ouvir as músicas dos quatro fabulosos com a parte vocal isolada dos sons instrumentais.
Eis aqui um passatempo interessante para os beatlemaníacos: ouvir as músicas dos quatro fabulosos com a parte vocal isolada dos sons instr...
10 fabulosas músicas dos Beatles com os vocais isolados
Eis aqui um passatempo interessante para os beatlemaníacos: ouvir as músicas dos quatro fabulosos com a parte vocal isolada dos sons instrumentais.
14.9.13
8.9.13
A ntes de fazer a costumeira visita aos livros, o rapaz da livraria começou a puxar conversa comigo. Foi um papo gostoso, pois ele, além de ...
O rapaz da livraria
Antes de fazer a costumeira visita aos livros, o rapaz da livraria começou a puxar conversa comigo. Foi um papo gostoso, pois ele, além de inteligente e perspicaz, era muito viajado. Conhecia várias capitais do país, inclusive Belo Horizonte, Curitiba e Florianópolis, justamente as que eu não conhecia, conquanto já estivesse ligeiramente em Belo Horizonte e Ouro Preto, há muito tempo.
O jovem sabendo que eu já visitara várias capitais estrangeiras, disse sorrindo: “Não deixe de visitar Curitiba, a cidade das palmeiras”.
Depois ele começou a elogiar o chão da simpática metrópole. Nenhum buraco, tudo liso e limpo. Aí eu indaguei: você é curitibano? E ele: não, sou apenas seu namorado. E referiu-se à educação do povo. Educação no trânsito, em tudo, sem esquecer o respeito ao silêncio. Nada de barulho, tudo funciona numa harmonia que encanta. Os carros deslizam pelo asfalto que é uma beleza. Avançar o sinal, jamais. Muito respeito ao pedestre. Os carros parece que nem têm buzina, e a gente mal ouve o ruído dos pneus no asfalto. Eu já estava pensando em arrumar a mala para uma visita a Curitiba, quando ele revelou uma coisa que não quis acreditar: que nos ônibus por sinal moderníssimos, ouve-se musica clássica.
E ainda repetiu: “o senhor vai adorar Curitiba”. Não digo adorar, pois adoro minha João Pessoa, de quem hoje sou cidadão, graças à Câmara Municipal, através de um projeto do meu amigo vereador Fernando Milanez.
E continuando a conversa com o rapaz da livraria, ele me lembrou ainda a bela arborização da cidade. Toda vestida de verde, a árvore, ali, não é apenas respeitada, mas reverenciada. Derrubar uma árvore é como matar uma pessoa.
Mas, aqui para nós, minha cidade só precisa de maior atenção das autoridades, mas duvido que seja menos bela do que Curitiba Nossa cidade tem o mar. O mar de Cabo Branco, que, infelizmente, ao que denunciou o meu arquiteto Germano, outro dia, em artigo aqui no Correio, está com a água contaminada...
Mas o que eu não quis acreditar foi ele dizer que nos ônibus de sua cidade ouve-se música clássica. Já não vamos exigir tanto da nossa capital, que é bela por Natureza, como diz aquela modinha “Sublime Torrão”, do nosso grande compositor popular Genival Macedo.
8.9.13
7.9.13
Q uando eu vim de Alagoa Nova, minha terra natal, para viver na capital, foi na Rua Nova, hoje, General Osório, passando a morar numa casa, ...
Uma rua dentro de mim
Quando eu vim de Alagoa Nova, minha terra natal, para viver na capital, foi na Rua Nova, hoje, General Osório, passando a morar numa casa, hoje demolida, e que ficava onde está, hoje, o “Terceirão”. A casa era espaçosa, e o que mais encantou ao menino de quatro anos foram as amplas janelas. E janelas, naquela época, eram o melhor instrumento de comunicação. Ah, as fofocas na janela! A rua era larga, silenciosa e meio mística, com o relógio da Catedral anunciando as horas.
Mas não demorou muito esse primeiro contato com a Rua Nova, que, se não estou enganado, motivou a minha primeira crônica no jornal A União, sob o título “Rua triste”.
Saímos da Rua Nova e fomos morar num sítio, lá na Lagoa. Um sítio que foi para mim um paraíso. Decorridos alguns anos, eis que meu pai vendeu o sítio e veio residir, novamente, na Rua Nova, o que muito também me agradou. Lembrar que menino adora mudança. Nossa casa ficava defronte do Mosteiro de São Bento. Que silêncio naquele mosteiro! Diziam que lá dentro tinha uma caveira. E não é que um menino, meio doido, achou de penetrar naquele misterioso espaço em busca da risonha caveira. Para decepção dos outros, o afoito garoto chegou de mãos vazias...
E valia a pena ficar contemplando a extensão da avenida, com suas casas, grandes janelas e seu silêncio místico. Gente na janela era o que não faltava, principalmente os idosos. Havia quintais, quintais com suas galinhas, fruteiras e, vez por outra, o triste cantar de um galo. Raramente passava um carro. Mas não faltava um pregão. Pregão do homem que vendia fígado, que vendia pitomba e ainda acrescentava: “chora, menino, para comprar pitomba”.
A Rua Nova era plana e arborizada com fícus benjamina ou oitizeiros, não estou bem lembrado. Era lá que estava a sede da Loja Maçônica, num bonito prédio, guarnecido por duas esfinges de pedra. Diziam que lá tinha um bode preto. Mentira. Meu pai era maçon e desejou me batizar lá. O batismo não era com água, como na Igreja Católica, mas com mel. Que gostosura. Mas meu pai terminou não falando mais nisso.
Agora vejam quantas pessoas ilustres eu vi nas janelas contemplando a rua. Vi, e meu pai foi quem me mostrou, o ex-presidente do nosso Estado Camilo de Holanda. O velho tinha uma bela postura. E parecia que estava assistindo a um desfile de soldados, já que ele era general. Vi o historiador, fundador da nossa Academia de Letras, Coriolano de Medeiros. A cabeça bem alva. Vi o escritor De Castro e Silva, o primeiro a escrever sobre o poeta Augusto dos Anjos. Como vêem, as janelas, numa época em que não havia TV, constituíam um meio de sair de casa sem sair.
Não esquecer a bela casa, que ficava junto de uma ladeira e que pertencia ao professor de piano Gazzi de Sá, cuja escola gozava de um grande conceito em nossa terra. Todas as moças da alta sociedade eram suas alunas.
Havia na Rua Nova um belo sobrado, onde, ao que dizem, morou o escritor Virginius da Gama e Melo. Infelizmente o sobrado foi demolido.
A Rua Nova, depois do sítio da Lagoa, foi meu paraíso urbano. Foi no batente do Mosteiro de São Bento que li toda a coleção do grande Monteiro Lobato. E tanto me empolguei com sua leitura, que esquecia até a horas das refeições. O silêncio da rua propiciava a leitura. Silêncio, vez por outra, interrompido pelo sino da Catedral...
7.9.13
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