Na era do scroll infinito, onde o span de atenção mal roça os oito segundos, deparei-me com um livro antigo na estante, ali no canti...

Nas horas do rádio relógio

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Na era do scroll infinito, onde o span de atenção mal roça os oito segundos, deparei-me com um livro antigo na estante, ali no cantinho, despercebido.

Era um romance de Clarice Lispector, A Hora da Estrela, com suas páginas já amareladas e cheiro de tempo guardado. Peguei-o por impulso,
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enquanto o celular vibrava na mesa, prometendo atualizações urgentes do mundo em pixels.

Sentei-me na poltrona, cadeira do papai, mas, logo ao tentar reler o primeiro parágrafo, a distração me traiu: a mente divagou para o mundo Tik-Tok, de vídeos banais, ou uma thread no (X) sobre política efervescente.

Multitaskei, o dedo deslizando na tela enquanto os olhos fingiam devorar as linhas, como todos fazemos nas redes sociais. Quantas das trezentas palavras máximas de um post eu realmente leio? Raramente mais de cento e vinte, admito, antes que o algoritmo me arraste para o próximo estímulo.

Com o livro no colo, pensei em Macabéa, a protagonista invisível de Clarice, que mal compreendia o mundo à sua volta. Imaginava o tempo através do rádio sintonizado na emissora Rádio Relógio Federal, do Rio de Janeiro, com o “você sabia” e o bordão “Tic-Toc”, em espaços de minutos: “...a mosca, em sua vida, dá X voltas na Terra com seu voo”, uma sequência do filme A Hora da Estrela.

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A atriz paraibana Marcélia Cartaxo interpreta Macabéa no filme A Hora da Estrela (1985), produção baseada no livro homônino da escritora Clarice Lispector (1920-1977).
Hoje, somos todos um pouco Macabéas digitais: iludidos pela sensação de sermos lidos, mas famintos por sermos escutados. Nas redes, postamos feed e stories, crônicas pessoais disfarçadas de tweets (X), fragmentos de alma em cento e oitenta caracteres, outrora cento e vinte, quando o Twitter nos moldava à brevidade poética.

Agora, com limites expandidos, ainda assim o ritmo é tik-tokiano: cortes rápidos, loops viciantes, uma linguagem que transforma ideias em “imagem informação” passageira.

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Imagem: Cottonbro Std
A experiência do usuário (UX) foi reconfigurada para o efêmero, onde a profundidade é inimiga da dopamina instantânea. Um vídeo de quinze segundos explica o capitalismo; outro ri da solidão urbana.

Levantei-me, caminhei até a janela. Lá fora, Manaíra, em João Pessoa, pulsava com sua luz tropical; turistas invadiam a cidade precária; no ar, o mau cheiro do esgoto estourado nas ruas por descaso da concessionária. Mas, dentro de mim, uma reflexão se armava como nuvem de verão, em um cloud próximo de virar fumaça.

HOJE, NEM NOSSAS IMAGENS TEMOS; ESTÃO NAS NUVENS.

A pré-extinção dos leitores de romances, poesias, crônicas e contos não é um apocalipse distante. Já é obsolescência galopante, sem sebos suficientes com espaços. Lembrei das estatísticas que circulam como boatos cultos: no Brasil, metade da população não abre um livro há meses, e as redes sociais devoram o tempo que outrora era de narrativas longas.

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Foto: N. Cong
Romances encurtaram; capítulos viram pílulas de trezentas palavras; contos, ah, os contos! Agora são memes literários no reddit, onde escritores perguntam: “As pessoas ainda leem livros de contos?”. Crônicas, outrora pilares de jornais como os de Rubem Braga, agora competem com stories que evaporam em vinte e quatro horas.

Multitarefa é o veneno sutil. Usuários, telados nas mãos praticamente o dia todo, leem um post de trezentas palavras, raramente, mas absorvem só o essencial: o gancho, a imagem chocante, o call to action.
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Imagem: Mart Prod
O resto? Perdido no vórtice de abas abertas, playlists de fundo e notificações piscando.

Essa efêmera aculturação, como chamo esse processo, não é só distração, mas está se tornando uma ameaça ao pensamento crítico e à conexão emocional profunda.

Num romance, mergulhamos na psique alheia, questionamos motivações, tecemos empatia fio a fio. Num Tik-Tok, reagimos visceralmente, mas superficialmente. Um like é escuta? Um share é compreensão? Não.

É ilusão de presença, onde ser lido substitui ser escutado de verdade.

Voltei ao livro, forçando o foco. Li devagar, sublinhando frases como “a estrela é o astro que nunca se apaga”. Mas o span de atenção, esse traidor de oito segundos, sabotava: a cada parágrafo, um zumbido mental me puxava para o “e se eu checar o feed?”.

