Nasceu às doze horas de um dia temperado. Rigorosamente, nem quente nem frio. O signo ...

Mediania

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Nasceu às doze horas de um dia temperado. Rigorosamente, nem quente nem frio. O signo era Balança. Veio sem berros, choramingando, e quando a mãe lhe deu o peito ele não exultou. Sentia-se que estava apenas satisfeito.

Houve ligeiro desacordo quanto ao nome que iriam lhe dar. O pai queria José, a mãe simpatizava com Elmano. Ficou Joel – uma fórmula conciliatória.

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Na escola tinha comportamento regular; nunca um zero, nunca um dez, nunca uma briga. No máximo umas arengas, que o temperamento de Joel apressava em desfazer. Nos últimos anos do segundo grau, botaram-lhe um apelido: Média Ponderada. Não era em referência ao caráter, mas a uma eventual destreza matemática. Serviria, no entanto, para defini-lo quanto ao espírito – um espírito marcado pela aurea mediocritas.

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Com as mulheres Joel não era ousado. Nem tímido. Daí ter logo ficado noivo, situação em que gostaria de ter permanecido pelo resto da vida. Mas como a noiva insistisse e ele não dissesse sim ou não, terminou conduzido à presença do padre. Só que não ia fazer juras; era um expediente muito radical. No máximo, promessas. Ou, antes, disposições. Isso não impediu que saísse da igreja casado e bem-disposto.

Não ambicionava riquezas. Dizia sempre que queria ganhar o suficiente para ter o necessário (não explicava para quê). Desprezava o supérfluo, embora admitisse não rejeitar, aos domingos, uma galinha ao molho pardo. Podia ser branco, para evitar suspeitas do radicalismo politicamente correto.

Joel às vezes sonhava. Ia ganhar na loto com mais um grupo, formar-se técnico de nível médio, conhecer um museu em Portugal onde se dizia haver reproduções da torre Eiffel, das pirâmides e de Manhattan. Era demais para ele conhecer essas atrações in loco. Além do mais, se isso ocorresse ele deixaria de sonhar.

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Em política, dizia-se um moderado. Não gritava slogans: sussurrava-os. Entre a púrpura comunista e o cinza fascista, preferia o furta-cor centrista. Contra os juízos apocalípticos, não achava que o Brasil estivesse à beira do abismo; o que nos espreitava, segundo ele, era tão só um desfiladeiro – coisa mensurável por qualquer escala métrica idônea. Era enfim pela tolerância com os extremistas e revanchistas, o que o levava a admitir, em ocasiões-limite, a prática de passeatas (com no máximo dez pessoas) e pichações (desde que facilmente removíveis).

Desconfiava dos idealistas e dos apaixonados; não estavam em si, e duvidava mesmo que estivessem nos outros. Não acreditava no átomo nem no horizonte; eram ficções de espíritos transtornados. E quanto à literatura, sentenciava: não se deve ler o que não represente um instrumento prático imediato. Ultimamente vinha substituindo as obras densas da sua estante por almanaques, folhetos e bulas.

Teve câncer e morreu pouco depois num hospital de segunda. Não do câncer, é óbvio, mas de uma sequela. O destino lhe deu tempo razoável para se penitenciar dos pecados; livrou-se de alguns, os mais graves, e preservou outros, pois não queria o Céu. Nada de extremos.

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