24.5.14
G osto de viajar de avião. Que me perdoem Ariano Suassuna, Oscar Niemeyer e Carlos Drummond de Andrade. Este chegou a escrever um belo poema...
Gosto de viajar de avião. Que me perdoem Ariano Suassuna, Oscar Niemeyer e Carlos Drummond de Andrade. Este chegou a escrever um belo poema: ”A morte no avião”.
E gostoso mesmo é subir a escadinha que nos leva até o pássaro de alumínio. E tem sempre uma comissária bonita ou simpática à entrada do avião a nos desejar boa viagem.
Tudo começa com aquela arrumação de bagagens de mão. Não sei porque noto na maioria dos passageiros certa apreensão no rosto. Quase ninguém sorri.
Saímos de Lisboa para Bruxelas, que para mim foi um reencontro. Depois de tudo quieto, o avião começa a deslizar no asfalto. É o preparo para a decolagem, quando ele se desprega do solo e enfrenta as alturas. Aí a gente nota como a aeronave não é nada lá em cima. Se olharmos para baixo, vemos tudo pequeno. O avião vai atropelando as nuvens. A paisagem é polar.
O silêncio é grande. Um silêncio, às vezes, perturbado com o choro espremido de uma criança. E o que perturba um pouco são as chamadas turbulências. Dir-se-ia que a aeronave está tremendo de medo. São as quedas no vácuo. E lembrar que minha neta Raíssa, de 13 anos diz que adora as turbulências... Eu desconfio que o avião tem medo daquelas alturas. Daí a tremedeira.
Há duas coisas chatas na viagem aérea: aquela comidinha requentada, que parece comida de hospital e o apertadíssimo sanitário. Mas, as companhias aéreas sabem atenuar o medo dos senhores passageiros com aquele video defronte da cadeira.
Quanto a mim, adoro pensar e ler no avião, quando não estou na janelinha vendo aquele mar de nuvens silenciosas. Viajar de avião é ótimo, principalmente quando as jovens comissárias nos trazem a comida e o sorriso.
Gosto do silêncio dentro da aeronave. Um silêncio que faz a gente dormir e sonhar até que venha o aviso dizendo que o avião está aterrissando. Uma descida de bêbado.
Agora ele já desliza sereno no asfalto. Pouco mais é hora de pegar as bagagens e o aeroporto nos espera para uma porção de formalidades. E haja filas, morosidades, o diabo!
O baiano Dorival Caymi cantava que “é doce morrer no mar”. Não chego a dizer isto com relação ao avião.
24.5.14
18.5.14
D esde que eu estou no mundo, nunca vi este acordo entre o sol e a chuva. Sempre um dia um, um dia o outro, na mais agradável parceria. Um d...
Desde que eu estou no mundo, nunca vi este acordo entre o sol e a chuva. Sempre um dia um, um dia o outro, na mais agradável parceria. Um dia céu nublado, friozinho correndo pelo corpo, pedindo roupa mais quente. No outro dia, o sol sorrindo, aquecendo o nosso corpo, mostrando um firmamento todo azul. Dia seguinte, cai a chuva, e aí dá aquela vontade para uma caminhada debaixo d'água.
Sol e chuva, frio e calor, água e luz, que a vida é feita de contrastes. A monotonia traz depressão. Ler e ouvir boa música é muito gostoso. Dormir nem se fala. Pensar muito mais. E ainda tem mais esta: a chuva, o frio, o silêncio são condições maravilhosas para a reflexão, para a conversa interior, para o filosofar. Já o sol é propício para a distração. Dir-se-ia que o sol propicia a poesia e a chuva a filosofia. Até rimou. Lembrar que as grandes filosofias nasceram nos países frios.
Mas voltemos á crônica. Lá fora o sol esbanja luz e parece gritar para o cronista: “Saia daí. A praia está uma beleza”. E eu fico a imaginar como a praia deve estar mesmo bonita, a areia limpinha, o céu azul, o mar brincando com as ondas, feito menino...
Pra falar a verdade, gosto mais de países quentes, embora tenha nascido numa terra fria de gelar: Alagoa Nova, onde o sol é escasso e as pessoas se valem dos cobertores e da cachaça para esquentar o corpo. E eu soube que a cachaça é o que anima os festivais de arte que ali se realizam...
Mas o clima está assim, instável. Chuva hoje, sol amanhã, coisa que nunca vi antes. Que dizem os entendidos de meteorologia sobre esse fenômeno?
Diz a modinha, que ouvi muito na minha infância: “Chuva com sol, casa-se a raposa com o rouxinol”. E eu imaginava que isso era verdade...
