O poeta debruçado sobre o vasto campo branco da página branca. Seu olhar melancólico, sua mão calejada, seu coração cheio de ternura, ...

Revoada de nuvens

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O poeta debruçado sobre o vasto campo branco da página branca. Seu olhar melancólico, sua mão calejada, seu coração cheio de ternura, seu ser inteiro – se debruça, diante do mistério criativo. Desenha, como quem colhe; escreve, como quem sonha – e vê a cortina de nuvens da página abrir-se aos raios luminosos da tinta a escrever no papel. Não são palavras, são peixes no mar; não são verbos e adjetivos, são formas, ideias, sentimentos – abrindo veredas no vento. Floresce o sol na manhã. No jardim amanhecem as plantas. O instante criativo se revela, inefável instante de nascimento, onde o inaudito se mostra. Luz, muita luz, o delírio da luminosidade na folha branca.
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A nau balança folha boiando as ondas De esgueira, o poeta olha, funda olheira Brilha rútila estrela, o sol à âncora doura Na nevoenta nuvem cortada de asas Passa, rápida, a revoada – folhas e pássaros, Gritos e uivos, das ondas e dos homens Partilhando a dura lida A de ser bruma, névoa, espuma, vida A esbroar-se nas pedras...
A dura mão, calosa, cascada Que esbroa a terra com a enxada, Que abre caminho à dura forma Dando-a com zelo e norma Sua fértil plantação. A dura mão, calosa, cascada Que luta com intensa marra, Que apalpa o dorso do fruto Dando-o com zelo bruto Seu olhar de pai. A dura mão, calosa, cascada Que rubro sangue escarra, Que vais abrindo caminho Dando-se à dor, ao espinho Seu sangue e sua vida. A dura mão, calosa, cascada Que descobre a nobre escada, Que desdobra o galho alto Dando-se à vida seu gemido lauto Morre, inerte, obscuro.
Dai-me o olho perdido de Camões; Dai-me a mão perdida de Cervantes; Conjugai-as, dois rios caudais, antes Que se espante e findem os verões. E já não haja nada que olhar E já não haja nada que tocar. Dai-me o olho perdido de Camões; Dai-me a mão perdida de Cervantes; Conjugai-as, dois ventos, antes Que se espantem e voem os verões. E já não haja nada que olhar E já não haja nada que tocar.
Morreu, sem jaça, o pedreiro De mãos abertas, olhar pétreo, Em si mesmo, concha de cal Encerrando pós de cimento Uma escultura fúnebre para o cemitério.
Com sais de branca alvura Cristais, espuma, a onda vai... Os bastos velos são tais Nuvens na imensidão azul. Asas de bruma ondeia Ao leve toque do vento Sem rumo sem prumo sem leito.
Guerra! Guerra! Guerra! A voz esbroa a terra. Bombardeia o menino anunciando, Sem espanto, a nova notícia. Aviões, tanques, armadilhas. Lugares: campos de sangue Descampados... desamparados. Guerra! Guerra! Guerra! O idoso de esgueira A criança a dormir E a vida... a vida passa...
Brumosa e doce, vi surgir, Teu vulto de mulher. Olhos de diamante. Sorriso De bem-me-quer. Jovem amada, flor aberta, Cabelos em cascata Desdobrando-se na coberta O corpo a repousar.
O homem viola o dorso da viola E fere, as cordas, com selvageria. Nas ânsias de sua paixão desmedida O homem viola o dorso da viola. O som ferido escorre timbrado Da nau escura do sofrimento, Gritos, urros escravizados Estrelas no triste firmamento. O homem viola o dorso da viola. E fere, as cordas, com selvageria. Nas ânsias de sua paixão suicida O homem viola o dorso da viola. O som ferido escorre timbrado Da nau escura funda tumba de ossos E morre o som, a vida, o alvoroço.
Ave solta no campo azul Vai... livre, leve, lívida... Cantando sua canção êxul Vai de asas abertas, viva... Branca como as ondas Branca como os lírios Branca como as nuvens... Ave solta no campo azul Vai... lívida, longa, langue, lenta Grito de esperança contra a tormenta Das ondas turvalinhas Das ondas bromalinas Das ondas turmalinas... Ave solta no campo azul.
Claramente, mente clara, Clara mente, a mente aclara, E neste labirinto semântico De estranhos encantos Clara mente, a mente clara, Claramente, a mente aclara O som liberto dos sentidos Voa pássaro sem ninho Na claridade sem palavras.

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