Estudos mentais explicitam que isso é treinado: o cérebro, plástico como argila, é moldado por vídeos curtos que elevam o cortisol e corroem funções executivas. No Brasil, onde o Tik-Tok reina entre jovens,
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a leitura profunda vira relíquia, nicho resistente para mediana cultura como a minha: professores, analistas culturais, leitores vorazes que lutam contra a corrente.

Imaginei um futuro onde romances viram NFTs raros; crônicas, podcasts acelerados a 2x; contos, threads intermináveis que ninguém termina.

A obsolescência cultural avança: literatura longa, com suas camadas irônicas e ambiguidades, não cabe no scroll. Transforma-se em “imagem informação”, infográficos bonitos sobre Freud, resumos de “1984” em Reels. Perde-se o prazer da ruminação, da conexão emocional que nos faz chorar com um final não dito, pensar criticamente sobre injustiças sociais.

Restam nichos resistentes: clubes de leitura virtuais, bibliotecas comunitárias em periferias, onde o papel ainda sussurra verdades incômodas. Aqui na Paraíba, o Ambiente de Leitura Carlos Romero (ALCR) é um elo de resistência.

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Ambiente de Leitura Carlos Romero, espaço virtual dedicado à literatura, à memória cultural e ao pensamento crítico, com a publicação diária de textos, crônicas, ensaios e poemas. Acessível no computador, em tablets e celulares, inclusive por meio de aplicativo gratuito disponível na Google Play Store.
Mas há esperança na resistência. Comecei a experiência com o Pomodoro, técnica de leitura que surgiu nos anos 1980, criada por Francesco Cirillo, estudante italiano que usou um timer de cozinha em formato de tomate (pomodoro) para dividir estudos em 25 minutos focados + pausas curtas. Para tal, convoquei Clarice e Macabéa.

Aos poucos, o span se estica, de oito segundos para minutos inteiros. Multitarefa? Banida. Posts longos? Leio até o fim, questionando. Nessa efêmera aculturação, onde o efêmero dita o ritmo,
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escolho o lento. Porque pensamento crítico não brota de likes; conexão emocional não se resume a emojis.

Ser escutado exige paciência, e ser lido de verdade precisa de um leitor disposto a sentar, ler e refletir.

Naquela noite, terminei o capítulo. Macabéa, com sua fome invisível, me olhou dos olhos de Clarice. “Você existe porque eu te leio”, pensei. E, no silêncio pós-leitura, sem vibrações digitais, senti-me escutado pelo mundo das palavras.

Num tempo de pré-extinção, nichos como esse, resistentes, fortalecem e abrem mediação para a cultura em ação, que pode salvar o que resta de nós: humanos pensantes, conectados além do scroll.

Penso em Macabéa, a paraibana eternizada por Marcélia Cartaxo, no filme de Suzana Amaral. Menina jovem, atriz iniciante de Cajazeiras, trazia vastíssima vivência sertaneja, mas ainda pulsava nela a cultura temporal do rádio-relógio da década de 80, aquele tic-tac analógico que marcava horas lentas, sem pressa digital; havia ali um tempo que ainda resistia no sertão, oposto ao scroll voraz de hoje.

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Macabéa, personagem interpretada pela atriz Marcélia Cartaxo no filme A Hora da Estrela (1985), dirigido por Suzana Amaral. ▪ Fonte: Imdb
Na releitura de A Hora da Estrela, sua narrativa expressa uma ingenuidade temporal que ressoa como resistência à efêmera aculturação.

ECO DE ATENÇÃO PARA NÃO FRAGMENTAÇÃO DO SER.
NEOLOGISMOS DOS TELADOS
blockchain – banco de dados distribuído imutável; call to action – chamada à ação estratégica; cloud – armazenamento remoto digital; emojis – símbolos gráficos para expressar emoções; feed – fluxo contínuo de publicações digitais; loops – repetição automática contínua; like – aprovação, validação social; online – conectado à internet em tempo real; microblogging – publicação breve e frequente online; NFT – token digital único em blockchain; pixels – unidade mínima digital; podcasts – áudio sob demanda; pomodoro – técnica de foco cronometrado; post – publicação de conteúdo online; reddit – fórum de discussão comunitária; reels – vídeos curtos verticais; scroll – rolagem contínua infinita; share – compartilhamento e distribuição de conteúdo; span – extensão temporal limitada; stories – narrativas efêmeras visuais; timer – marcador de tempo regressivo; tik-tok – vídeos curtos virais; thread – sequência encadeada de comentários; token – unidade digital de representação; tweets – mensagens curtas públicas; X – rede social de microblogging online.

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