Procissão
Voz que ecoa
Dos gestos invisíveis
Um povo em procissão
Passos lentos
cadência cativa
do corpo da humanidade
em marcha sobre a terra
do lugar nenhum
Somos um só
organismo vivo
Somos um milagre
— Quem nos explica?
O sopro do Supremo
passa entre nós
como vento de estrela
e faz brilhar
o meu chapéu
Caminhamos
Rasgadas dores
Pise devagar nas flores.
Cuidado com o degrau da vida
Deixe para trás os fardos
Mas o céu pesado
cospe fogo
e fere a pátria dos homens
O tempo de espera
dos meninos
que não voltam nunca mais
A guerra que está lá
bate no meu coração
no seu coração
no coração do mundo
Dai-nos mais coragem
que palavras
Ensina-nos
a viver a paz
No silêncio claro
onde o amor vacilou
na ganância
na fome
na lama dos pés sem descanso
O ar que respiro é um
Se eu morrer
morres também
Somos feitos
da mesma respiração
Por isso aprendo a ler
as pedrinhas do chão
a mansidão do olhar das vacas
a generosidade silenciosa
das abelhas
E então sou rainha
de um reino simples
canto o mundo inteiro
o igual e o desigual
todos guardados
na asa leve do anjo
A cada dia
agradeço
Saí com vida
É vida
Alegria generosa
no meio do jogo insano
De mãos dadas
com o perto
e com o longe
A terra não nega fartura
Mas os homens
sonegam pão e água
e roubam o encanto
do quintal da liberdade
Mesmo assim
a luz do outro
faz nascer amor em mim
O rio corre doce
A casa do mundo
poderia ser limpa de sangue
A mulher menstrua
O homem sangra
É o coração da espécie
O sol da bandeira da terra
poderia secar
todas as feridas
no varal do tempo
Por isso caminhamos
Clamor da fé
em procissão
Um acorde
Um acordo
O estado simples da poesia
quando o coração
já não sabe
se é noite
ou se é dia
Cria-se então
o caminho
onde ainda não há caminho
Da raiz do umbigo
até a coroa do tempo
acendem-se luzes
Voltam do redor do mundo
como contas de rosário
na reza das mães
Uma lágrima rola
pela terra perdida
Mas o sonho
senhor da vida
segue carregando o andor
de cetim lilás
da esperança
E no centro da procissão
um milagre respira
o anjo vivo
de cada manhã
uma criança
12.3.26
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