Mas a verdade é que tem vez que estou doido por um dia chuvoso e vice-versal
E viva a reflexão a que nos condiciona a chuva, e a distração que nos proporciona o sol. Muita água caindo do céu e muita luz iluminando os nossos caminhos...
18.5.14
17.5.14
F oi Jesus quem disse: se teus olhos forem bons, todo o teu corpo se iluminará. Olhos bons, olhos maus. Muita gente adverte: “cuidado com o ...
Foi Jesus quem disse: se teus olhos forem bons, todo o teu corpo se iluminará. Olhos bons, olhos maus. Muita gente adverte: “cuidado com o mau-olhado”. E há até quem diga que o mau-olhado chega a matar uma planta.
Os olhos! E muitos têm olhos mas não vêem. É grande a responsabilidade dos que vêem. Dai o valor das testemunhas de vista. Se você viu, você se comprometeu.
Disse bem o Mestre, os olhos são a candeia do corpo. Olhamos para muitas direções. Olhamos para cima, olhamos para baixo, olhamos para os lados, olhamos para trás. Este o olhar dos saudosistas.
Jesus convidou-nos a olhar os lírios do campo, dando uma lição de transcendência. Olhou para a multidão faminta e multiplicou pães. Olhou para o alto e se comunicou com o Pai. Olhou para as criancinhas e disse que o Reino dos Céus era delas. Olhou para a mulher adúltera e não a condenou. Que a condenassem os “sem pecados”. Por que lá, até hoje, não condenam o sem vergonha do adúltero? Que justiça é aquela?
Há muitos olhares: o da cobiça, o da inveja, o do ciúme, o do ódio. Mas belo é o olhar da compaixão, da compreensão, o olhar da sabedoria. Sublime é o olhar da mãe para o filhinho recém-nascido.
Um rosto que não se ilumina com um sorriso é tão triste como uma cegueira. Os olhos, cuidado com eles! É uma das nossas maiores riquezas. É a candeia do corpo, como disse Jesus. E me vem à imaginação aquele olhar do Mestre diante a multidão que o condenou. Um olhar de profunda tristeza, de muita compaixão. Afinal, eles não sabiam o que faziam.
Repitamos a sentença do Mestre: “Se teus olhos forem bons, todo o teu corpo se iluminará. Portanto, bastante cuidado, pois, com o olhar. Que ele se ilumine de muito amor, compreensão, e de muita compaixão.
Lamentável aquele que vê e faz que não vê. Confesso que jamais faria o que o samaritano fez, sobretudo considerando a insegurança dos dias atuais. Mas, na estrada de Jericó, o lugar era deserto e cheio de ladrões. Se ao menos houvesse celular naquele tempo, eu chamaria logo a polícia...
Entretanto, é preciso, vez por outra, fechar os olhos. Quando você fecha os olhos, você pensa melhor, se interioriza. O olhar distrai. É por isso que é conveniente orar de olhos fechados. Os fariseus oravam de olhos escancarados. Oravam e gritavam para todo mundo ver e ouvir. Mas Jesus aconselhava que quando fôssemos orar, entrássemos para um quarto, no maior silêncio e no maior sigilo. Tão importante foi esse silêncio, que ele, de vez em quando, deixava os apóstolos e se retirava para um lugar de muita paz. Os apóstolos então pediram: ”Mestre, ensina-nos a orar”. Foi daí que surgiu a oração do “Pai Nosso”. Orar é olhar pra dentro. Os fariseus não oravam, rezavam. Rezar é orar para fora, para todo mundo ver...
Na parábola do Bom Samaritano, um homem acudiu outro que estava caído no chão, todo ferido. Tinha sido assaltado pelos bandidos. Ele medicou-o com óleos e terminou levando-o para uma hospedaria. O samaritano não escondeu o olhar como fizeram os religiosos que ali passaram indiferentes ao sofrimento do próximo. Um samaritano, que era homem de negócios e não tinha tempo a perder....
17.5.14
10.5.14
É um truísmo, bem sei, mas que não deve ser esquecido. E viva aquele que pensa, isto é, que conversa consigo mesmo. É preciso lembrar que s...
É um truísmo, bem sei, mas que não deve ser esquecido. E viva aquele que pensa, isto é, que conversa consigo mesmo. É preciso lembrar que somos nossos pensamentos. Lembrar ainda que só o homem pensa, ou melhor, dispõe dessa faculdade, que muitos negligenciam... É o caso de dizer que há quem pensa que pensa, mas não pensa.
Observe que o barulho é inimigo do pensar. Talvez seja essa a razão de os filósofos, homens que pensam, em sua quase unanimidade, nascerem nos países frios e silenciosos. Pensar na Suécia é muito diferente de pensar num país quente da África.
