5.1.14
C omeço pela maledicência, esse vício de falar mal dos outros. E o maledicente sempre pretende ser melhor do que os ausentes, de quem se fal...
Começo pela maledicência, esse vício de falar mal dos outros. E o maledicente sempre pretende ser melhor do que os ausentes, de quem se fala. Maledicência é baixeza de caráter. Fuja do maledicente como se ele portasse doença contagiosa, pois vibração negativa, às vezes, nos contamina.
Tenho pena dos impacientes, que estão sempre reclamando do que acontece na vida, aparentemente, de errado. Se estão num trânsito congestionado, haja palavrão, haja irritação. Irritação até quando o sinal está vermelho, esquecido de que para os outros, a sinalização está verde. Mas o diabo é que muita gente que só pensa em si. E quanto ao congestionamento, por que não aproveitar essa oportunidade para ouvir uma boa música, e, se não estiver ao volante, ler um livro, ou aproveitar para uma reflexão, coisa que poucos estão fazendo: conversar consigo mesmo.
Lamento as pessoas mal humoradas, que olham a vida como se o mundo estivesse fedendo. Nada de um sorriso, que tanto alegra a alma.
Não gosto de cigarro perto de mim, conquanto tenha sido um fumante inveterado, mas que deixei o vício bem a tempo, graças a uma forte taquicardia. Se não estivesse abandonado o fedorento mau hábito, teria apressado minha morte. Agora esta reflexão: já imaginaram ou sentiram o hálito do fumante, manhã cedo, ao acordar?... Nem queira. Aqui fica o conselho: Aprenda a respeitar a sua saúde. Saúde e paz são nossas melhores riquezas.
Também lamento as pessoas que não cumprimentam as outras, como se fossem robôs. Que não sabem dar um “bom dia” ao entrar num elevador. Como é saudável um cumprimento!
Gosto dos otimistas, que alegram a vida, que carregam amor e entusiasmo na alma. As grandes descobertas dependeram do entusiasmo, que, etimologicamente, é Deus dentro de nós.
Gosto dos que gostam de ler, dos que estão sempre bem informados, dos que preenchem os vazios do tempo com um livro sob os olhos.
Gosto de viajar. A viagem nos dá experiência e nos multiplica. É salutar conviver com novos costumes, novas pessoas, novos climas. Isto nos torna mais humanos, mais maduros, mais compreensíveis.
Por fim, confesso que não gosto de mim, se porventura cometo alguns deslizes apontados acima. Afinal, saber reconhecer seus próprios é a maior das virtudes.
5.1.14
29.12.13
Não é raro a gente ouvir que uma cidade está sendo invadida por dunas, pelas águas do oceano ou pelas labaredas de um incêndio. Mas é inus...

Não é raro a gente ouvir que uma cidade está sendo invadida por dunas, pelas águas do oceano ou pelas labaredas de um incêndio. Mas é inusitado que uma pequena aldeia seja literalmente 'engolida' por rochas imensas!
29.12.13
27.12.13
S im, agora chegou a vez de falar de minha mãe, a abnegada companheira de meu pai, que lhe deu oito filhos, sendo que dois saíram da vida, c...
Sim, agora chegou a vez de falar de minha mãe, a abnegada companheira de meu pai, que lhe deu oito filhos, sendo que dois saíram da vida, cedo, Hamilton e Hilda.
A verdade é que meu pai soube escolher a esposa, Pia de Luna Freire, uma mulher lindíssima. Mais do que isto: inteligentíssima. Muito jovem ainda, achou de se inscrever num concurso público para funcionária dos Correios e Telégrafos, e saiu-se muito bem. Isto numa época em que o preconceito social fazia restrições à mulher como funcionária pública. Lembrando que o preconceito é uma praga denunciada até pelo genial Einstein, que chegou a dizer: “é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”. E Dona Pia não quis saber, submeteu-se ao concurso federal, foi aprovada e pronto. Nada de ser pesada ao marido.
Mas não durou muito o seu estado de solteira, o que não é de se estranhar, pois se tratava de uma linda mulher. Linda e inteligente. Inteligente e culta, sem nunca ter passado pelos bancos de uma universidade. Sua caligrafia, de que ela muito se orgulhava, chamava a atenção de todo mundo, inclusive de Delmiro Gouveia, famoso comerciante de Alagoas, que, ao ver a escrita de minha mãe, foi logo dizendo ao meu avô Vicente de Luna Freire, com quem comerciava couro: “Que bela caligrafia a de sua filha!“
Pois bem, minha mãe casou-se em suas primeiras núpcias com Alfredo Barros, que lhe deu dois filhos: o escritor e historiador Eudes Barros e Alfredo. E ficou viúva, pois o marido morreu em conseqüência de uma pancada de vento frio, manhã cedo, ao abrir uma porta, e, como disse no inicio, não demorou muito sua condição de viuvez. José Augusto Romero, diante daquela beleza, não pensou duas vezes, e, por outro lado, o homem era um bom partido. Alto, corpo de atleta e de um olhar sério e sereno. Um olhar que via longe...
Meu pai já era espírita e minha mãe, católica, a quem cabia a responsabilidade de zeladora do Coração de Jesus, lá na igreja. Não demorou muito e ela deixou o Catolicismo pelo Espiritismo. Não resistiu à dialética de seu segundo marido. Não foi uma espírita militante, mas adorava Chico Xavier, cujos livros psicografados lia com profundo interesse. Estava sempre presente às palestras na Federação Espírita Paraibana.
Minha mãe tinha uma personalidade muito forte. Foi uma das primeiras mulheres a cortar o cabelo bem curtinho, o que causou estranheza na sociedade de Alagoa Nova. Acontece que ela, vez por outra, ia à Capital, onde já era moda o cabelo curto. As matutas preconceituosas de então não gostaram da novidade e Dona Piinha foi muito criticada.
