Nasceu às doze horas de um dia temperado. Rigorosamente, nem quente nem frio. O signo era Balança. Veio sem berros, choramingando, e quando a mãe lhe deu o peito ele não exultou. Sentia-se que estava apenas satisfeito.
Houve ligeiro desacordo quanto ao nome que iriam lhe dar. O pai queria José, a mãe simpatizava com Elmano. Ficou Joel – uma fórmula conciliatória.
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Não ambicionava riquezas. Dizia sempre que queria ganhar o suficiente para ter o necessário (não explicava para quê). Desprezava o supérfluo, embora admitisse não rejeitar, aos domingos, uma galinha ao molho pardo. Podia ser branco, para evitar suspeitas do radicalismo politicamente correto.
Joel às vezes sonhava. Ia ganhar na loto com mais um grupo, formar-se técnico de nível médio, conhecer um museu em Portugal onde se dizia haver reproduções da torre Eiffel, das pirâmides e de Manhattan. Era demais para ele conhecer essas atrações in loco. Além do mais, se isso ocorresse ele deixaria de sonhar.
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Desconfiava dos idealistas e dos apaixonados; não estavam em si, e duvidava mesmo que estivessem nos outros. Não acreditava no átomo nem no horizonte; eram ficções de espíritos transtornados. E quanto à literatura, sentenciava: não se deve ler o que não represente um instrumento prático imediato. Ultimamente vinha substituindo as obras densas da sua estante por almanaques, folhetos e bulas.
Teve câncer e morreu pouco depois num hospital de segunda. Não do câncer, é óbvio, mas de uma sequela. O destino lhe deu tempo razoável para se penitenciar dos pecados; livrou-se de alguns, os mais graves, e preservou outros, pois não queria o Céu. Nada de extremos.















