O cotidiano de Aleksei Ivánovitch, protagonista da história, envolve basicamente três movimentos diários: educar os filhos do General, os passeios pelo bonito lugar onde está hospedado e ocupar o resto do seu tempo pensando em seu grande amor, Polina Aleksandrovna, a enteada do General. Paixão por demais intensa, beirando a obsessão. Amor desenfreado e eloquente que ocupa todo o seu ser.
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O General Zagorianski é um fidalgo russo que, juntamente com a sua comitiva, hospeda-se em uma estância alemã, lugar muito apreciado pela aristocracia europeia. A comitiva do fidalgo inclui as suas duas crianças, Micha e Nádia; Polina, a sua enteada; o amigo Marquês des Grieux; o Sr. Asthley; e o tutor das crianças, Aleksei Ivánovitch.
Zagorianski está muito endividado. As finanças comprometidas o forçam a contrair empréstimos e hipotecas de bens com o Marquês des Grieux. Para ele, a única solução plausível — muito aguardada — seria a morte da sua avó Antonina Vassilievna, que, por ora, encontra-se hospitalizada entre a vida e a morte. Nesse meio-tempo, ele segue tentando a sorte no cassino de Roletemburgo.
Roletemburgo é um lugar mágico, extravagante, dotado de espaços muito bem decorados, jardins e praças esplendorosos, além de hotéis que servem à aristocracia. O principal atrativo do lugar é o cassino, tão elegante quanto a cidade. Lá, as roletas comandam a sorte dos participantes através das jogatinas.
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Os paralelos com a vida do autor são verídicos, uma vez que ele vivenciou, em épocas de vício em jogos, situações semelhantes às dos participantes da história.
Era comum ao General enviar telegramas para o hospital, indagando pelo estado de saúde da velha senhora de 75 anos. Um dia não se passava sem que fizessem questionamentos sobre a passagem da moribunda desta para melhor. Estavam aflitos pela herança da vovó.
Um acontecimento marcante preencheu o dia da família do General. Repentinamente, chega à estação de trem, sem avisar, a vovó Antonina. Toda a história muda de rumo e toda a família entra em polvorosa. A vovó, antes dada como quase morta, surge bem viva e cercada por sua comitiva de empregados. Chegada inesperada e frustrante, principalmente para o General.
Dividirei com vocês a parte em que a trama dá literalmente um giro de trezentos e sessenta graus:
“... — Alex Ivanovitch, leve-me ao General... a vovó fez uma entrada triunfal... estavam todos reunidos no gabinete... grande Deus!!!... eu jamais esquecerei este impacto... diante da visão de vovó, o General deixou
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cair o queixo. Ele a fixava com os olhos arregalados, como se estivesse fascinado pela visão de um monstro pré-histórico. A vovó o contemplava sem dizer uma palavra; imóvel, triunfante, mas com olhar provocador e zombeteiro. Observaram-se por uma dezena de segundos em meio a um silêncio geral.” (Cap. 12)
O senhor des Grieux ficou, de início, estupefato, mas uma inquietação extrema surgiu em seu rosto.
Era uma catástrofe para todo mundo.
— Vim no lugar do telegrama. Não esperava por mim?” (Cap. 12)
A vovó chegou curiosa por conhecer os arredores da cidade e apreciar o que o turismo local tinha para oferecer-lhe. Foi-lhe apresentado o que não esperávamos: o cassino. Dada a personalidade forte da vovó em diálogos anteriores, não diríamos, de forma alguma, que ela iria gostar de ambientes avessos a uma “lady”.
Em suma, a vovó caiu em desgraça na jogatina, completamente dependente de mais uma rodada, em noites seguidas,
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uma após a outra. Aconteceu o inesperado: a vovó perdeu a maior parte de sua fortuna. Aquela pessoa altiva, centrada e orgulhosa sucumbiu, tornando-se uma pessoa humilhada e falida. Nem morreu, nem ganhou dinheiro algum. E assim retornou para casa, tão logo pôde.
É perceptível a carência emocional de Aleksei. Qualidades e defeitos o tornam vulnerável, e o amor exagerado pela jovem Polina não ajuda muito. Ingressa, quase brincando e divertindo-se, no perigoso cassino. Despretensiosamente. Mas isso não vai acabar bem.
A seguir, veremos o frenesi de Aleksei, deixando-se guiar pela satisfação de ganhar, mas também pela probabilidade de vir a ser mais um perdedor, na magistral descrição do autor. Confesso que não houve como não me transportar para a condição de espectadora:
“... o que significaria para mim perder naquele momento? E perdi... era toda a minha vida que estava em jogo... um tremor, uma espécie de transe febril... uma fúria tomou conta de mim. Peguei os dois mil florins que me restavam e os coloquei no número 12 sem pensar; ao acaso,
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cegamente e sem calcular. Houve um momento de expectativa.
— Quatro!!! — gritou o crupiê.
Com a aposta anterior, isso somava seis mil florins. Assumi ares triunfantes e não temia coisa alguma... joguei quatro mil florins sobre o negro, como eu fizera. Os crupiês trocavam olhares e palavras. Em volta, falavam e esperavam; saiu o negro!!!
A partir desse momento não me lembrava nem da sucessão de jogadas. Lembro-me apenas, como se fosse um sonho... eu havia ganhado cerca de 16 mil florins!!!... Súbito... lances infelizes fizeram com que eu perdesse doze mil... coloquei então os últimos quatro mil restantes no vermelho...” (Cap. 14)
Aleksei, em questão de segundos, viaja do céu ao inferno. O que, em dado momento, pareceu entusiasmo e pura emoção mudou de figura, e o jovem vislumbrou o inferno de perder dinheiro muito rápido.
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Esse descontrole emocional, vivenciado por pessoas dependentes de jogos, não justifica nem de leve uma tentativa sequer. Observei que eles, os jogadores, adquirem superstições desvairadas, tais como girar o anel do dedo para um determinado lado da mão ou entrar em determinado horário predeterminado no cassino, em troca de um pouquinho mais de sorte.
O desejo de sair do vício caracteriza um esforço hercúleo. A vítima que deseja desvencilhar-se da rotina dos cassinos e trazer de volta a dignidade perdida há de possuir braços de ferro e mente de aço.
O livro O Jogador foi escrito no ano de 1867 por Dostoievski (1821–1881). É um romance realista que enfatiza o malfadado percurso percorrido pelas pessoas viciadas em jogatinas. Escrito em primeira pessoa, faz uma crítica mordaz à obsessão por ganhar dinheiro de forma fácil.
Dostoievski criou um nome fictício para a estância de diversão, satirizando o nome do lugar: Roletemburgo.
Dostoievski
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A palavra “roleta” deriva do francês e significa literalmente “pequena roda”, justamente o jogo de azar central na trama.
Ele foi um dos maiores romancistas e pensadores da história. Suas obras revolucionaram a literatura por explorarem as profundezas da mente humana.
“... a paixão pelo jogo foi a segunda doença, possivelmente relacionada com a primeira paixão. Uma obsessão verdadeiramente anormal. A isso devemos o maravilhoso O Jogador, história que se passa em uma estação de águas alemã, inverossímil e perversamente chamada Roletemburgo. Nesse romance, a psicologia da paixão mórbida e do demônio ‘sorte’ é exposta com incomparável sagacidade.” — Thomas Mann (1875–1955), romancista e Prêmio Nobel de Literatura em 1929.