Pensar exige silêncio. Aquele que fala muito, não pensa. E hoje as pessoas estão falando demais, sobretudo através do celular. E o curioso é que falam alto, como se a pessoa do outro lado fosse surda. É tão bonito e elegante quem fala baixo, seja no celular ou em conversa...
E aqui ergamos um brinde ao genial Rodin que exaltou o ato de pensar com aquela escultura “O Pensador”, que está em Paris, no jardim de sua casa que virou o museu do famoso escultor. E eu, na primeira visita que fiz à casa de Rodin, não deixei de ficar ao lado de O Pensador, na sua mudez de bronze... E muita gente passando indiferente aquela obra de arte...
E sabe quem foi que fez de sua filosofia o simples ato de pensar?: Descartes! Que é cognominado o pai da Filosofia Moderna. Filosofia em que está expressa o “Penso, logo existo”. Descartes fez a apologia do pensamento. O mestre da dúvida revolucionou a filosofia. Pagou caro pela coragem de duvidar. Nada de aceitar tudo sem um rigoroso exame, explicava ele. Chegou até a duvidar se estava sonhando ou acordado.
Jesus, vez por outra, procurava um recanto silencioso para pensar. Pensar e orar. E a gente quase que não ora, isto é, não procura estabelecer uma sintonia com a Divindade, esquecido que orar é como respirar.
O pensamento é tudo. Daí a nossa mente ficar lá no alto quando os pensamentos são elevados. Não pensamos pelos pés, como parece ocorrer com muita gente. Que só pensa baixo e não sabe refletir...
10.5.14
10.5.14
E vidente que há outras riquezas em nosso corpo, mas desejei começar pelas mãos, que a gente deveria beijar, toda vez que acordasse, manhã c...
Evidente que há outras riquezas em nosso corpo, mas desejei começar pelas mãos, que a gente deveria beijar, toda vez que acordasse, manhã cedo. As mãos são tão importantes como os olhos. Que digam os destituídos de visão, cujas mãos são seus olhos.
Mãos de pedreiros, de pianistas, violinistas, de maestros, arquitetos, de pintores, de escritores, dos artistas em geral. Mãos que ferem, mãos que acariciam. Mãos de mães acalentando os filhos. Mãos que abençoam e mãos que amaldiçoam. Mãos que castigam, mãos que indicam o bom caminho.
Você, às vezes, se sente infeliz e esquece as riquezas que possui. Coisas que não daria por nenhum preço.
Bem-aventurados aqueles que sabem fazer bom uso de suas mãos. Estou agora mesmo no teclado deste computador em que as minhas vão formando palavras. E a moda agora é o smartphone, é o iPad, que não dispensam as mãos.
São as mãos que levam a colher até as nossas bocas, ajudando-nos a alimentar. Mãos que dirigem veículos. Mãos de crianças, de adultos e de idosos. Vi muitos destes últimos se apoiando em suas bengalas nos países que visitei recentemente.
Outrora, falava-se em pedir a mão da moça, isto é, pedi-la em casamento. Nos esportes as mãos são indispensáveis, seja no voleibol, basquete, e até no futebol. E as mãos de cirurgiães, como são valiosas?!
Mas vamos adiante. Que dizer das mãos que limpam leprosos, como as de Madre Teresa de Calcutá, a mão de Chico Xavier que escreveu centenas de livros profundos de filosofia e ciência, conquanto tivesse apenas o curso primário. Chico Xavier psicografava de olhos fechados, minha gente, e em idiomas que jamais estudara!
E que dizer de Jesus, cujas mãos levantaram paralíticos, deram vistas aos cegos, curaram leprosos? Mãos que terminaram pregadas numa cruz, sob fortes e dolorosas marteladas. Mãos de Jesus abençoando crianças e dizendo que delas é o Reino dos Céus.
Mãos! Como as adoro. E ontem, ao meio dia em ponto, vi um homem, em pleno trânsito, sem as mãos. Muitos fingiam que não o viam. Olhar implica em responsabilidade. O pedinte segurava um caneco com os braços, e ainda esboçava um alegre sorriso de amor e paz.
As mãos! Dizem que nelas está escrita a nossa existência, se longa, se curta. Pelos traços que formam um “M”, vejo que a minha vida se alonga.
A crônica já vai se alongando, e já é o momento de retirar as mãos do computador. Mais ainda: beijá-las!
E como disse no início, há muitas outras riquezas neste cosmo orgânico que é o nosso corpo, a começar pelos nossos olhos. Riquezas que nos foram dadas, pelas quais não pagamos sequer um centavo.
Olhos, mãos, pés, não esquecendo a maior de todas as nossas riquezas: a mente, espelho de nossa vida, que pode refletir o bem e ou o mal.
10.5.14