10.3.14
A h, as doenças! Quem não as teve, nesta vida, que começa num berço e termina num túmulo? Saber que nunca houve uma pessoa de saúde completa...
Ah, as doenças! Quem não as teve, nesta vida, que começa num berço e termina num túmulo? Saber que nunca houve uma pessoa de saúde completa! Mas estamos neste mundo para sofrer e aprender. E como a enfermidade ensina a gente! Eu tenho sido uma pessoa razoavelmente sadia, ao longo de minha bela existência.
Menino de 3 anos, fui operado de um caroço na nuca, cuja cicatriz ainda continua. E quem o tarjou foi um farmacêutico de Alagoa Nova.
Vamos a outra enfermidade: a asma ou “puxado”, que me deixava no leito noite adentro. Minha mãe suavizava a situação contando-me belas histórias, desde Branca de Neve a Ali Babá e os 40 ladrões. Minha imaginação delirava. A doença me deixava arquejante. Fiquei bom da asma, mas com saudade das histórias que ouvi na voz doce de minha mãe.
De lá pra cá, a saúde não foi mais afetada. Depois vieram o sarampo, a urticária e papeira. Doenças da moda. Eu me vangloriava dessas enfermidades. Há pessoas que adoram contar as doenças que já teve, como estou fazendo agora.
Continuei com uma saúde de ferro, até que apareceram umas tonturas. Tive de ir a um neurologista de Recife, Dr. Manuel Caetano. E as tonturas foram desaparecendo, e entrei num período de ótima saúde. Meu propósito, agora, era me preparar contra as enfermidades. Comecei a praticar as caminhadas, aqui em Tambaú e cuidar de uma boa alimentação. E quem nos incentivou para isso foi meu filho caçula, Germano, que conheceu a alimentação integral através de uma amiga. E viva os grãos e cereais que continuam acedendo meu apetite, sem esquecer a papa de aveia!
De lá para cá eu tive uma saúde de ferro. E tudo começou quando aboli o vício do cigarro. Não fosse isso, já estaria domiciliado no Cemitério da Boa Sentença. Quem não pode se livrar desse vício está se suicidando.
Mas vamos adiante. Nestes últimos tempos, fui acometido de uma estenose lombar. E a crise ocorreu justamente no início de uma viagem a Israel e Europa. Passei muitos dias com dificuldade de andar, mas, mesmo capengando, ainda deu pra conhecer vários lugares narrados pelo Evangelho, em Jerusalém. E cheguei até a me sentar numa pedra que, ao que se informou, recebeu as vibrações do Mestre.
Mas a estenose continuava a doer fortemente, a ponto de procurar uma cadeira de roda. Tive de fazer uns exames num grande hospital de Tel-Aviv. Sofri muito, até que chegou a vez de terminar o nosso circulo de viagem, em Londres. Não andava mais a pé e sim na cadeira de roda, que foi uma maravilha. Rodei várias ruas londrinas sentado na macia cadeira. E sabe quem me empurrava? Meu Germano.
Caminhando no chão de Londres eu vi como o seu calçamento é um prato. Não se vê um obstáculo ao deficiente naquela superfície de cidade supercivilizada. E vem, aqui, esta ilação: todo prefeito deveria andar numa cadeira de rodas, como instrumento de trabalho, para se informar do estado de conservação das calçadas. E viva meu “filho Babá”, e os cuidados de minha adorável Alaurinda!
A vida tem desses imprevistos, que se transformam em lições. E, aqui para nós, é na enfermidade que a gente reflete, e refletindo, amadurece.
Mas, viva a saúde, seja a do corpo, seja a do espírito, a mais importante!
10.3.14
9.3.14
M anhã de 8 de março, dia do aniversário dele. E pelo fone, logo cedo, me beijando e abraçando, o caçula foi dizendo que eu sou o maior pres...
Manhã de 8 de março, dia do aniversário dele. E pelo fone, logo cedo, me beijando e abraçando, o caçula foi dizendo que eu sou o maior presente para comemorar a significativa data. Enquanto ele me dizia isso, hoje homem feito, já realizado como arquiteto e como cronista, pus-me a me lembrar do seu nascimento, por via cesariana, aqui em João Pessoa, e já galego. Veio fazer companhia ao primogênito Carlos, nascido em Campina Grande e hoje PhD em Física, ora vejam só...
