Ano de 1962. Do ambiente colegial do Liceu Paraibano, ingressava eu no Curso de Letras da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da...

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Ano de 1962. Do ambiente colegial do Liceu Paraibano, ingressava eu no Curso de Letras da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Paraíba. O Liceu já era um colégio aberto, diferente dos demais, geralmente de orientação religiosa, mas entrar na FAFI, como a chamavam os estudantes, abria uma fonte de expectativas para mim. Estava curiosa de tudo, ainda que a timidez me mantivesse quieta à espreita dos novos momentos.

O pensador francês Guy Debord classificou de “sociedade do espetáculo”, a forma como nos comportamos na atualidade. Vivemos o fenômeno da es...

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O pensador francês Guy Debord classificou de “sociedade do espetáculo”, a forma como nos comportamos na atualidade. Vivemos o fenômeno da espetacularização, o interesse em transformar o rotineiro em show, espetáculo. É a teatralização do cotidiano, somos atores e expectadores dessa encenação permanente apresentada nas nossas vidas.

Há quem não acredite, mas é prazeroso provar dos ventos das amenidades. Não tememos perigos das viagens siderais, não precisamos dos observ...

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Há quem não acredite, mas é prazeroso provar dos ventos das amenidades. Não tememos perigos das viagens siderais, não precisamos dos observatórios de trânsito espacial, dos radares, por sinal sempre deficientes e inseguros nos nossos céus. Com esses ventos, voa-se com segurança, sem riscos nem turbulências.

Nunca mais os pirilampos ou vagalumes infestaram de meigas luzes, pisca-piscas naturais, as nossas noites. Falta a muitos o interesse por e...

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Nunca mais os pirilampos ou vagalumes infestaram de meigas luzes, pisca-piscas naturais, as nossas noites. Falta a muitos o interesse por eles que ainda faíscam em lugares ermos, salpicando suas pobres emanações de humildes claridades.

Uma lenda é sussurrada há quase um século pelas ruas e casas de Paris. Até agora, só as mulheres a conheciam. Contavam para as filhas e net...

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Uma lenda é sussurrada há quase um século pelas ruas e casas de Paris. Até agora, só as mulheres a conheciam. Contavam para as filhas e netas, fazendo-as jurar segredo. Conto-lhe agora, mas não a repasse para os descrentes ou os que duvidam das coisas puras que ainda existem no mundo. A dúvida quebra o encanto e a história se perde. Pois bem, agora que está avisado, sente-se aqui ao meu lado e ouça.

Cecília Por mim passam tantas vozes tantos silêncios tantas canções e essa menina que há em cada coração de leão. Por...

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Cecília


Por mim
passam tantas vozes
tantos silêncios
tantas canções
e essa menina que há
em cada coração de leão.


Por mim
passam noite e dia
passam recuo e ousadia
passam por mim passam
de enlaçadas mãos
o breve gozo, a lenta agonia.


Mas nesse tudo passar
também passo eu por mim
e ao fim de cada passagem
passo a ser mais só, mais mim,
retendo apenas ao fim
imagens      imagens     imagens.




Mariana


No abril de meus dez anos,
minha rua foi devastada
por um horizonte marítimo.

Era Mariana.

A errar, o cosmos começava,
e eu, da gravidade, me soltava.
Até então, meu coração
era um beco sem saída;
agora, a vida se rompia:
irrompia o outro
– vertigem e voragem.

No início da Noite de Natal,
sem avisar,
Mariana abandonou-me a cidade,
despediu-me a infância.

Toda vez que ouço o “Noite-feliz”,
acena-me oblíquo Noel,
e desembrulho por dentro
o pretérito presente...


Performance


Escolheu seu melhor ângulo.
Com pudicícia,
Evitou os parcos versos seus.
Disse Bandeira, Cecília, Drummond
– estrelas da vida inteira e sua Pasárgada.
Pronunciou os melhores silêncios.
Conseguiu. Seduziu.

Uma mulher, uma noite.

Acordou.
Sóbrio, inútil, verdadeiro.
Ressaca de tanta traição a si mesmo.
Certeza de que nenhuma Estela
Seria a Estrela da vida inteira.


Antonio Morais Carvalho é professor e poeta

Agora, quando a Professora Ângela Bezerra de Castro assume a presidência da Academia Paraibana de Letras, recordo o poema de Carlos Drummo...

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Agora, quando a Professora Ângela Bezerra de Castro assume a presidência da Academia Paraibana de Letras, recordo o poema de Carlos Drummond de Andrade que fala de “um certo modo de ver”, para definir o perfil dela como leitora, escritora, poetisa e estudiosa da literatura brasileira.

