Baruque é um livro de memórias, gênero que tanto atrai os homens, na tentativa de registrar um olhar, uma forma individual de perceb...

Um certo modo de ver

Baruque é um livro de memórias, gênero que tanto atrai os homens, na tentativa de registrar um olhar, uma forma individual de perceber o tempo vivido.

Defendo este ponto de vista. Que, em grande parte das memórias, o olhar, “Um certo modo de ver” é o que mais importa, sobrepondo-se às referências biográficas. O homem revelando-se muito mais pelo que pode alcançar em sua seleção perceptiva, em sua visão de mundo, que pelas datas e fatos relacionados à própria existência.

Estátua de Baruch em pedra-sabão, por Aleijadinho, em Congonhas, Minas Gerais, século XVIII ▪️ Foto: Luis Rizo
O título de suas memórias, Osias Gomes toma de empréstimo à tradição bíblica. Mas não chega a construir Baruque como um personagem, porque o narrador, exorbitante em sua onipresença e onisciência, não lhe concede espaço para tal afirmação. Também não se constitui em mero pseudônimo, com o qual buscasse o memorialista ocultar a verdadeira identidade. Até certo ponto, pode parecer que este título é apenas um recurso narrativo para que o autor pudesse evitar a primeira pessoa e o dilaceramento confessional.

No entanto, se nos detivermos um pouco mais, vamos perceber que não é assim. Que este título é um signo indispensável na leitura das memórias do escritor Osias Gomes, porque se inscreve como vigoroso intertexto.

Baruque é um dos profetas do antigo testamento, tendo o livro de suas profecias se integrado às lamentações do profeta Jeremias. Em seu livro, Baruque faz a confissão dos pecados de Israel, pede misericórdia e adverte sobre as causas da ruína nacional. Em síntese, é este o conteúdo de sua Profecia.

Ao eleger este personagem bíblico como título de suas memórias, o escritor Osias Gomes não faz da escolha um mero elemento decorativo, exterior à narrativa. Além de reiterar uma profissão de fé, expondo claramente seu
Ilustração russa de tradição ortodoxa de Baruch ben Neriah ▪️ Acervo: Mosteiro Kirillo-Belozersky
comprometimento ideológico, assume também o tom das lamentações, quando analisa os “ativíssimos fatores de desagregação” de uma sociedade que ele chega a considerar irrecuperável, porque “reincidente em erros suicidas”.

Há um surpreendente contraste entre o objetivo traçado conscientemente pelo autor, ao escrever suas memórias, e o resultado alcançado. O propósito declarado seria “transformar o substrato biográfico numa mensagem de alegria”. E, concretamente, ele parecia dispor de todas as razões que justificavam lançar-se em tal empreendimento.

O cidadão Osias Gomes foi o que se pode chamar de uma vida plenamente vivida. Uma existência vitoriosa.

Menino pobre, mas sem a marca da miséria corrosiva. Uma pobreza digna que lhe permitiu o acesso à educação. Até bacharelar-se em Direito, podendo desfrutar da melhor convivência intelectual em sua época.

Muito jovem, com apenas 15 anos, inicia a carreira jornalística como pegador de provas. Um ano depois, era nomeado repórter-revisor, por influência de Orris Soares. Permaneceu em A União até 1930, sempre em ascensão, até assumir o cargo de diretor e transformar-se,
Osias Gomes (1903-1994), foi diretor do jornal A União, professor e fundador da cadeira de Direito Civil da Faculdade de Direito da UFPB, desembargador e presidente do Tribunal de Justiça do Estado da Paraíba ▪️ Acervo: Jornal A União
conforme declara, no “arauto do pensamento político de João Pessoa”. Encerrando a carreira jornalística, assume o Ministério Público em Santa Rita, nomeado pelo presidente João Pessoa. De forma apaixonada, também exerceu a advocacia por 32 anos.

Em 1948, ocupa a cadeira nº 5 da Academia Paraibana de Letras que tem como Patrono Alcides Bezerra. A convite de José Américo, assume durante o período compreendido entre 1950 e 1956, a Secretaria do Interior. Nas próprias palavras do memorialista “o órgão mais importante da administração. Uma espécie de vice-reinado, pois compreendia a segurança pública, a Polícia Militar e Civil, o controle da publicidade oficial com a imprensa, a rádio e difusão, o Teatro Santa Roza e o regime penitenciário nas suas divisões”.

Em 1951, passa a integrar o corpo docente da Faculdade de Direito da UFPB, como fundador da cadeira de Direito Civil. Em 1965 é escolhido e nomeado Desembargador, assumindo em 1973 a Presidência do Tribunal de Justiça do Estado.

Uma sequência cronológica que comprova o destaque de Osias Gomes na elite política, administrativa, jurídica e intelectual do Estado.

Faculdade de Direito (UFPB, João Pessoa) ▪️ Foto: Marcos Elias de Oliveira Júnior
Era de esperar que fosse outro o tom de suas memórias. No entanto, a ênfase será sempre para “o velho mundo em que todas as coisas são canseiras. Velho mundo cheio de dores”.

Na escola primária, se autodefine como “um objeto desprezível”. A sua imagem de criança ele compara a “um jabuti canhestro e macambúzio”. Ao ingressar no Liceu, considera “um mundo novo e ameaçador” e da vivência secundarista destaca “aquela mortificação”, as “fulgurações da sua dor” e a “refrega inclemente”.

Mesmo na imprensa, onde interpretou o pensamento político desde Camilo de Holanda até João Pessoa, o sentimento que o domina é de “tortura mental e frustração”. Sente-se “o escriba medíocremente pago — uma espécie de ratazana do jornal — de quem tudo se espera, mas de cujo trem de vida ninguém quer saber”.

Sobre a advocacia, não é menos negativa a impressão que deixa transparecer. Fala das causas como um “mal sem remédio” que o “estavam matando lentamente”. Confessa-se vítima do calote dos ricos e induzido pelo amolecimento do coração a trabalhar de graça para indigentes. Chega ao extremo de considerar “patética” sua experiência como Secretário do Interior, “uma espécie de mortificação”. E, enfim, credita à fé cristã o fato de há muito não haver “sucumbido no horror da desesperação”.

São expressões muito fortes, tintas muito negras para uma trajetória profissional de êxito indiscutível.

A correlação com Baruque ainda leva o memorialista a analisar seu tempo com visão profética. Ele não poderia ser mais contemporâneo, quando adverte de que, “o mal se alastra numa escala sem precedentes de modo a temer-se que, em futuro próximo, percam as autoridades o controle da situação e não possam garantir um mínimo de segurança pública. As medidas coativas da polícia e da justiça criminal como que ficaram esvaziadas do conteúdo intimidativo”.

Era o fim da década 70, quando Osias Gomes escrevia suas memórias, antevendo algumas das sérias crises que enfrentamos hoje. Não apenas na segurança pública. A sua visão de futuro também antecipou outros graves problemas dos dias atuais ao sentenciar que "a sociedade deste desolado fim de século desemboca numa era resplandecente do consumo de utilidades. Mas à beira dum abismo debruado pela crise energética e pelo inferno ecológico da poluição”.

É este o Osias Gomes que sobressai no legado das memórias. Um homem cuja trajetória se faz essencialmente de vitórias e conquistas.

Profeta do século XXI, redivivo em seu centenário.

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