Mas, voltando ao meu aniversariante, ele foi autor de muitas travessuras e alturas. Tanto é assim que, com 7 anos apenas, pediu para subir, sozinho, numa roda-gigante e num “polvo” da Desta das Neves. E a mãe quase morreu de medo. O menino subiu e ainda pediu bis, no que não foi atendido.
Nunca foi castigado. Nem uma leve palmada sofreu. Era um peralta admirável, que fazia amigos com muita facilidade. Difícil não gostar dele. E, aqui para nós: o menino era bonito de morrer, como se costuma dizer.
Aprendeu a gostar de música erudita ainda criança, com a tia Iracema, que era pianista, e terminou se bacharelando em Música. E como eu gosto de ouvi-lo tocando “A Maré Encheu”, do nosso Villa-Lobos.
Inquieto por natureza, parece dizer: ”pernas para que te quero”. É um globe-trotter admirável. Conhece o mundo a fundo. E não satisfeito de levar suas impressões de turista culto e sensível para o jornal, ainda acha de contar tudo que vê nas viagens, no quadro Parada Obrigatória, do programa da RCTV, “Cá Entre Nós”, num interessante diálogo com a inteligente Rose Silveira,
Mas o diabo é que o caçula não quer viajar só, e acha de me levar em sua companhia, ao lado da boadrasta Alaurinda. E não ficou nisso. Achou de me dar um presente de aniversário: Escolheu Paris, minha cidade favorita, para passarmos este carnaval.
Pois é esse galego, meu caçula, que no seu aniversário o meu desejo era pegar um globo terrestre, envolvê-lo com um papel colorido e dizer-lhe: “está aqui o presente que você me deu e continua dando: conhecer o mundo lá fora”.
E viva o garoto das travessuras, e arquiteto das alturas, que só pára no programa de Rose, quando faz o Parada Obrigatória.
9.3.14
23.2.14
C onquanto a História não diga, mas a imaginação contou tudo que houve depois que Jesus deu o último suspiro na cruz e Satanás saiu, alegre,...
Conquanto a História não diga, mas a imaginação contou tudo que houve depois que Jesus deu o último suspiro na cruz e Satanás saiu, alegre, abraçando e agradecendo ao povo que o libertou. Só o “Bom Ladrão” não quis participar dos festejos, que, hoje, poderíamos cognominar de carnavalescos. O Bom Ladrão já estava no paraíso da consciência tranquila, como prometeu o meigo nazareno.
E decerto foi um festão depois que o crucificado expirou. E houve até blocos com bandas e seus pitorescos nomes, a exemplo de “Maçã Podre”, ”Coceira no sovaco”, e assim por diante.
E os grandões e poderosos armaram camarotes para assistir à festa do povo. Estavam, lá Pilatos, Herodes, Caifaz e outros. Sorrindo, Pilatos cochichava para os amigos, fazendo alusão ao povo: “Esta gente precisa se divertir. Afinal, são eles quem nos elegem, que pagam os impostos”
Lá no alto, a cruz estava vazia. O perturbador da ordem morrera, o homem que desejava ensinar o povo a aprender a verdade que liberta.
E haja excessos alcoólicos, haja gritaria, haja poluição sonora. O mais animado era Barrabás, que fora solto pelos políticos, no lugar do Cristo. Estava fantasiado de mulher. E chegou a gritar bem alto: ”Mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar”...
Pilatos não cabia em si de contente: “O povo precisa desta alegria. O nazareno era um ingênuo, que nem soube responder à pergunta que lhe fiz - O que é a verdade?”
O barulho, ou melhor, a poluição sonora era enorme. O álcool enchia as consciências. É necessária a distração. A distração impede a reflexão. E viva o barulho, e viva a bebedeira, que a vida é passageira. Até rimou...
23.2.14
23.2.14
Em qualquer lugar do planeta, viajar de avião é sempre uma ótima comodidade. Na Europa, há um componente ainda mais vantajoso, pois muitas...
Em qualquer lugar do planeta, viajar de avião é sempre uma ótima comodidade. Na Europa, há um componente ainda mais vantajoso, pois muitas localidades, grandes e médias, são servidas por empresas aéreas de baixo custo. O problema é que o preço atraente traz uma contrapartida desagradável: o passageiro geralmente tem que se deslocar para aeroportos distantes e em horários prá-lá de inconvenientes.