Uma paisagem nunca foi tão decantada pela arte como “A Ilha dos Mortos". Inspirado na visão de Pontikonisi, o belo conjunto de rochedos...

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Uma paisagem nunca foi tão decantada pela arte como “A Ilha dos Mortos". Inspirado na visão de Pontikonisi, o belo conjunto de rochedos que emerge do Mar Mediterrâneo, perto de Corfu, na Grécia, o pintor suíço Arnold Böcklin criou-lhe 5 versões, ao longo de 6 anos, no final do século 19. As pinturas impressionaram o mundo artístico, entre especialistas, empresários e colecionadores. A última criação foi encomendada em 1886 pelo Museu de Belas Artes de Leipzig, onde ainda se encontra.

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A Ilha dos Mortos também influenciou outros pintores, como Salvador Dalí, notadamente em seu trabalho “Lado Oeste da Ilha dos Mortos”. E o alemão Michael Sowa pintou o que seria a “sexta versão", de Böcklin, uma espécie de paródia. Outros se sucederam e até o final do século XX surgem mais duas versões: A do arquiteto, pintor e cenógrafo Fabrizio Clerici, uma tela de mesmo nome (1974) e outra chamada "Homenagem a Böcklin", em 1977, concebida por seu conterrâneo, Hans Giger.

A Ilha continuou a produzir inspirações. No teatro, a peça "The Ghost Sonata" (August Strindberg ,1907), foi concluída com a singular paisagem. No cinema, o produtor Val Lewton usou-a em cenários dos filmes “I Walked with a Zombie”
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e “Isle of the Dead" (1945). Além de outras produções cinematográficas, a tela esteve presente até na TV, em um dos episódios da série “Pretty Little Liars”, escrita por Sara Shepard.

Na literatura, versões da pintura emergiram em romances como “O Mundo de Cristal” de J. G. Ballard, “Port Matarre”, de Roger Zelazny, e “The Warlord Chronicles”, de Bernard Cornwell.

Foi na Música que A Ilha dos Mortos se glorificou em belos poemas sinfônicos. Primeiramente com o romântico Heinrich Schülz-Beuthen celebrando-a em composição homônima. Em seguida, vieram o romeno-sueco Andreas Hallén, com "Die Toteninsel", em 1898, e Dezso d'Antalffy, músico húngaro, com mais um poema, de mesmo título, em 1907.

Em Rachmaninoff, a criação de Böcklin definitivamente se consagra no mais grandioso poema: A Ilha dos Mortos, Opus 29, de 1909, no qual está transcrita visionária travessia em direção ao monumento no meio do mar.


A morte encontrou nas artes plásticas um paraíso de estética e harmonia. As cinco versões de Böcklin, influenciadas pelas paisagens bordadas de rochas entre túmulos e ciprestes que resplandecem no Mediterrâneo, estão longe de remontar a qualquer ideia de sofrimento. A ilha é de tal formosura que os mistérios de sua primeira versão, em preto-e-branco, encantaram profundamente o músico Rachmaninoff.

Compositores célebres moldaram contornos de extrema beleza no que interpretaram como o fim da vida.
Pensar ser possível haver beleza na morte não parece algo simpático. Mas há no fenômeno inexorável, destino de todos, inevitavelmente imbuído de conotações dramáticas, um lado a ser visto e refletido a exemplo do fabuloso rastro de luz que uma estrela deixa fulgurar até nossos olhos, mesmo depois de morta, há milhões de anos...

Ainda que seja biologicamente natural, a extinção da vida corpórea não é encarada com a alegria e a ternura que emocionam o “vir a mundo” de um novo ser. Muito menos quando se parte de forma “precoce”, uma vez que nem todas filosofias explicam o motivo da vida material ser tão curta até mesmo em recém-nascidos…

No entanto, a inspiração humana não encontrou limites para extravasar seu sonho em torno da morte por meio da arte ao longo da história. Decerto poeta algum conteve-se diante da crisálida ou do casulo que abriga a transformação da lagarta para voar em nova vida.
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Nenhum fenômeno representa tão bem os ciclos de renovação vital da existência como a metamorfose protagonizada por mariposas e borboletas.

