Comecei a perceber isso no meio de uma terça-feira qualquer. Eu estava no ponto de ônibus quando vi uma senhora com um carrinho de fei...

Próprio esquecimento

estrangeiro angustia tristeza
Comecei a perceber isso no meio de uma terça-feira qualquer. Eu estava no ponto de ônibus quando vi uma senhora com um carrinho de feira cheio de sacolas e, de repente, minha garganta apertou. Não era tristeza, tampouco nostalgia. Não era nada que eu soubesse nomear. O sentimento ficou ali por uns segundos,

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igual um espirro que não veio. Depois passou. E eu fiquei pensando no que poderia ser aquilo.

Quanto mais vivo, mais me convenço de que sou um mau conhecedor do meu próprio terreno. Meus sentimentos chegam sem bater, falam uma língua que não aprendi direito e vão embora deixando o queijo e a faca em cima da mesa. Há horas em que a tristeza nos chega vestida de cansaço. Então dizemos que “estamos só estressados” e a angústia fica ali, encostada na parede, esperando ser reconhecida. Existem momentos em que o medo se fantasia de indiferença e a gente diz “não estou nem aí”, quando no fundo estamos tremendo. Somos tradutores terríveis de nós mesmos. O texto é original, é claro, mas a gente insiste numa versão malfeita.

Lembro de uma amiga que perdeu o pai. Na semana seguinte, estava no trabalho, rindo de uma piada. Alguém comentou, em voz baixa: “Olha como ela já superou.” Ela não tinha superado coisa nenhuma. Ela só estava rindo porque o corpo precisava de ar, e rir é um jeito de respirar sem pedir licença. O luto estava ali,
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logo ali, esperando a porta fechar. Só que ninguém vê a portaria.

Com o tempo, descobri que não adianta brigar com esse estrangeiro que mora em mim. Ele vai continuar falando sua língua esquisita, vai continuar deslocando os móveis de lugar, vai continuar chorando por motivos que o mapa emocional não registra. O truque é aprender algumas palavras de cortesia. “Estou sentindo alguma coisa esquisita.” “Acho que isso não é bem o que parece.” “Preciso de um tempo para reconhecer o que está acontecendo.”

Ser estrangeiro de si mesmo não é defeito, é condição humana. A alma não tem RG e o coração não tem GPS. A gente vive nesse vai e vem entre sentir e entender, entre o que explodiu e o que conseguimos traduzir. Hoje mesmo, olhando a janela, senti uma pontada. Não sei se é saudade de alguém, se é medo do amanhã, se é só fome passando disfarçada. Vou deixar quieto. Depois, com sorte, descubro. Afinal, estrangeiro também se vira. Aponta, faz mímica, sorri sem jeito. E no final, acaba encontrando quem fala a sua língua. Mesmo que seja um vizinho, um cachorro, ou a própria tarde acalmando devagar.

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No livro O estrangeiro, de Albert Camus, o personagem Meursault, descrito como um estrangeiro a seus próprios sentimentos, apresenta outra interpretação para o sentimento desconhecido. Ele age friamente em relação à morte de sua mãe e ao convívio com a mulher com a qual passou a se relacionar. Sendo um colono francês, desapegado emocionalmente, sincero ao extremo e alienado das normas sociais, Meursaultfrequentemente usa a frase "tanto faz". Acha belo somente o exterior que o circunda, a luz externa, o brilho fosco do que vê, porém sem afetos. Quase um psicopata, que não tem sentimento com o outro, vive em total falta de empatia, clara e exposta na rua, por vezes se colocando como vítima da sociedade, e sem solução.

Meursault é um homem apático e honesto que mata um árabe após uma série de eventos casuais. Indiferente à moral social, ele é julgado mais pela falta de emoção no funeral de sua mãe do que pelo crime cometido, ilustrando o "absurdo" da existência humana, essa que carrega tantas nuanças, e para a qual necessitamos uma dedicação atenta, a fim de não cairmos na banalidade do próprio esquecimento.

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