19.10.14
J esus, como é sabido, teve como berço uma manjedoura. Nasceu entre animais, longe do luxo. E essa manjedoura, na noite em que ele nasceu, i...
Jesus, como é sabido, teve como berço uma manjedoura. Nasceu entre animais, longe do luxo. E essa manjedoura, na noite em que ele nasceu, iluminou-se com a forte luz de uma estrela, que descia sobre ela. Nenhum palácio, por mais luxuoso que seja, gozou desse prestígio.
Um famoso escritor italiano, cujo nome se esconde agora na minha memória, disse que os cristãos ricos, aqueles que nasceram em suntuosos palácios, sem dúvida, sentem uma grande vergonha de seu deus ter escolhido lugar tão humilde para nascer. Se fosse num apartamento de alto padrão, numa mansão, ou numa cobertura de luxo...
Outra coisa que os cristãos ricos lamentam: Jesus haver escolhido para mãe uma mulher simples, uma mulher do povo. A mesma coisa em relação ao seu pai, um humilde carpinteiro, que, decerto, fez muitos móveis e, sem dúvida, muitas cruzes. E eu fico na dúvida se entre estas cruzes, não estaria a que Jesus foi pregado, depois de uma longa caminhada sob os açoites da multidão que o acompanhou até o Gólgota, o “monte da caveira”.
Dizem que ele caiu três vezes, pois a cruz era muito pesada, até que um cireneu o ajudou, a pedido da multidão desvairada. Seu rosto sangrava muito devido aos ferimentos da coroa de espinhos que lhe enfiaram na cabeça. E como ele deve ter sofrido uma grande dor, naquele momento... O sangue escorria pelo rosto. Mas, Jesus não deu um gemido. Tudo suportou em silêncio. As mãos, suaves como pétalas, que tantas curas promoveram, ainda sofreriam dolorosas marteladas, perfuradas pelos cravos. Mãos que suavizaram tantas dores... Ele pagava pelo crime de ser bom. O crime de dar vista aos cegos, movimentar paralíticos, limpar leprosos, aliviar obsedados, multiplicar pães para a multidão faminta, pregar o amor, a caridade, a justiça.
Morto de cansado, o suor escorrendo pelo rosto, eis que o pregam na cruz de madeira, com pregos enormes. A cruz que saiu de uma carpintaria. Volta a pensar... Teria sido da carpintaria do pai? Ah, cronista curioso...
E eis Jesus entre dois ladrões. Pediu água para matar a sede e lhe deram vinagre. Mesmo assim, exausto, quase morto, ainda teve ânimo de dizer para os seus algozes: “Pai: perdoa-os porque eles não sabem o que fazem”. Que exemplo de compreensão, sabedoria e amor ao próximo...
19.10.14
3.10.14
F oi Jesus quem disse: “se teus olhos forem bons, todo o teu corpo se iluminará". Vejam que responsabilidade num simples olhar... Temos...
Foi Jesus quem disse: “se teus olhos forem bons, todo o teu corpo se iluminará". Vejam que responsabilidade num simples olhar...
Temos o olhar de amor, de compreensão, de compaixão, de piedade, de inveja, de ódio, de admiração, de tristeza, de alegria, de encantamento. Mas, quando Jesus nos convidou a olhar os lírios do campo, o olhar era de encantamento lírico.
Haverá olhar mais belo do que o de uma mãe para o filho renascido? Eis aí um olhar que ilumina. Jesus, repitamos, disse: “se teus olhos forem bons, todo o teu corpo se iluminará.” Só quem está privado de visão fica livre dessa advertência.
O olhar implica numa grande responsabilidade. Daí a importância que se dá às testemunhas de vista, num processo criminal. E há quem fale em mau olhado. A propósito, quando eu era juiz de Direito de Alagoa Nova , minha terra natal, cultivava em minha residência um belo jardim, onde havia um lindo pé de cróton. Pois bem, um certo cidadão que nos visitava, olhando a linda planta, disse: mas que beleza de cróton! E ficou olhando a planta por muito tempo. O estranho é que, no dia seguinte, o cróton amanheceu murcho, sequinho. Teria sido mau olhado?
Lembrar que há rostos de pedra. Frios. Tenho muita pena daqueles que não sabem olhar, que não se extasiam diante de um por de sol ou de um amanhecer, de uma criança, de um mar sorrindo através de suas ondas... Possuem olhos, mas não vêem. Os olhos parecem bolas de gude. Rostos de estátuas.
A verdade é que somos o que olhamos. Ninguém melhor do que as crianças sabe sorrir. Nunca vi crianças carrancudas. Elas estão sempre encantadas e descobrindo as coisas do mundo. E quem descobre se alegra. Não viu Arquimedes? Quando sentiu que na banheira o corpo ficava mais leve, saiu correndo pela rua gritando: ”Eureka! Eureka!, isto é, achei, achei. Tinha descoberto a lei da hidrostática.