Na poesia, na literatura, na música, na pintura, a morte foi recriada e decantada sob múltipla expressividade. Com tristeza, emoção, dramaticidade, júbilo ou desolação houve notável eloquência em torno do ocaso nas obras de muitos artistas e escritores. Embora tenha pintado a morte com devassa e feérica alegoria, a beleza da construção literária no “Eu” de Augusto dos Anjos, por exemplo, emerge do velado sentido de transcendência à matéria inevitavelmente fadada a se decompor. O que nos faz entender que havia mais fé do que desesperança à sombra do tamarindo...

Talvez na música a morte haja obtido o seu mais abrangente espaço. Compositores célebres não pouparam a imaginação e a criatividade para moldar contornos de extrema beleza no que interpretaram como o fim da vida. Ravel colocou tanta poesia na “Pavana para uma infanta defunta” que a obra soa mais como ode do que elegia. Nos réquiens, composições baseadas na liturgia do funeral, Mozart e Fauré imprimiram momentos de rara delicadeza romântica. Verdi, Berlioz e Brahms impuseram perfil mais solene, envolvendo suas missas com grandiloquente beleza. Já Duruflé foi capaz de mesclar os traços antigos do canto gregoriano com romantismo e majestade em seu formoso réquiem.


Esta forma musical destinada a enriquecer o ritual fúnebre evoluiu durante séculos, celebrando a morte com música, prece, escrituras sagradas, na intenção de que através do enlevo melódico as almas fossem merecidamente recebidas no paraíso. Também serviram para homenagear os mortos e datas relativas à sua memória. Até se libertarem da liturgia estruturando-se entre os textos em latim e poemas contra a guerra, como no Réquiem de Britten, que se configura, para alguns, como funeral à insensatez humana.

Em muitas outras composições eruditas a morte teve seu canto de beleza. Foram missas, marchas fúnebres, sinfonias, cantatas, poemas sinfônicos e outras maneiras de representar o sentimento que ecoa com mais profundidade nos âmagos da razão. Na sinfonia “Eroica”, Beethoven deu ao segundo movimento um caráter de exéquias, decerto dirigidas ao fim de sua admiração por Napoleão, com quem tristemente se decepcionou. Chopin inseriu na segunda sonata para piano a marcha fúnebre que se tornou a mais conhecida entre tantas outras peças que nos motivam a ver beleza na morte.

Felizmente, temos com que aliviar os receios diante de uma “viagem” que foi retratada com excelência capaz de nos fazer acreditar que há algo de belo em sua essência.


Germano Romero é arquiteto e bacharel em música

Precisas ter coragem de confiar na tua sabedoria interna, e prestar mais atenção no que ela te diz. Tens um “deus interior” que tenta, sem ...

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Precisas ter coragem de confiar na tua sabedoria interna, e prestar mais atenção no que ela te diz. Tens um “deus interior” que tenta, sem descanso, se comunicar contigo.

Teu dia a dia é turbulento?

Outro dia, vi o anúncio de um lindo prédio. Sim, digo lindo porque estava todo iluminado com fachadas imponentes que impressionavam. As jan...

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Outro dia, vi o anúncio de um lindo prédio. Sim, digo lindo porque estava todo iluminado com fachadas imponentes que impressionavam. As janelas de esquadrias de alumínio galvanizado, com vidros por toda parte, pareciam blocos de gelo.

O jardim era ornamentado com cactos e seixos brancos. Tudo muito clean, minimalista, para dar a sensação de amplitude ao espaço. Os apartamentos mais altos eram os mais caros, porque estavam mais próximos do céu. Lembravam gaiolas aéreas.

No hall de entrada, os elevadores pareciam naves espaciais. Não vou mais contar porque já estou me sentindo mal, só de pensar nas alturas.

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Fui para o nosso pequeno jardim respirar um pouco de ar puro, com cheiro de terra molhada. Conversei com as flores, às quais agradeço todas as manhãs. Tirei as sandálias e, com os pés na grama, abracei o Flamboyant que plantamos juntos, Carlos e eu. A grande árvore estava toda vestida de vermelho, contrastando com as boas-noites brancas que floresciam por entre a grama. Tudo de graça para nos presentear.

Que maravilha da natureza! Não precisei de elevadores para subir tão alto e desfrutar este céu tão lindo e imenso que estava dentro de mim. Olhei para cima e agradeci a Deus.

Nesse exato momento, ouvi a voz de Carlos: "Lauinha, meu anjo, vamos entrar. Lá dentro também temos o nosso paraíso".

Entramos. Carlos, em seu gabinete, começou a digitar aquela crônica. E eu, em nosso quarto, apanhei meu violino e toquei aquela música!


