Eles fumavam e bebiam muito uísque e conhaque. Portavam pistolas e lâminas fatais, guardadas elegantemente no bolso interno do paletó. Mas...



Eles fumavam e bebiam muito uísque e conhaque. Portavam pistolas e lâminas fatais, guardadas elegantemente no bolso interno do paletó. Mas, por outro lado, não falavam palavrões... não ficavam dizendo termos vulgares a cada cena. Era assim o chamado Film Noir. Boas histórias detetivescas, com excelentes interpretações, envoltas em mistérios e muitas sombras.

A nunciada a sua vez de falar, ele ergueu-se da mesa, sem muita pressa, mas com um sorriso de homem em paz com a vida. Pegou o microfone e c...

Anunciada a sua vez de falar, ele ergueu-se da mesa, sem muita pressa, mas com um sorriso de homem em paz com a vida. Pegou o microfone e começou sua palestra. O tema era sobre paz, saúde e amor. Que trindade temática admirável. E ilustrou sua fala com vários slides. A voz mansa já era uma mensagem de paz. Contagiada com aquele clima, a assistência atenta não perdia uma palavra do orador.
Disse ele que a paz é fruto do amor fraternal, que o ódio é que faz o homem adoecer. Que a maior terapia de todos os tempos é o amor. Ensinou ainda que há necessidade de, vez por outra, a gente lançar um olhar retrospectivo, um olhar para dentro de si, e constatar nossos erros. E citou Santo Agostinho que recomendou uma conversa consigo mesmo, antes de dormir. Lembrou ainda as bem-aventuranças do Sermão da Montanha proferido por Jesus, aquele sermão que, segundo Gandhi, substituiria todas as bibliotecas do mundo.
Paz e saúde. Paz de espírito, saúde do corpo. E nunca um palestrante se identificou tão bem com o tema. Ele mesmo, o orador, era aquilo que falava. Um homem de muita paz com a sua consciência. Nunca se irritou, nunca falou mal de alguém, nunca demonstrou desânimo, nunca, ao pegar no arado, olhou para trás, como lembra o Evangelho.
Numa palestra, vez por outra, alguém não resiste ao sono, a um ligeiro cochilo. Mas, sob o efeito de sua palavra, todos os assistentes estavam atentos e silenciosos.
A verdade é que o mundo, cada vez mais, está carente de saúde e paz. Que gritem os jornais, o rádio, a TV, a Internet. Mas o Mestre disse que aquele que perseverasse até o fim, seria salvo. A solução portanto, está na receita: “Orai e vigiai para não entrardes em tentação”. A tentação do ódio, do orgulho, do egoísmo, da inveja, da maledicência.
Mas ele está acabando a palestra e eu a crônica. Deixou o microfone, voltou a ocupar a cadeira onde esteve sentado, numa sutileza de quem caminha sobre nuvens. Ele não é outro senão Marcos Lima, atual presidente da Federação Espírita Paraibana, Nunca a palavra sintonizou tão bem com o exemplo. Esqueci-me de dizer, ele toca violão que é uma beleza. Canta e toca. Só vendo e ouvindo. Mais esta: vestia camisa escura, decerto, para falar claro...

S eu nome mesmo era José Lins do Rego. Popularizaram-no para Zé Lins. E o primeiro livro que me chegou às mãos e aos olhos foi “Menino de E...

Seu nome mesmo era José Lins do Rego. Popularizaram-no para Zé Lins. E o primeiro livro que me chegou às mãos e aos olhos foi “Menino de Engenho” - Que delicia de leitura! Como desejei ser aquele menino. Mas, cá pra nós, minha infância, lá no sítio da Lagoa, foi muito mais bonita.

E sabe quem me deu o livro? Minha mãe, a quem devo o gosto pelas letras. Graças a ela, grande contadora de histórias, minha infância foi uma beleza. E quando eu adoecia de asma, era ela quem, sentada na cama ia excitando a minha imaginação com belas histórias. História de bruxas, de fadas, de bichos que falam, de feiticeiras, de papa-figos, de princesas... Eu gostava tanto dessas narrações, que chegava a desejar que a asma se prolongasse.

Voltando a Zé Lins, cujos livros devorei, sabendo que se tratava de um paraibano, aí foi que me tornei não apenas um leitor, mas um admirador. E o que mais me fascinava era a leveza da linguagem. O homem escrevia como respirava. Uma linguagem linear. Diziam que ele claudicava um pouco no português, diferente de Graciliano Ramos. Ambos frequentavam com assiduidade a livraria José Olimpio, no Rio, e, certo dia, quando lá estavam, apareceu uma jovem atrás de comprar uma gramática portuguesa. Mal a jovem acabou de falar, Zé Lins interveio com muito humor, dizendo para o livreiro: “Se não tiver uma gramática, um livro de Graciliano serve”. A risada foi geral.

