Para que compartilhar a loucura? Tem-se que guardar em segredo a penúria dos instintos que nos avassalam a alma. A loucura transborda, ...

O intruso

solidao retorno
Para que compartilhar a loucura? Tem-se que guardar em segredo a penúria dos instintos que nos avassalam a alma. A loucura transborda, atordoa, é inventiva demais.

Diriam que ela é suportável nas crianças e em alguns endemoniados perdidos nos acostamentos das autoestradas – sempre carregando nas costas suas sacolas cheias de coisas-nenhumas. Elas não aprenderam ainda a ser gente;
eles desaprenderam a ser humanos...

Mas, na manhã em que tive o espírito desperto, assim, obsequioso, fui entrando nas casas. E todos desviaram de mim o olhar.

Hoje, não mais embriagado pelas convicções que me moviam, pude ouvir dos poucos que me fitaram por um breve instante o seguinte relato:

Surgi lento diante dos portais das casas, quando os primeiros raios oblíquos da manhã não ousavam passar do peitoril das janelas. Essa ausência de luz no interior de suas moradias fez maior o impacto daquele que se anunciava.

Raios de sol escorriam-me pela face onde já adormecera o orvalho que trazia da madrugada fria. De súbito, toda a luz esfacelou-se em mil arco-íris.

Um olhar sem fio terra fez calar os poucos que ensaiaram dizer de sua objeção à minha presença, assim tão cedo e sem convite.

E, por ter deixado de acreditar na cautela do silêncio, fui derramando a língua sobre os móveis da sala onde todos os moradores, perplexos, se mantinham sentados. As palavras me enchiam a boca, e, se as tentasse calar, seria possível ver as protuberâncias que a fala contida criava ao serpentear em meu rosto. E, quando conseguiam vencer meu esforço – pois já começava a observar o quão inoportuno eu era àquela gente – , sentia-se o arrebatamento do grito arremessado.

Poderia continuar discorrendo sobre a imagem fantástica que aqueles indivíduos guardaram daquele dia, mas prefiro dizer que aquele não era eu.

Não nego aqui as intenções (inocentes intenções) que me impulsionaram porta adentro. Não, elas sempre foram autênticas. Refiro-me ao personagem descrito. Esse, sim, não era eu.

De tudo que falaram, talvez o que mais se aproximasse do real fosse meu rosto molhado com o suor que passou a escorrer profusamente, quando me ocorreu dividir com os homens minha parcela do descobrimento do mundo humano.

Custou-me entender que não se deve revirar as prateleiras domésticas, desmantelar os espaços, desarranjar a ordem estabelecida para a vida.

Mas também, que besteira!... Não se compartilha o fundilho rasgado para morder o rabo.

Nos últimos tempos, tenho ficado por aqui, zanzando onde posso ser ignorado. Como me restringiram o espaço para o olhar, mantenho meus olhos apontados para o chão.

Mas sou feliz, aprendi que para conquistar a liberdade, bastou chamar-me: “Ninguém”.

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