O olhar implica numa descoberta. E que dizer do olhar de compreensão, como aquele de Jesus quando, vendo a multidão que o condenara, disse: ”Pai, perdoa-lhes por que eles não sabem o que fazem”. E o olhar mais sublime é o olhar de compreensão. É da compreensão que vem o amor.
Há e houve muitos olhares. O olhar de uma Madre Tereza de Calcutá e o olhar de um Hitler; o olhar de um pedinte, na rua, e o olhar de indiferença perante o sofrimento alheio.
Há ainda o olhar pra frente, dos indiferentes, sem olhar para o lado, onde está o próximo, ou o olhar pra cima, o olhar da transcendência e o olhar para baixo, o olhar dos pessimistas...
Dizia um poeta paraibano, da fase romântica, que nada mais triste do que o olhar de um defunto fitando uma vela acesa...
Cuidado com o olhar. Lembre que Jesus advertiu: “se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo se iluminará”. Vou, já, já, ao espelho praticar um bom olhar.
E fico pensando. Será que existe alguém que nega esmola a um pedinte cego? A melhor maneira de se compadecer de um deficiente é se colocar no lugar dele. Daí surge a compaixão. Mas, devemos lembrar que compaixão exige ação.
Reflitamos: Todo olhar implica em responsabilidade.
3.10.14
3.10.14
C om Paris molhada e fria, qual a melhor opção? Que tal assistir a um concerto nas Salas Pleyel, Gaveau, ou no Teatro Champs Elysées? Que ta...
Com Paris molhada e fria, qual a melhor opção? Que tal assistir a um concerto nas Salas Pleyel, Gaveau, ou no Teatro Champs Elysées? Que tal um passeio pelo Louvre, pelo Orsay ou uma livraria?... Que tal um restaurante, que aqui na Cidade Luz é o que mais se vê. Gosto de ver as pessoas conversando, sorrindo e comendo nos restaurantes. Se não existisse a boca que seria do turismo? Conquanto sempre se falando baixinho, os idiomas se chocam nas animadas conversas, e, às vezes, até se escuta um “parabéns pra você”. Como somos amigos da velhice a ponto de cantar parabéns para quem completa mais um ano de existência!... As pessoas costumam dizer: “ele completou mais uma primavera”. Por que não um outono ou um inverno?
A verdade é que sem restaurantes não haverá turismo. Chegam até a dizer: “Bacalhau só em Lisboa”. Concordo em parte, pois foi em em Paris que também me deliciei com um gostoso bacalhau, sem falar o delicioso que a nossa chefe de cozinha de Tambaú, sabe muito bem preparar.
Falei em livrarias, museus, salas de concerto e me esqueci da maior casa de espetáculos de Paris, que é a Ópera Garnier, que não se deve conhecer somente por fora. Que beleza de teto, que luxo, que grandiosidade artística em todos os detalhes! E eu com medo de tropeçar nos luxuosos tapetes, já que nossos olhos estavam passeando pelos belos tetos daquele templo da arte.
Essas oportunidades de rever a Ópera sempre devemos ao planejamento cultural do comandante de nosso grupo, meu filho Germano. E sabe qual foi o último cardápio cultural?: “O Anão”, de Zemlinsky e “A criança e os sortilégios”, de Ravel, baseado num conto de Colette. E eu não conseguia tirar o olho do teto pintado por Marc Chagall...
O teatro enorme, chamando a todo instante o nosso olhar de contemplação. Fui me demorando, me demorando e, de repente, não vi mais ninguém. Até os meus familiares já estavam lá fora, quando duas moças recepcionistas, por sinal lindíssimas, muito bem uniformizadas, vieram me chamar, pois a Ópera ia fechar... Eu ainda relutei em ficar, não pelas moças, mas pela paz que reinava naquele belo teatro. Lá fora, meus queridos familiares, já ansiosos, me saudavam com muitas gargalhadas. Ah, Paris...
3.10.14
28.9.14
É este o ritmo da vida. Uma corrida em que as crianças estão subindo e os idosos descendo, tanto é assim que estes costumam usar bengalas p...
É este o ritmo da vida. Uma corrida em que as crianças estão subindo e os idosos descendo, tanto é assim que estes costumam usar bengalas para não caírem. Já os da fase madura vão correndo na vida, sem acidentes.
E viver é isto: subir, correr, descer e pronto. E a grande descida é quando o nosso corpo desce terra a dentro para lágrimas de muitos e alegria dos vermes. Ah, Augusto dos Anjos!..
As árvores não sabem descer. Elas, mal saem das sementes, já começam a subir. E nessa subida tomam banho de sol e de chuva. Tudo isso graças às raízes, que, todos os dias, nos dão lição de humildade. Ninguém as vê, a não ser quando as árvores são arrancadas...
