Hannah Arendt (1906-1975), filósofa alemã, em Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal, publicado em 1963, argumenta que o mal pode se manifestar não necessariamente por perversidade consciente, mas pela incapacidade de pensar criticamente e julgar moralmente os próprios atos dentro de estruturas burocráticas. Ao analisar o julgamento do criminoso nazista alemão Otto Adolf Eichmann (1906-1962), Arendt demonstra como sistemas administrativos podem
Adolf Eichmann, oficial nazista responsável pela logística das deportações de judeus para campos de extermínio durante o regime de Adolf Hitler ▪️ DP
normalizar a destruição humana quando o indivíduo despreza a reflexão ética e se limita a cumprir ordens. Em fenômenos de guerra, esse processo é potencializado pela desumanização do inimigo, mecanismo que transforma o outro em objeto a ser eliminado, legitimando a violência sob o poder da legalidade estatal.
No campo da psicologia da personalidade e da psiquiatria forense, o estudo da psicopatia oferece princípios para compreender como determinados indivíduos podem não apenas tolerar, mas sentir prazer na violência. O conceito contemporâneo de psicopatia foi sistematizado por Robert D. Hare (1934), criador da Lista de Verificação de Psicopatia Revisada (PCL-R), instrumento utilizado na avaliação clínica e criminal. Segundo Hare (1991; 2003), indivíduos com altos índices apresentam traços como superficialidade emocional, ausência de empatia, manipulação interpessoal, egocentrismo exacerbado e falta de remorso. Tais características indicam uma deficiência na capacidade de experimentar culpa e de reconhecer o sofrimento alheio.
Robert James Richard Blair, neurocientista e psicólogo britânico especializado no estudo das bases neurais da psicopatia e dos transtornos de conduta ▪️ Fonte: psykiatri-regionh.dk
Estudos do neurocientista e psicólogo Robert James Richard Blair, apresentados em seu trabalho Aplicando uma Perspectiva da Neurociência Cognitiva ao Transtorno da Psicopatia, publicado em 2005, afirmam que indivíduos com traços psicopáticos apresentam respostas reduzidas em áreas cerebrais associadas ao processamento do medo e da empatia. Além disso, pesquisas conduzidas pelo psicólogo Delroy L. Paulhus e colaboradores (Buckels, Jones e Paulhus), em 2013, sobre confirmação comportamental do sadismo cotidiano, demonstram que alguns indivíduos relatam prazer subjetivo ao infligir sofrimento a outros. Em um ambiente de guerra — no qual a violência é institucionalmente autorizada — essas predisposições encontram menor contenção normativa e maior oportunidade de expressão.
A guerra oferece estímulos intensos de poder, dominação e controle. Decisões podem implicar vida e morte, criando um contexto em que a instrumentalização do outro é legitimada pelo Estado. A teoria do “desengajamento moral” (1999), do psicólogo canadense Albert Bandura (1925-2021), explica como indivíduos podem suspender temporariamente padrões éticos por meio da justificação ideológica, da difusão de responsabilidade e da desumanização da vítima. Para sujeitos com traços psicopáticos, esse processo é ainda mais facilitado, pois a barreira empática já é estruturalmente reduzida.
Albert Bandura, influente psicólogo canadense-americano da área da psicologia social ▪️ Fonte: comunidadeculturaearte.com/
Entretanto, é fundamental distinguir entre predisposição psicopática e comportamento militar ordinário. O pesquisador Brett T. Litz, em seu estudo Lesão Moral e Reparação Moral em Veteranos de Guerra, publicado em 2009, defende que a maioria dos combatentes não apresenta psicopatia clínica e frequentemente sofre intensamente com as consequências psíquicas da guerra, incluindo transtorno de estresse pós-traumático e lesão moral. Isso indica que a guerra, embora possa funcionar como palco para personalidades antissociais, também impõe elevado custo psicológico àqueles que mantêm capacidade empática.
Paul Babiak e Robert D. Hare ▪️ Fonte: Editora Universo dos Livros
No ambiente político, estudos como os de Paul Babiak e Robert Hare, em Cobras de Terno: Quando Psicopatas Vão Trabalhar, publicado em 2006, apontam que traços psicopáticos podem aparecer em posições de liderança, especialmente em ambientes competitivos e hierárquicos. A combinação de carisma superficial, ousadia e ausência de remorso pode favorecer a ascensão ao poder. Todavia, guerras não podem ser reduzidas a traços individuais de personalidade. Elas resultam de múltiplos fatores estruturais — econômicos, ideológicos, territoriais e históricos — que transcendem explicações psicologizantes simplificadoras.
A cultura contemporânea frequentemente romantiza líderes perversos, associando ausência de medo e domínio absoluto a força e competência. Esse fascínio pode estar vinculado ao imaginário do poder irrestrito, frequentemente confundido com liderança eficaz. Contudo, pesquisas indicam que a convivência prolongada com indivíduos psicopáticos tende a gerar ambientes de instabilidade social e graves prejuízos institucionais.
Assim, a hipótese de que a guerra possa representar um ambiente de prazer para indivíduos com altos traços de psicopatia deve ser compreendida como uma análise de predisposições individuais em interação com contextos institucionais que legitimam a violência e a morte. Essa perspectiva amplia a compreensão do fenômeno, sem reduzir a complexidade estrutural e histórica dos conflitos armados a uma única variável psicológica.