Há alguns anos, tive contato com um livro que me fascinou: "O lugar do escritor", de Eder Chiodetto (ed. Cosac Naify, 2002). Um livro de arte, com fotos lindas, sobre as casas de escritores, suas ideias e, principalmente, sobre o lugar de sua produção literária e o processo da escrita. Nele, Adélia Prado, revela:
As chuvas desertando no céu e deixando a plantação – um milharal de começo tão promissor – definhar pelo campo, mas voltando, intempestivas, para diluir a caieira de tijolos acabada de erguer (aproveitando uns restos de águas de um barreiro próximo), num impulso desesperado e salvacionista do prejuízo anterior –, quando finalmente pronta e apenas nos preparativos da queima para que os tijolos, vendidos de antemão, fossem finalmente entregues.
Em seu 19º episódio, o primeiro do ano de 2021, a Pauta Cultural da ALCR-TV resume textos recentemente publicados no Ambiente de Leitura Carlos Romero.
Paulo Brasil sentado no degrau do templo dedicado a Nossa Senhora do Montserrat, que muitos confundem com Igreja de São Bento. Colado à histórica casa de orações é que moravam os beneditinos. Aqui, chamada Casa do Calvário, depois Central de Cursos da Arquidiocese.
Em fins dos anos 1970, o jornalista e escritor José Castello conseguiu agendar uma entrevista com Vinicius de Moraes, que então estreava um show no Rio de Janeiro. O jornalista não era ainda o consagrado biógrafo do poeta e compositor, condição que só alcançaria mais de uma década depois da citada entrevista, mas naquele encontro frustrante já detectou no entrevistado claros sinais de um tormento existencial que contrastava abertamente com a imagem pública do autor de canções leves como “Garota de Ipanema”.
Estou no sudoeste do Texas, fronteira com o México, às margens do Rio Bravo. Vejo pessoas do outro lado, são imigrantes como eu, e estão ali para cruzarem o rio. Uns vão morrer, outros conseguirão. Eu consegui. Mas conseguir não é só chegar até onde estou, do lado americano.
Para Aristóteles, o poeta tem algo de divino. Este ponto de vista é compartilhado por muitos de seus seguidores numa lista acrescida a cada século desde quando esse pensador plantou sementes de sabedoria, uns quatrocentos anos antes de Cristo, mas recordo o diálogo do filósofo católico francês Maritain com o ateu Jean Cocteau, apontando que a ordem espiritual procede de Deus, estando presente em nós e revela sua constatação: “é a inspiração do poeta, e por isso ele é um homem divino”. E acrescenta: “As palavras, os ritmos, são para ele a matéria com a qual cria um objeto para a alegria do espírito, e nas quais brilham alguns reflexos da grande noite estrelada do ser”.
Quando ela morreu, em junho de 1948, aos cinquenta anos, o paraibano José Lins do Rego escreveu, em um jornal do Rio de Janeiro, que a sua vida “foi toda ela uma servidão voluntária; um desesperado servir a filhos, a marido, a netos, a ideias, e mais do que tudo, ao seu destino de mulher livre, a mais livre e mais corajosa mulher de sua geração, e mesmo, do seu país”.
Com certeza nossos netos e muitos dos nossos filhos não saberão responder a essa pergunta. Para eles é inimaginável entender como poderíamos ficar sem essa comunicação em tempo real que a internet nos proporciona através dos aparelhos celulares. Devem concluir que estávamos num atraso grande, sem a possibilidade de acompanharmos as notícias na hora em que elas aconteciam, passando dias ou meses para receber uma comunicação de quem estava distante, tendo dificuldades em tirar dúvidas já que não havia o “google.
No meu tempo a única forma de se comunicar com outra pessoa com rapidez era através do telefone fixo e mais tarde pelo “orelhão”, telefones públicos colocados ao dispor da população. Para saber o numero do telefone de um amigo era preciso consultar o catálogo que as empresas de telefonia imprimiam a cada ano ou guardá-los na memória.
Imitação é imitação. À entrada do ano que findou, o fatídico 2020, assisti de uma varanda alta, 16º ou 17º andar, suficiente para descortinar a girândola concentrada à beira-mar, desde a estátua do Almirante à ponta do Cabo Branco.
De uma chuva o prelúdio
terminou virando música.
Do céu de Valldemossa,
nas janelas de Maiorca,
no Mar das Baleares,
ou mesmo da Polônia,
em Zelazowa Wola,
onde antes renasceu,
foi colhido o lampejo
para tal composição.
Imaginem que beleza!
Sobrevoando o deserto do Saara, um piloto e narrador da história, sofre uma pane em seu avião, fato que o obriga a fazer um pouso forçado. Muito cansado ele adormece e acorda com uma presença singela de um principezinho de cabelos dourados que lhe afirma ter vindo do planeta chamado B612.
Já ouvi muitas vezes comentários à guisa desse nome: Jampa. Apelido, cognome, ou meme? Como queiram considerar. Definitivamente, é a cidade de João Pessoa, a que jamais deixará de sê-la, trançando as belezas que transbordam o matiz de suas águas, os seus mares, o seu verde e o seu barroco vetusto e belo.
Em tempos pandêmicos, mais do que nunca, nos é escassa e imprescindível a existência de referenciais. Flui, nos países da América Latina, subterraneamente, uma riqueza incomensurável de Arte e fazeres que a contemporaneidade pós-moderna, tenta, a grande custo, liquefazer: ao achatar toda e qualquer forma de criação humana, procurando igualá-la indistintamente. Em música é urgente que se brade em alto e bom som: nem toda música é Arte! E isso precisa ser esclarecido, sobretudo nos ambientes acadêmicos, pois é lá, seja por fins de estudos, seja por interesses seculares de alimento do mal gosto,
“Um homem médico é, pois, igual em valor, a muitos outros,
para retirar dardos e aplicar fármacos calmantes.”
(Idomeneu a Nestor, em plena batalha entre gregos e troianos. Ilíada, Canto XI, versos 514-5)
As palavras medicina e mezinha têm a mesma raiz etimológica. A primeira forma é erudita, proveniente de medicina, medicīnae, cuja origem, no latim, está ligada ao verbo depoente medeor, por sua vez, originário do verbo médio grego μέδομαι (médomai), ambos com o sentido de cuidar e tratar, alongando o significado em grego para também proteger. A segunda forma, mezinha, é uma corruptela da primeira, sendo, hoje, um arcaísmo, com sua datação em textos remontando ao século XIII, mas ainda muito empregada nas regiões mais distantes do mundo urbano. Registra-se, ainda, a forma meizinha, produto de uma ditongação natural, para a oralidade. O importante a guardar, independente da forma, é que, em princípio, o médico e a medicina encontram-se na esfera do cuidado, do tratamento e da proteção.