Eis que me bate uma inveja imensa da Noruega. Isso é coisa muito condenável? “Ééé, siiim! É um dos sete pecados capitais”, responde aquela que me atura há quase 50 anos. Percebo, então, que me arrisco a ir para os quintos do inferno com tripa e tudo, a não ser que eu me ajeite antes de bater as botas. Mas, não adianta. Morro, mesmo, de inveja da Noruega.
Perdão, Santo Agostinho. Lembro, de repente, que o senhor tem na inveja um pecado diabólico por excelência, um caruncho que rói a madeira, um sentimento que aniquila a alma de quem o detenha. Confesso, meu santo, que eu me ponho como aquele bebê pálido e de olhar amargo para o irmão de leite, um carinha que sequer falava e já padecia de ciúmes. Aquele assim descrito nas “Confissões”, sua grande obra.
Mas o senhor nem ninguém entenda que vá a tal ponto minha admiração por um futebol que o do Brasil nunca foi capaz de superar. Das cinco vezes em que nos enfrentamos, empatamos em duas e perdemos em três. Isso aconteceu em Oslo (nos amistosos de julho de 1988, maio de 1997 e agosto de 2006), na França (durante a fase de grupos da Copa de 1998) e no último dia 5 (no indigesto MetLife Stadium, de Nova Jersey).
Não, não é disso que me ressinto. O que eu invejo mesmo é o progresso alcançado por essa gente que encena remadas na celebração dos gols e que, desse modo, se inspira nas travessias e conquistas da Era Viking. Não quero a herança genética, mas a disposição de luta. Digo que não troco minhas beiras de praia pelos fiordes de ninguém.
Invejo, isto sim, o Fundo Global de Pensões do Governo, instituído em 1990 depois da descoberta gigantesca dos lençóis de óleo e gás no Mar do Norte. Quero este fundo soberano – o maior do mundo – cujo patrimônio já vai além dos US$ 3 trilhões. São recursos que, embora guardados no exterior, financiam um bem-estar social robusto, bem robusto.
Ponho-me, assim, de olho grande em reservas financeiras que naquelas águas e terras blindam a economia local contra a volatilidade do preço do barril e funciona como poupança gordíssima de longo prazo para estas e as futuras gerações de noruegueses. Almejo a saúde pública de altíssima qualidade, a educação gratuita desde a primeira escola até à universidade, e a segurança previdenciária em benefício de uma população com altíssima longevidade.
Leio que este Fundo é gerido pelo Banco Central do País, o Norges Bank, sob critérios éticos para lá de rígidos. Informo-me de que empresas envolvidas com desmatamentos severos, violações de direitos humanos, armas nucleares, ou produção de tabaco, estão sumariamente banidas do portfólio norueguês de investimentos não totalmente livre de críticas, a bem da verdade. Isso, porque é a receita do petróleo fóssil danoso à natureza que sustenta, ali, o desenvolvimento social e econômico de 5,5 milhões de seres humanos. Mas é preciso acentuar que esse mesmo petróleo também financia sua própria transição: aquela que, futuramente, haverá de conduzir a totalidade do planeta a fontes de energia limpa e renovável, se um doido qualquer não apertar, antes disso, um desses muitos botões atômicos.
Estou em boa companhia, Santo Agostinho. Conte isso a São Pedro e a quem mais detenha as chaves do Paraíso. Sofro da boa inveja, aquela sentida por Mário Moacyr Porto, o reitor da Universidade Federal da Paraíba cassado na ditadura militar que então se implantava no Brasil. Desempregado, ele foi tomar conta, no Rio Grande do Norte, da Mineradora Tomaz Salustino, a empresa do sogro e de quem a Suécia comprava grandes volumes de scheelita. Pois bem, o velho Mário (ainda novo àquela época) recebeu o convite e, assim, pôs-se em visita ao laboratório do freguês sueco, bem do lado da Noruega.
O engenheiro por quem era recebido havia trabalhado em São Paulo e, portanto, conseguia sustentar uma boa conversa em português. “Estou admirado com a Suécia, doutor. Aqui, tudo funciona às mil maravilhas. Podemos acertar o relógio pelo horário do trem”, comentou nosso Mário para ouvir do interlocutor: “Está vendo aquele rapaz, lá no fundo, a lavar ampolas? Pois bem, ganho mais do que ele apenas vinte por cento”.
Meu entrevistado para uma matéria de capa da Revista A CARTA, o doutor Mário não me contou quanto ganhavam um e outro. Mas anotou a queixa do engenheiro: a Suécia estaria perdendo cérebros para centros industriais e tecnológicos com remunerações mais altas para atividades especializadas. O diabo – pensei com meus botões – é que lá fora, costumeiramente, os holerites mais gordos emagrecem os que já são magros.
Agora mesmo, ocorre-me outra história contada, desta vez, por Cláudia Trevisan na “Folha de São Paulo”, edição de março de 2008. O gari sueco que ela pretendia entrevistar adiara a conversa com o jornal até o regresso das férias nos Alpes austríacos. Até então, estaria, ali, a esquiar com a esposa médica.
Concluo: se há, de fato, migração irrefreável de cérebros escandinavos para os EUA e pontos diversos da Europa Ocidental isso ocorre num ritmo que, nitidamente, não tem afetado os meios de produção tecnológica e científica em nações com os maiores Índices de Desenvolvimento Humano do planeta. Décadas se passaram entre o que eu ouvi do velho e bom Mário Porto e o que relatou a seus leitores a jornalista Cláudia Trevisan. Ponham-se no balaio dos povos bem-sucedidos os da Noruega (com IDH de 0,970), da Dinamarca (com 0,962) e da Suécia (com 0,959).
É isso o que eu invejo: uma democracia forte, uma economia de mercado estável e um sistema de bem-estar social capaz de garantir a cada povo a igualdade e a qualidade de vida elevada. Não as canelas enormes e famosas de Erling Haaland.
Ah, mas o escandinavo é um povo frio como seu gelo, triste como suas noites e dado ao suicídio... Muitos, por aqui, ainda se apegam ao estereótipo. E lá me volta a lembrança do velho Mário. Num salão requintado, com música ao fundo, homens de smoking e mulheres também elegantíssimas, ele obteve, em Estocolmo, a resposta à história sobre a incidência dos que se matam naquela parte do mundo: “Nossa estatística é melhor do que a de vocês”.
A Edna de José Lins do Rego, a bela sueca do romance “Riacho Doce”, tinha em um dos pulsos, desde muito jovem, a cicatriz decorrente do corte por onde se esvairia o sangue vital. Fora socorrida, porém, a bom tempo. No litoral alagoano, onde desembarcou ao lado do engenheiro Carlos, o marido, ela se tomou de amores pelo sol, pelo mar e por Nô, o pescador.
A exploração petrolífera, com outros dramas humanos, compôs a trama de “Riacho Doce”. Aqui, as primeiras perfuratrizes promoviam o choque entre a modernidade e a tradição, agudizavam as desigualdades e matavam, em boa parte, as esperanças. Tal enredo não pareceria muito distante de uma Petrobras sedimentada, há quem diga, com o sangue de Getúlio. Uma Petrobras que o neoliberalismo já quis “Petrobrax”, bem ao gosto anglo-saxão. Uma estatal que terminou por perder o acento agudo e o “brás”, de Brasil, como sílaba tônica, forte. Uma Petrobras com cotas vendidas na bacia das almas. Mas essa é outra história.
Que inveja da Noruega!...