23.2.14
22.2.14
C omo tudo na vida passa, o nosso paraíso haveria de acabar. E tudo começou quando ouvi um fiapo de conversa de meus pais. Eles falavam que ...
Como tudo na vida passa, o nosso paraíso haveria de acabar. E tudo começou quando ouvi um fiapo de conversa de meus pais. Eles falavam que o sítio ia ser desapropriado pelo Governo para dar lugar à construção de um colégio.
Não entendi bem esse negócio de desapropriação. Só sei que senti um forte aperto na garganta. Olhei para as mangueiras que, decerto, iriam ser derrubadas. Saí andando meio cambaleando pelo sítio, sentei-me no chão e chorei muito. As árvores pareciam me escutar. Os cachorros, Bunque e Iglô, chegaram perto de mim, balançando as caudas, como desejando me consolar.
Meus olhos se estenderam sítio afora. Meu paraíso ia ser destruído. E para onde iríamos? Talvez para uma casa lá no centro da cidade. Uma casa com quintal, apenas.
Neste momento meu pai passou perto de mim e foi logo indagando: “Que está fazendo, aqui, sozinho?” Tive pena dele. Sem dúvida estava sofrendo em silêncio. O sítio era tudo para ele. Quase tudo que existia ali, afora as fruteiras, saiu de suas mãos de agricultor.
O tempo foi passando e eis que, um dia, ele informou aos filhos: o governo ia desapropriar o sítio, e iríamos morar numa casa, na Rua Nova, uma das principais da capital. A casa era grande, tinha um sótão e ficava defronte do Convento de São Bento. E era na Rua Nova que se realizava a Festa das Neves. Essa informação consolou-me um pouco. Afinal, a vida é feita de mudanças.
No dia seguinte, meu olhar para o sítio era triste, de despedida. Um olhar molhado de lágrimas. Tive pena das árvores, que, por certo, seriam derrubadas, inclusive a casa, com seus longos alpendres. E eis que chegou um bando de meninos para brincar, que moravam em casas com seus quintais. Mas, silenciei em relação a saída do sítio. Sem dúvida, alguns deles iriam gostar. Muitos me invejavam.
Papai agora não era mais dono de um sítio. Iria ser burocrata. Deixava o campo pelo birô. Ia ser funcionário federal, secretário das Obras Contra as Secas.
E chegou o dia da mudança para a Rua Nova, com sua Catedral, seu silêncio histórico e místico.
Os cachorros não sabiam da mudança. Daí aquela alegria de rabo balançando. Tive pena deles. Adeus Lagoa, adeus adoráveis manhãs de domingo, adeus meu paraíso, adeus aquele cheiro de terra, as frondosas árvores, a paz paradisíaca...
Mas a vida é uma dança, a dança da mudança. Minha mãe, que adorava novidade, enfrentou a situação com muito otimismo. Ela vivia muito bem o presente. Já em papai, notei uma melancolia saudosista. Trocar o sítio por uma repartição pública...
Menino de calça curta, eu já ansiava por uma calça comprida. Disseram-me que na Rua Nova havia uma grande costureira chamada dona Eudócia. Isto me animava.
A Rua Nova tinha largas calçadas, que serviam de campos de futebol. Não faltavam meninos para isso. Havia os pés de fícus e oitizeiros que ornamentavam a rua. O resto eram só casas. E haja janelas para as conversas. Ali morava muita gente ilustre e rica. O ex-presidente e general Camilo de Holanda, o historiador Coriolano de Medeiros, fundador da nossa Academia de Letras, Gazzi de Sá, professor de piano e maestro de orfeão, o presidente Castro Pinto, escritor De Castro e Silva, o primeiro biógrafo de Augusto dos Anjos e assim por diante. Mas, e o sítio, que continua na minha memória? Impossível esquecê-lo.
O menino de sítio agora era menino de rua, vivendo entre casas ao invés de árvores, calçamento ao invés de terra, buzina de automóveis ao invés de pássaros cantando.
Quando fui dormir, o sítio apareceu na minha imaginação. Veio aquele nó na garganta, e um dilúvio de lágrimas. Chorei baixinho para ninguém ouvir. O sítio veio comigo. A minha tristeza era profunda. Tristeza que o carrilhão da Catedral, com suas místicas badaladas aumentou ainda mais...
22.2.14