Gilberto Freyre é realmente um assunto inesgotável, volto a dizer. Ele sempre está nos surpreendendo com novas facetas, novos ângulos, pelos quais estamos continuamente a colocar mais uma pedrinha no imenso painel de sua múltipla figura, sempre incompleto, do jeito que ele queria que fossem os seus livros, as suas teses, a sua “persona”, enfim.
A manhã do domingo subitamente ensolarado acabara de raiar, envolta no gostoso clima invernal renovado pelas chuvas, quando até os afazeres mais banais se sublimam na magia do momento presente. E eis que percebemos ele chegar, indo direto para um recanto na parede de tijolo. Trazia nos braços uma trouxinha de argila úmida, com a qual começou a modelar um pequeno círculo. Logo vimos que era o alicerce de uma nova casinha.
Debruçando-me, e sendo genuflexo, rogando a mesma a benevolência da minha ousadia ao desejar seguir os inimitáveis passos de sua proficiência literária, alcei como um colibri indo ao seu encontro num voo curto e célere na sua bela caminhada até o Lyceu Paraibano. Como um colibri alvoroçado fiz de cada uma de suas frases a coleta de néctar inspirador. Colhi-os e, impetuosamente, muito longe de seu estilo escorreito e amoroso, acompanhei-a nos seus passos e olhares sobre o nosso Lyceu. E como Ângela deixou “as portas abertas”, sem querer sombreá-la, como um infante espião, segui-a vendo “presenças, vozes, risos, emoções” da alma e do coração daquele altar do saber.
Se eu fosse o roteirista, Mav morreria no final e teria o segredo revelado ao seu afilhado contado por sua ex-namorada. Mas não, meu único “spoiler” é que o filme é de tirar o fôlego e trilha idem (mas não espere tocar "Take My Breath Way" , canção icônica do Top Gun original) Top Gun Maverick é uma ode aos sentimentos nobres.
A partir de dezembro de 1968, com a edição do Ato Institucional nº 5, o famigerado AI-5, o governo militar passou a exercer, de forma mais acentuada, a censura às manifestações culturais do país. Jornais, revistas, livros, espetáculos, filmes e outras produções da cultura ficaram submetidos a uma censura prévia do governo federal. A música popular, por sua grande penetração nos diversos segmentos da população, não poderia deixar de fazer parte das principais atenções dos censores.
Não pertenceu à biblioteca dos reis e dos aristocratas, não ele. Jamais teve rica encadernação, letras douradas, nome na lista dos experts. Mas na minha estante humilde, de madeira sólida e aparência sóbria, ele reinou. Meu livro de carne e osso, meu exemplo de páginas nobres, no qual os conselhos brilhavam em letras firmes, parágrafos de risos longos e generosidade de ideias.
A ostensiva presença do livro, mesmo exposto pelo dorso, de costas para os que estão na sala, sempre nos tenta a pôr as mãos nele. Falo por mim e pelos que ainda restam sem completa e absoluta dependência do livro virtual.
Vejo uma pequena estante a um canto da recepção, numa das clínicas, e começo a reconhecer, de alguma distância, o dorso delgado e já meio desbotado de um livro familiar. Sem ter a quem pedir licença, e também sem ser notado – todos estavam na Internet e a recepcionista no computador — fui lá e, num fechar de olhos, me vi em 1978, numa tarde friorenta, subindo a pé uma ladeira de Santos, São Paulo, ao lado de Carlos Roberto de Oliveira, no encalço da autorização
Ontem, 10 de junho, foi o aniversário da morte do poeta Luís Vaz de Camões e também o Dia Nacional de Portugal. Ao que parece, a dupla efeméride passou em brancas nuvens entre nós, evidenciando-se cada vez mais o esquecimento de uns e o pouco caso de outros em relação ao poeta lusitano, nossa maior expressão literária e considerado o iniciador da língua portuguesa moderna, com o épico Os Lusíadas, a partir do qual podemos traçar o percurso dos primórdios de Portugal até a época de Camões.
DOS GATOS
Gosto de gatos
porque eles
se posicionam,
têm opinião.
São exigentes,
verdadeiros
e misteriosos,
num mesmo
diapasão.
Sua astúcia
e independência
contrastam
com preguiça
e doce carência.
Como é que podem
ser tão diversos, assim?
Num dia, dormem
ao pé de nossa cama.
Em outro, somem
do mapa, enfim.
Querem carinho
e atenção redobrada,
mas só quando
estão a fim.
Não gostam de você
incondicionalmente.
É preciso que se sintam
como presença desejada.
Uma coisa é certa:
quando você está triste,
doente ou desanimada,
são eles que lhe acolhem,
em troca de nada.
OS OLHOS DO URSO
No zoológico, a prisão,
animais confinados,
cujo destino é entreter
as pessoas que passam.
Triste sina!
Urubus, harpias,
cobras e jacarés.
E vamos passando,
admirando,
como se eles fossem
- e são – peças
de um museu.
Os pelicanos alçam
tímidos voos,
de lá para cá,
de cá para lá.
Os macacos,
esses sabem de nós,
e se exibem
como quem diz:
“Querem espetáculo?
Tomem espetáculo!”
E correm, de um lado
para outro.
Hipopótamos, camelos,
leões, tigres e um urso.
O urso olha
nos meus olhos,
como se dissesse:
“Tem nada não...