A verdade é que o casal se deu muito bem, conquanto os temperamentos fossem bastante diferentes. Dona Pia – já ia me esquecendo – era louca por música erudita e exímia flautista. E seu pai Vicente, meu avô, clarinetista. Melómana, minha mãe tinha uma sensibilidade admirável. Seu ídolo era Chopin. Muitas vezes vi lágrimas correndo pelo seu rosto, ao ouvir os concertos do famoso polonês.
Apesar da diferença de temperamentos e gostos, o casamento de meu pai foi um exemplo de abnegação. E o caçula adorava os dois, conquanto a mãe fosse sua grande confidente e a quem deve o gosto pelas letras, pois ela foi uma grande contadora de histórias!
27.12.13
22.12.13
S e não estou equivocado, a observação é de José Américo, que me retifique a escritora Lourdinha Luna: “Chegar à janela é como ir pra rua s...

Se não estou equivocado, a observação é de José Américo, que me retifique a escritora Lourdinha Luna: “Chegar à janela é como ir pra rua sem sair de casa". Ora, ora, no tempo em que não havia televisão nem computador as pessoas viviam debruçadas nas janelas para um bate-papo com os vizinhos ou com os que iam passando na calçada.
A janela propiciava uma fuga momentânea no cotidiano, por sinal muito humano. E haja fofocas. A janela era a TV de outrora. E não era apenas a solteirona que se debruçava na janela. Os mais idosos adoravam aquela diversão sem sair de casa. Lembro-me que, na antiga Rua Nova, onde as casas não tinham terraço, vi muita gente ilustre debruçada sobre as janelas olhando a rua lá fora, a exemplo do ex-presidente do nosso Estado, general Camilo de Holanda, e o historiador Coriolano de Medeiros, ilustre fundador da nossa Academia Paraibana de Letras. O general não chegava a se debruçar na janela. Tomava uma posição militar, de pé, como se estivesse assistindo a um desfile.
Mas tinha vez que as janelas não eram suficientes para os bate-papos, os colóquios, os disse-me-disse, as fofocas, que existem, desde que o mundo é mundo. Nessa circunstância, a solução era colocar cadeiras na calçada... Aí os papos iam longe.
Casas com janelas, com sala de visita. Visita que se pagava. Muita gente dizia: “estou devendo uma visita a fulano ou fulana”. Casa sem vigilantes, bastava chegar à porta e gritar: “Ô de casa!” E vinha a voz de dentro: “Ô de fora”...
Hoje, não vemos mais janelas, e sim, longos edifícios, todos apostando altura. Edifícios tapando a visão dos horizontes, humilhando a vegetação cá em baixo, obstaculando paisagens, interceptando a passagem do vento. Mas, todos com suas áreas de lazer, piscina, esporte, repouso, que a vida precisa ser vivida com muito luxo. Só não vejo área para a leitura, espaços para reflexão, uma conversa consigo mesmo.
E os apartamentos? Excelentes, mas as pessoas estão loucas para entrarem no elevador e sair daquela prisão de não sei quantos andares, porquanto a rua ainda é uma atração, com seus restaurantes, shoppings e outros entretenimentos. E sair sem esquecer o celular, para dar adeus àquela prisão de não sei quantos andares, onde ninguém se debruça na janela...
22.12.13
22.12.13
T odo fim de ano tem cheiro de saudade. E saudade é sede de presença, presença que virou ausência. Nesta passagem do ano, que tal reservar u...
Todo fim de ano tem cheiro de saudade. E saudade é sede de presença, presença que virou ausência. Nesta passagem do ano, que tal reservar um momento para umas reflexões, pensar nos que se foram? Pensar no que fizemos de bom ou de mau?
E se você tem um saudável hábito de conservar na parede as fotos dos que se foram, muito bem. Mas são tão poucos os que conservam esse hábito, os que não mataram em si a saudade dos ausentes. Que apenas costumam, no Dia dos Mortos, ir ao cemitério para acender uma vela no túmulo dos seus familiares e amigos. Ainda pensam que os seus mortos estão ali, debaixo da terra, aguardando a sineta do Juízo Final, quando será decidido o seu destino, isto é, se vão para o céu, para o inferno ou purgatório. E não me digam que não é assim que muitos pensam...
Mas, como eu ia dizendo, a passagem de um ano mexe um pouco com a gente. Parece que o tempo está nos perguntando, o que fizeste de tua vida? Continuas com os mesmos vícios, os mesmos erros? Só os animais ficam indiferentes à passagem de um novo ano. Mas o homem, este animal que pensa, que reflete, que indaga.
Afinal, o que estamos fazendo no mundo? Que pergunta para mexer com a gente, hein?... Aliás, toda pergunta leva a uma reflexão. E o grande Sócrates perturbou muita gente com as suas indagações.
Um novo ano está para chegar. Quais são nossos planos? Será que vamos repetir os mesmos erros? Que tal uma fugidinha da vida e nos recolhermos um pouco dentro de nossa interioridade? Que tal uma conversa íntima?
Mas para isso é necessário certa coragem e ao mesmo tempo humildade. Afinal, a vida tem um sentido? Por que estamos no mundo? Se você despertasse , dentro de um navio, qual seria sua primeira pergunta? Evidente que interpelaria: para onde estão me levando, o que estou fazendo, aqui
Vamos, portanto, assistir à passagem silenciosa do novo ano e procurar nos renovar, interiormente, porquanto você é um animal, mas racional. E não esqueçamos: toda passagem de ano tem um cheiro de saudade, de adeus, de mistério, o insondável mistério: por que estamos neste mundo?...
22.12.13