O Tempo tem uma fúria de retorno. A gente acredita que o Tempo é uma seta para o infinito. A vida, assim, se simplifica entre o que ...

O desembesto do tempo

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O Tempo tem uma fúria de retorno. A gente acredita que o Tempo é uma seta para o infinito. A vida, assim, se simplifica entre o que passou, o agora e o que virá. Nossa crença limitante é que o passado ficou para trás, como as águas dos rios que acenam para as pontes que nunca mais serão visitadas.

Mas o Tempo tem astúcias de fantasmas. Retorna e bate à nossa porta enquanto estamos distraídos.

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Talvez seja a sensação de enterrar os mortos e seguir a vida neste vazio do luto. Enterramos os mortos, e o Tempo, com sua vassoura de ventania, arrasta a terra e revela o que se julgava terminado. Enterramos os mortos, e o Tempo, com seus enjoos, cospe inundações e escancara o que estava sucumbido.

O Tempo retorna e nos revela os ossos da memória. Anuncia aquilo que não foi desmanchado, corroído. Memórias fósseis. O Tempo reverbera as memórias do enterro, pois nem tudo pode ser enterrado. Algo pode ser enterrado vivo. Memórias que afloram à superfície como desejos recalcados.

O Tempo não é só seta. É também ritornelo. Refrão. Estribilho. Algo que insiste em se repetir. Como o fascismo, que supostamente foi enterrado com o fim da Segunda Guerra Mundial e hoje ressurge entre mensagens, imagens e foices. Como um tempo de retorno do cio das bestas.

O Tempo é um pêndulo dos relógios de parede. Dos carrilhões. Tempo balanceiro para lá, para cá. Movimento que detém a arte da hipnose das memorações. Mas, tal qual um pêndulo,
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há o momento em que se para. O Tempo para no ponto de mutação no qual até as folhas cessam de cair, os suspiros secam e os homens dormem sem guerras. É o tempo da mudança, da reorientação para novos nortes.

O Tempo tenta nos seduzir, nos enganar quando se faz gangorra. Quando em cima, o triunfo da alegria nos torna quase eternos. Quando embaixo, a solidão da melancolia nos lembra da finitude.

Eu escrevo para regurgitar as bolotas do Tempo.

Escrevo na areia, e minhas palavras somem nos ventos do sul. Escrevo na areia, e minhas palavras são tragadas pelas lambidas das ondas. Às vezes uso conchas, na ilusão de que elas fixem cada palavra nas areias. Mas vêm as marés e sua sede de inundação. Levam as conchas para outras praias, embolam as palavras e as misturam de novo com a areia. Às vezes uso seixos, firmes como âncoras das palavras. Mas daí vêm as ressacas, cuspindo seus desejos de violar a terra firme. Minhas palavras de seixos são arremessadas nos asfaltos, nas muretas e nos concretos que insistem em ser mais fortes que o mar.

Como a espiral do Tempo que regressa trazendo um milímetro de diferença, retorno eu às palavras. Insisto nas palavras. Insisto na dispersão dos parágrafos e na liquidez da poesia que, por quase um segundo, segura o Tempo no seu desembesto.

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