Dica de leitura por Cibele Laurentino
Muitas narrativas históricas se limitam a recompor acontecimentos. Outras, mais raras, reconhecem que a História, antes de ser apenas registro, constitui um território de tensões humanas. Carlos Magno – O Preço de uma Coroa se inscreve nesse segundo movimento.
Ao deslocar o olhar para Geberga, figura feminina atravessada por perdas, perseguições e escolhas, Jesu Andrade não apenas reconstrói um período
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A obra se sustenta sobre três eixos que se entrelaçam com consistência: poder, fé e afeto. O primeiro se manifesta na figura de Carlos Magno, cuja presença não é apenas política, mas simbólica. Ele representa a ambição que reorganiza o mundo à força, ainda que à custa de vínculos familiares. O segundo eixo, a fé, encontra no percurso do Padre Miguel uma tensão particularmente interessante: sua recusa em se submeter às decisões institucionais da Igreja tensiona o lugar da espiritualidade frente à hierarquia, evocando um conflito que ultrapassa o contexto medieval e ressoa na contemporaneidade. Já o afeto, talvez o elemento mais delicado da narrativa, irrompe na forma de um amor proibido que não surge como alívio, mas como risco, aprofundando o drama das escolhas.
Se há algo que se destaca na obra, é justamente a sua recusa em oferecer respostas fáceis. Aqui, as escolhas têm peso e, mais do que isso, têm consequência. A coroa, como o próprio título sugere, não é símbolo de glória, mas de custo. E esse custo não se mede apenas em territórios conquistados, mas em perdas íntimas, silenciadas pela grandiosidade da História.
Carlos Magno – O Preço de uma Coroa é, portanto, uma narrativa que ultrapassa o interesse histórico e se afirma como experiência humana. Ao final, o que permanece não é a imponência dos reis, mas a fragilidade das decisões que os sustentam e, sobretudo, daqueles que orbitam ao seu redor. Sobre o autor:
Jesu Andrade, escritor brasileiro contemporâneo conhecido por suas narrativas históricas que exploram a humanização de figuras do passado ▪️ Acervo da autora
Em seu percurso, ele já participou da Pastoral Operária e fez parte das Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica. Como ativista dedicado a combater a fome e a pobreza, foi voluntário em programas como Ação da Cidadania, Fome Zero e na luta por uma educação de qualidade para todos.