José Lins do Rego! Como o admirei e admiro. Uma grande alegria na minha vida foi quando era repórter do jornal A União e fui entrevistá-lo, numa casa lá na Duque de Caxias. E fiquei muito feliz quando o ouvi dizer, lá do interior da casa: “É A União que quer me entrevistar? Quanta honra!” Estava eu, frente a frente, com o autor de ”Menino de Engenho”, livro que deleitou minha infância. Este foi um grande momento na minha vida.

Sua personalidade de homem simples, que escrevia como quem respira, era o que me encantava, assim como aquele seu entusiasmo pelo Flamengo carioca. Um entusiasmo de menino. Ele, que nunca deu um chute numa bola...

Zé Lins era assim, ora alegre, ora triste, sem formalismos, sem protocolo, sem fingimento. Álvaro Lins, rigoroso critico, quando leu “Fogo Morto” do escritor paraibano, bradou, entusiasmado, que se tratava de uma “obra-prima”.

O site WorldMapper apresenta uma curiosa relação de mapas políticos, mostrando os territórios dos países de acordo com as suas respectiva...



O site WorldMapper apresenta uma curiosa relação de mapas políticos, mostrando os territórios dos países de acordo com as suas respectivas classificações nos mais diversos temas.

A Rua Nova dorme o seu sono histórico, com suas casas de portas e janelas agarradinhas umas às outras, mergulhadas num silêncio místico, gr...

A Rua Nova dorme o seu sono histórico, com suas casas de portas e janelas agarradinhas umas às outras, mergulhadas num silêncio místico, graças aos seus templos. Quase não passa carro, ali. As janelas, quando se abrem, é para os mais idosos. E das janelas eles alongam o seu olhar triste e cheio de saudades.
Mas, numa certa manhã, eis que aquele silêncio monástico é perturbado por batidas de martelos. O que está havendo? A garotada logo percebe: estão construindo os pavilhões da Festa das Neves. E haja menino na rua para saudar a novidade. Festa das Neves, Festa da Padroeira, festa que faz a Rua Nova transformar-se na grande atração da cidade. Que a Rua Direita, hoje Duque de Caxias, morra de ciúme de sua vizinha. Mas, por que ciúme, se ela é palco do Carnaval, com confetes, serpentinas e lanças-perfume?
Agora, não é apenas o sagrado que domina a Rua Nova, mas o profano também. São nove dias de alegria. A meninada não cabe em si de contente. A tinta nova dos pavilhões cheira que é uma beleza. As casas já não estão mais fechadas. Muita gente nas janelas olhando os pavilhões se erguendo, emprestando novo visual à velha rua.
Saber que toda a cidade virá participar da tradicional festa... Não se fala nem se pensa noutra coisa. E eis todos os pavilhões já prontos. O maior deles é para a elite. Moças lindas, cavalheiros elegantes exibindo os melhores vestidos e roupas. Gente da elite. E quantos namoros!
Mas a tradicional festa tem suas discriminações. Discriminações sociais. No tradicional passeio pelas largas calçadas, os mais pobres andam pelo lado do Convento São Bento, enquanto os ricos utilizam a outra calçada. Por que esta distinção, esta separação? Nunca ninguém explicou esse natural e espontâneo comportamento.
Era belo ver as pessoas passeando nas calçadas pra lá e pra cá, e as janelas apinhadas de gente. Quanta paquera! Haja sorrisos e mangações... As janelas ficavam apinhadas de pessoas da casa e de fora. E isto ia até meia noite, terminando com a missa na Catedral.
Além dos passeios nas calçadas e divertimentos nos pavilhões, havia a famosa Bagaceira, que ficava lá pelas imediações da Catedral. Ali, a bebedeira dominava. Não esquecer as comidas, o cachorro quente, o amendoim, a pipoca, o algodão doce e tantas outras guloseimas. Dominava o profano, bem junto do sagrado.
Curioso, tanta gente, e nunca se ouviu uma confusão, uma briga, que exigissem a presença da polícia. A Festa transcorria na maior tranqüilidade. E enquanto durava a festa, as janelas continuavam escancaradas. Até os mais idosos iam pra cama mais tarde.
Faltei de lembrar um dos maiores atrativos da Festa: os seus bem feitos jornalzinhos, cheios de humor, mexendo com muita gente.
Mas está na hora de encerrar a crônica, pois a Festa também acabou e uma profunda tristeza domina a velha rua. O silêncio agora é quebrado com as batidas do martelo na madeira. Os pavilhões já estão sendo demolidos.
As janelas voltaram a se fechar. Tudo agora é silêncio. Ainda bem que as meninas do Colégio das Neves voltarão a animar a velha rua, todas as manhãs, com seus sorrisos, suas gargalhadas, sua ânsia de viver.
Agora dá para se ouvir o canto dos galos, nos quintais das casas de porta e janelas. Agora o relógio da Catedral está dizendo que tudo passa na vida, menos a saudade. Agora, o sagrado domina o profano.

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