Todo mundo só quer subir. Poucos descem para ajudar os que estão embaixo. Estão aí os políticos tentando subir no “pau de sebo” da política. E o que é pau de sebo? Quando eu era menino, via os garotos subindo num pau todo engraxado atrás de agarrar uma nota de dez mil réis, que ficava lá no alto, como uma tentação. Era quase impossível chegar lá em cima e agarrar o dinheiro. O pau escorregava que era uma beleza. E sabe o que muitos faziam? Melavam a mão de areia, facilitando, assim, a subida. Lembra certos políticos desonestos, que usam meios ilegais para subir.
Deixemos o pau de sebo da política e falemos de outras subidas. Tenho muita pena da chuva. Ela só sabe descer. O mar faz tudo para se verticalizar. Os pássaros sobem que é uma beleza, inclusive o urubu que, de longe, vê a sujeira cá em baixo, graças ao seu benéfico olfato. E a subida do avião, a chamada decolagem, que o português chama descolagem? E ele está certo. De fato, a aeronave se descola da terra. Este é um dos momentos que mais me empolga. Tudo vai ficando pequeno lá em baixo. Já não gosto da aterrissagem, que o português denomina aterragem.
Há também as subidas dos ideais. Vez por outra, estamos ouvindo: ”Fulano subiu na vida”... Mas, como já disse, é preciso também saber descer para ajudar os outros a subirem. Jesus deu o exemplo. Ele veio ao mundo para nos ensinar a ascender. Mas os homens terminaram fazendo-o subir na cruz, onde foi pregado, depois de uma caminhada sob chicotadas, o suor descendo no rosto...
Descem as lágrimas, lentamente. Descem os rios, O lago nem desce, nem sobe. O lago é parado. Descem as cataratas. E é lindo vê-las caindo das montanhas. Ah, as montanhas da Nova Zelândia...
Sobe a pressão, assustando a gente. Os peixes, no mar, só fazem nadar. Nada de subir. Só sobem quando são puxados por um anzol. Que pena...
Jesus desceu e subiu. Desceu para limpar leprosos, levantar paralíticos, dar vista aos cegos. Para pregar o seu primeiro sermão, escolheu uma montanha. Ele subiu aquela tribuna de pedra para que os homens também subissem... Subiu para conversar com o Pai.
E para finalizar, quem vive descendo e subindo, o dia todo, é o elevador. Graças a ele a gente não precisa da escada. Coitado...
Mas a temperatura está subindo e eu estou com vontade de descer até a praia para tomar aquele banho. Mas tudo fica no desejo. E viva a vida!
28.9.14
27.9.14
É uma das árvores que eu mais admiro. Ela não bota flores, mas suas grandes folhas, quando envelhecidas, tornam-se amarelas e belas. A cast...
É uma das árvores que eu mais admiro. Ela não bota flores, mas suas grandes folhas, quando envelhecidas, tornam-se amarelas e belas. A castanhola não tem uma fruta muito apreciada. Apesar de haver quem goste daquelas suas bolotas, que, segundo dizem, são até docinhas, e agradam principalmente aos morcegos e bem-te-vis.
Mas a castanhola dá uma sombra muito acolhedora, que chega a fazer raiva ao sol. Os pardais costumam fazer da castanhola sua casa. Quando começa a escurecer, quando o sol vai deixando a Terra, os pardais não querem outro lugar para se abrigarem. E chegam sempre na maior algazarra. A castanhola vira um edifício de apartamentos...
Mas quando as folhas verdes amarelecem e vão caindo no chão, numa lentidão de lágrima, sinto um nó na garganta. O verde das folhas se tornando amarelo. Aí temos um comovente bailado, o bailado das folhas amarelas. Elas caem no chão e são chutadas, como imprestáveis. Mas, o que fazer? É o bailado da vida. Tudo nasce, tudo morre, tudo renasce. Na verdade, tudo se transforma, como já dizia Lavoisier.
Sempre que apanho uma folha amarela, tenho vontade de beijá-la ou guardá-la. E agora estou me lembrando dos plátanos de Paris, que no outono começam a se despir, e logo ficam todos sem folhas, morrendo de frio. Parecem interrogações. E eu fico desejando a chegada da primavera. Ah, Paris, como me comovem as tuas alamedas cheias de plátanos nus, no inverno... Os plátanos das alamedas do Jardim de Luxemburgo, do cais do rio Sena, da bela e turística avenida Champs Elysées, dos Champs de Mars, ali pertinho da Torre Eiffel, que ficam todos completamente secos
Mas eu vinha falando de castanholas, que decerto já estão com ciúme do cronista. Deixemos os plátanos para os lugares frios. As castanholas são árvores do sol, dos trópicos, do calor. Temos uma linda e frondosa aqui no quintal da nossa casa de Tambaú.
Mas, vamos pingar o ponto final na crônica. E viva a didática das castanholas e dos plátanos que estão sempre nos dando uma lição de vida, de renovação. Tudo na Natureza nos ensina. Eis a grande verdade. O negócio é saber ver. Saber ver e saber pensar. E viva a vida.
27.9.14