Foi uma longa caminhada: de Jaguaribe a Coimbra. E consumiu várias décadas de luta, perseverança e dedicação. Não foi fácil, mas fo...

Genival Veloso de França: de Jaguaribe a Coimbra

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Foi uma longa caminhada: de Jaguaribe a Coimbra. E consumiu várias décadas de luta, perseverança e dedicação. Não foi fácil, mas foi bonita essa trajetória que diz praticamente tudo sobre a vida vitoriosa do paraibano Genival Veloso de França, autoridade reconhecida nacional e internacionalmente na área da Medicina Legal. Um nome de primeira grandeza no mundo acadêmico, referência incontornável nos assuntos de sua especialidade.

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Genival Veloso
@genival.velosodefranca
Como muitos brasileiros ilustres, seu ponto de partida foi modesto, o que valoriza ainda mais o ponto de chegada. Seu pai tirava o sustento da família de um pequeno comércio, sua mãe garantia a retaguarda doméstica, gerindo em casa, com sabedoria e visão, o centro da vida familiar. Se não havia larguezas, nunca faltava o essencial, como em milhões de lares semelhantes. O principal havia – e era o que importava: uma base familiar coesa e estável, a partir da qual, com esforço e obstinação, tudo seria possível – como de fato foi.

O pai, conhecedor das dificuldades da vida, imaginou-lhe pragmaticamente um plausível futuro como técnico ou artesão, cuja formação estaria ao alcance na então Escola Industrial (depois, Escola Técnica, e atualmente, Instituto Federal), sediada ali mesmo em Jaguaribe, o bairro onde residiam. A mãe, visionária, como costumam ser as genitoras, foi peremptória e decisiva: “Não. Meu filho vai ser doutor”. E aí começou a árdua jornada que só terminaria muitos anos após, com sua formatura no curso de medicina.

Costuma-se dizer – e não sem razão – que ninguém se faz sozinho. Um amigo mais experiente gosta de afirmar, certamente com conhecimento de causa, que “um homem é que faz outro homem”, naquele mesmo sentido
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Oscar de Castro Acervo familiar
de que para vencer na vida precisamos sempre de alguém que nos dê a mão. No caso de Genival, dois personagens se destacam, sem demérito para vários outros que não serão citados: José Américo de Almeida e Oscar de Castro. O primeiro nomeou-o para o cargo de bedel do Liceu Paraibano, com horário noturno, o que lhe possibilitou estudar durante o dia; o segundo adotou-o como assistente na cadeira de Medicina Legal, no curso médico, introduzindo-o na disciplina em que se consagraria, superando até mesmo o antigo mestre em termos de repercussão acadêmica. Esses dois, provavelmente foram os principais, mas outros certamente abriram-lhe outras portas, porque assim é a vida; como se disse, ninguém se faz só.

As oportunidades são muito importantes. Mas mais importante é o que se faz com elas. Quantas pessoas não tiveram grandes chances e as desperdiçaram? Quantos filhinhos de papai, privilegiados desde o berço, não deram em nada? O diferencial positivo de Genival é que ele soube aproveitar bem as ocasiões propícias que foram surgindo ao longo da vida. Sua escala, pode-se afirmar, foi sempre ascendente, sempre pra frente. Provavelmente conheceu reveses, porque assim acontece com todos, mas sempre soube superá-los e transformá-los em experiências enriquecedoras.

A medicina, todo mundo sabe, é uma área profissional elitista e tradicionalmente eivada de preconceitos de toda ordem. Aqui no Brasil, sempre foi reduto quase que exclusivo dos bem-nascidos, ou seja, dos brancos mais privilegiados. Primeiro, porque nos primórdios existiam poucos cursos
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@genival.velosodefranca
médicos no país (Rio de Janeiro e Bahia), dificultando o acesso dos menos aquinhoados dos outros estados brasileiros; segundo, porque, além de caro, o curso era (é) sempre diurno, praticamente impedindo que os alunos trabalhassem para custeá-lo. Genival Veloso conheceu essa realidade na alma e na pele, literalmente falando, mas sem curvar-se aos obstáculos que iam fatalmente surgindo, como pedras drummondianas, em seu caminho. Pelo contrário, soube contorná-las - e em alguns casos galgá-las – até convencer-se de que o nicho acadêmico em que poderia brilhar era a Medicina Legal, área pouco atraente para a maioria de seus colegas, por uma razão muito simples, humana e compreensível: ela trata dos mortos, e estes, como se sabe, não são clientes rentáveis nem conferem prestígio aos que deles se ocupam. Os mortos, mesmo quando ilustres, não interessam, porque nada mais podem oferecer. Genival, entretanto, resolveu adotá-los e dedicar-lhes os seus até então insuspeitados talentos de cientista de escol.

Atuando, ensinando e publicando artigos e livros, aos poucos Genival foi se firmando na especialidade eleita, até tornar-se um dos maiores nomes do Brasil, a ponto de extrapolar as fronteiras nacionais, como voz das mais autorizadas em sua área. Até chegar a Coimbra, onde foi ensinar, como professor convidado, no Instituto de Medicina Legal daquela multicentenária cidade tão orgulhosa de sua fama e tradição universitárias. Como bem sabemos, nos primeiros séculos de nossa história, os jovens brasileiros de elite iam estudar em Coimbra; agora, mandávamos para lá um professor oriundo do povo, numa prova eloquente do progresso nacional.

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Homenagem a Genival Veloso em Coimbra (Portugal, 2019)
@genival.velosodefranca
Sem ser político nem militante partidário, foi candidato a reitor da UFPB e a governador da Paraíba, candidaturas que foram muito mais dos admiradores de sua vida limpa que suas. Tanto a universidade como o estado perderam a oportunidade de ver o que teria sido uma gestão sob seu comando. De sua parte, ele provavelmente ganhou, ao ser poupado das decepções que a administração pública impõe aos que a ela se dedicam com ética e elevação. Ganhou também a ciência da qual se tornara um mestre.

Muito se pode contar e escrever sobre a vida rica e vitoriosa de Genival Veloso de França, hoje um reconhecido filho ilustre da Paraíba e do Brasil, principalmente agora que ela se aproxima das nove décadas. Sua caminhada de Jaguaribe a Coimbra mostra aonde chegou o menino franzino cuja mãe guerreira lutou para que fosse doutor. Ele chegou lá, sem nenhuma dúvida. E quão imenso doutor se tornou!

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  1. Integrei um geração de alunos da nossa UFPb que, decerto, merece destaque, pois que protagonizou momentos fundamentais da Instituição, como sua federalização e aparecimento de figuras como "Geninho", denominação carinhosa que seus colegas lhe deram e que bem demonstra o apreço que se tinha por ele e que persiste até hoje entre seus colegas, remanescentes daqueles tempos, amigos e admiradores, tocados por seu espírito iluminado.
    Obrigado, Gil, pela lembrança.

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  2. Anônimo6/3/23 16:13

    Sou fã admiradora aluna ❤️ meu querido amigo e professor ímpar sou Rosa 🌹 Macedo de Albuquerque turma médicos 1978

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