No futuro,
quando destruírem
o que lhes mantém,
serão vocês
a estarem aqui,
nestas gaiolas-vitrine,
a serem admirados,
com tédio ou desdém,
por seres outros...
TURNOS
O canto
dos pássaros
desperta
a manhã
que, rendida
pela noite,
dormia
profundo.
E eu,
cúmplice,
insone,
finjo não ver
essa troca
de turno
que me nega
o sono
e me mantém
acordada.
MEDO
A barata
alça voo
por sobre
minha
cabeça.
Feito louca,
grito e corro
para me
esconder.
E ela nem
sabe
do poder
que exerce
sobre mim.
E eu nem
desconfio
do porquê
de ser
assim.
OLHAR
Quando o gato
me olha fixamente
com seus grandes
olhos azuis,
sinto, da parte dele,
afeto, estima
e consideração.
NOTA Poemas incluídos no capítulo ANIMAL, do livro "Entre Parênteses - Poemas" (Ed. Da Autora), de Marineuma de Oliveira, com participação, em áudio, do grupo Poética Evocare. Clique na imagem ao lado para acessar episódios completos do podcast homônimo, já publicados em plataformas de streaming (Link)
Tem toda razão o meu querido Martinho Moreira Franco, quando despreza detalhes verdadeiramente insignificantes para enxergar no velho Liceu apenas “as cores da história”.
Não pode ser outro o espírito dos paraibanos, recebendo como presente de fim de ano a bela e simbólica estrutura arquitetônica, completamente restaurada e, ao mesmo tempo, internamente adaptada às exigências da sociedade contemporânea.
O médico indiano e escritor Deepak Chopra narra, em seu livro “A fonte da felicidade duradoura” um fato, deveras impressionante: uma mulher de 60 anos tinha a aparência de uma jovem de trinta anos. Era saudável, alegre e rodeada de amigos. E quando lhe perguntaram o segredo de tanta jovialidade, a resposta foi: "talvez seja pelo fato de eu ter esquecido a minha idade”. Decerto, ela não queria festa de aniversário, com aquele bolo na mesa, as velinhas acesas e as pessoas batendo palmas e desejando ao aniversariante muitos anos de vida, mesmo que ele já tenha 95 anos de idade...
E. Grutzner ▪ 1846—1925
O danado é que em vários setores da sociedade, o idoso é muito discriminado. A própria sociedade discrimina o idoso. Por que aposentar um funcionário eficiente quando este completa 70 anos?... Então, um homem de noventa anos é incapaz de julgar? E que dizer do genial arquiteto Niemeyer que atravessou a faixa dos cem anos e continuou trabalhando no seu escritório? Com que idade o grande Churchill barrou as divisões de Hitler?
— Ai, Enfermeira, com os mil e seiscentos diabos...
— Calma, meu senhor. Foram arranhões profundos. Temos que remover esses cascões. Há inflamação debaixo deles. Está tudo purulento. Você devia ter cuidado disso logo depois do ataque.
— Ai, minha Nossa Senhora... Cuidei, moça. Lavei com vinagre.
Ao longo do tempo os mais importantes cientistas do mundo visitaram o Brasil e deixaram registradas suas impressões. Vale a pena revisitar essas opiniões.
Começo com o Doutor George Gamow, físico russo que esteve no Brasil para dar algumas palestras em 1939 na sua área de especialização. Só que o russo descobriu os encantos do cassino da Urca e varava madrugadas nas mesas de roleta. Ninguém entendia como o professor conseguia sair do cassino ao amanhecer e logo depois fazer as tais palestras. Apesar da boemia o homem era fera.
Aumentou meu deserto. É como terminei e-mail de quatro linhas a Evandro Nóbrega, que me dá a notícia da morte de Valderi Claudino, no último dia 27. Participamos juntos, eu e Evandro, da edição da autobiografia desse médico vitorioso em sua vocação e em seus empreendimentos na área de saúde no interior de Minas, onde creio que se formou.
Fez seu nome ou sua obra noutro meio, entre mineiros da saga de Guimarães Rosa, e aposentando-se, recolheu-se à Paraíba. Morando em Tambauzinho, meu vizinho de bairro, continuou o mesmo Valderi que deixei na Casa do Estudante em 1953: recolhido em seu quarto, fora da algazarra que era a nossa vida.
Tudo que nos concedia era um riso contido de adulto ao cruzar com nossas rodas de conversa. Tinha vinte anos e um rosto de homem feito. Não sei de nós todos quem o conhecia mais de perto, quem sabia de suas notas escolares, de seu desempenho, de suas inclinações. Viesse de onde viesse, recolhia-se. Não comentava a prova, o filme e nem era visto nos footings a que não podiam faltar, na praça João Pessoa ou na Lagoa, os de sua idade.
Tudo o que se escreva sobre Pushkin será insuficiente para atestar a sua genialidade, o seu incomensurável talento de escritor e a paixão que provoca até hoje no povo russo e nos amantes de sua poesia e sua prosa. Ele é um símbolo, um marco da literatura mundial, conhecido como o Sol da poesia russa. No entanto, a dificuldade de traduzir sua obra com o mesmo ritmo e o mesmo espírito, o que implicaria em conhecer profundamente a cultura e a mitologia russas, contribuiu para que Pushkin fosse pouco conhecido fora da Rússia e entre nós, no Brasil.