Alaurinda Padilha Romero é violinista

As palavras, como as pessoas, nascem e morrem. A diferença entre elas e nós é que podem ressuscitar. Um dia, quando menos esperamos, depara...

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As palavras, como as pessoas, nascem e morrem. A diferença entre elas e nós é que podem ressuscitar. Um dia, quando menos esperamos, deparamo-nos com um arcaísmo que nos faz voltar à infância (esse “deparamo-nos”, com o pronome enclítico, não seria um?).

Quem ama os livros não se separa deles mesmo nas situações mais inusitadas da vida. Essa certeza eu tive quando comecei a acompanhar uma se...

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Quem ama os livros não se separa deles mesmo nas situações mais inusitadas da vida. Essa certeza eu tive quando comecei a acompanhar uma senhora, moradora de rua, elegante, com roupas de uma outra época e de um outro lugar. Ela parecia um personagem de romance que transitava pelas quadras e super quadras de Brasília. Enigmática, chamava atenção daqueles mais atentos à paisagem e ao que dela fazem parte.

Mesmo morando na rua, nunca estava deselegante. Magra, esbelta, saia longa de cintura alta, larga, com botas e cabelo longo encaracolado, o louro já indo embora para dar lugar ao grisalho, carregava uma maleta de couro pequena parecendo Mary Poppins, (filme da minha infância, um dos clássicos com Julie Andrews)

Nestes tempos em que se viaja tanto e tão facilmente, às vezes alguém pergunta se conheço esta ou aquela cidade. Em muitos casos, sei que o...

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Nestes tempos em que se viaja tanto e tão facilmente, às vezes alguém pergunta se conheço esta ou aquela cidade. Em muitos casos, sei que o que o outro pretende é apenas uma oportunidade de citar a lista completa dos cento e trinta e sete países que afirma ter conhecido até o momento, já que sua meta, se Deus permitir, é conhecer todo o planeta, das ilhas Malvinas ao interior da Finlândia. Bom proveito, é o que eu digo. Aliás, boa viagem.

Mais um episódio da ALCR-TV entra no ar com atualidades do mundo cultural, participação dos autores, leitores e telespectadores do Ambiente...


Mais um episódio da ALCR-TV entra no ar com atualidades do mundo cultural, participação dos autores, leitores e telespectadores do Ambiente de Leitura Carlos Romero.

Nesta pauta, comentários sobre publicações de Gonzaga Rodrigues, Sérgio de Castro Pinto e a poesia de Aline Cardoso. Não deixem de assistir até o final.

Gonçalo Mendes Ramires é o fidalgo da Torre de Santa Ireneia , uma fidalguia que remonta a um período anterior ao reino e, portanto, anteri...

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Gonçalo Mendes Ramires é o fidalgo da Torre de Santa Ireneia, uma fidalguia que remonta a um período anterior ao reino e, portanto, anterior a Portugal. Falido no presente, Gonçalo vive do passado heroico dessa nobreza, que ele tenta reconstruir através de uma novela medieval, cujo único intento é, por intermédio da fama conseguida nas Letras, chegar à política, ser deputado. Eis aí, de modo muito sintético, o assunto desta obra-prima da língua portuguesa, A ilustre casa de Ramires (1900), de Eça de Queirós.

O espinho Um espinho solto no grito apertado beirava o caminho a espreita do dedo O espinho pouco obstáculo doloso gigante diminut...

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O espinho


Um espinho solto
no grito apertado
beirava o caminho
a espreita do dedo

O espinho pouco
obstáculo doloso
gigante diminuto
golpe absoluto

Que espinho torto
a alma em susto
e esfola o corpo
geme como louco

Espinho de desgosto
pontinho vermelho
pintura em dolorido
sinal do encontro

Um espinho indigesto
largado ao terreiro
carne, ponta e pronto
segundos de desespero


O casario


Casario conta o tempo
calculador de relógios
avança por séculos
pelos cantos sem esmero

No mármore frio
repousa em tijolos
argamassa de que foi ido
de um mundo decaído

Desfalece aos ruídos
das ruínas, em desapego
solta reboco a reboco
decompõe a si mesmo

Casario outrora acesso
de bailes, risos, acenos
foi alegre testemunho
agora é rio sem leito


O carnaval


Qual o melhor carnaval?
o da fantasia realizada
com a máscara na cara
e alma desnuda

Era a tribo perfeita
desconhecida cantoria
encontros em alegria
cerveja, suor, folia

Pelas subidas, descidas
Idas e vindas, ladeiras
cenário que se repetia
vida solta em Olinda


Clóvis Roberto é jornalista e cronista