Cem anos de solidão é um romance complexo, dando oportunidade a inúmeras possibilidades de leitura. Não há nenhuma novidade nessa afirmação. Embora seja um dos maiores símbolos do Realismo mágico latino-americano, dele se desgarrou, indo muito além de qualquer classificação que tenha tido a pretensão de prendê-lo. Tentar enquadrá-lo em um movimento estético qualquer é diminuir a magia, sem trocadilhos,
Acordo às 3 da matina e desço para encontrar os amigos da caminhada que se concentram na esquina da Drogasil com a padaria Bonfim. Alguns deles chegam muito mais cedo. Manoel e Hugo costumam estar lá antes das 2 da manhã. Como a farmácia funciona 24 horas é comum acompanhar o movimento dosdesesperados que chegam em regime de
Celyn Kang
urgência à procura de medicamentos. Dói no coração quando descem de seus automóveis carregando crianças nos braços. Memórias de sofrimentos pelos quais passamos outrora.
Encostei os pés na água do mar. Deixei que a espuma encontrasse os meus dedos, entrasse por entre eles, subisse até os calcanhares, acariciasse as raízes do corpo. A leve onda foi e regressou num passeio sobre a terra onde repousa a imensidão do oceano. Os olhos fechados estavam ali e, ao mesmo tempo, corriam alhures. Eu sentia a paz molhar a vida.
Como eu gostava das conversas daqueles três. Pareciam dominar à perfeição temas que dissessem respeito à ciência, à tecnologia, ou à história. Os assuntos mudavam continuamente e, de uma hora para outra, podiam pular dos olhos azuis da dona Amélia, com todo respeito, à energia escura, essa coisa da qual são feitos 95% do universo observável com os recursos tecnológicos modernos. Sim, modernos mesmo, posto que me refiro aos hoje existentes e não apenas aos do tempo dos meus 14 anos, quando eu me fazia ouvinte cativo daquele trio.
POEMAS DO LIVRO “Manual de Estilhaçar Vidraças” (Editora COUSA – 2022)
MANUAL PARA LOUVAR A POESIA
Abençoado o terror dos dedos
entregues à poesia madrugadora.
Abençoado o menestrel
das insurgências absurdas,
das desculpas, do torvelinho,
que late solto pelas cordilheiras.
Abençoado o nascido sonolento,
um passo atrás das urgências.
Abençoado o talo da imensidão
e o machado do corte,
o soletrar dos vícios
na paz dos escombros.
Quando a alegria chega
Faz cara de tempo bom
Aurora boreal
Caleidoscópio
Quando a alegria chega
Cristais de luz
Amanhecer
A alma se dilata
A generosidade
Habita
Não é à toa que chamamos a nossa Era de moderna. A evolução dos tempos pode ser notada em todas as áreas; na medicina, na informática, na astronomia e, principalmente, nas áreas tecnológicas. Este avanço pode ser percebido nas menores coisas. As pessoas que vivem o Século XXI, sem sombra de dúvida, se surpreendem a todo o momento. O fato que vou contar agora se enquadra num destes momentos de surpresa.
De repente, o mundo virtual se tornou excessivamente ruidoso. Ou talvez eu tenha envelhecido demais no último ano.
Mas o certo mesmo é que meus dias andam cada vez mais curtos, assim como a minha paciência com o turbilhão incessante de informações que, em sua maioria, pouco me acrescentam.
Respeito. Essa palavra que muitos desejam, mas poucos a praticam. Esse vocábulo utilizado até por um banco. E precisamos mesmo, de todos os lados. Não como uma mera admiração, que é efêmera, frágil. Tem que ser sólido. E, antes que digam hoje há muito mimimi, é preciso compreender que as pessoas estão é cansadas.
Atravesso a Rua Maroquinha Ramos a passos lentos, recordando um tempo que não foi meu, mas que carrego como se fosse. Com as mesmas ansiedades e as paixões do adolescente vindo do interior, ainda andando como camponês, a camisa aberta ao peito, alpercata de couro nos pés e nas mãos os sinais do massapê.
"Os livros têm um poder extraordinário. Mas tenha cuidado. É o livro que detém o poder, não você"
(Sosuke Natsukawa ▪️ O gato que amava livros)
O gato está associado à literatura, ao meditar, ao filosofar, e vários romancistas, poetas, pintores, artistas de um modo geral são admiradores desses felinos, eles aparecem em fotos com seus donos, em telas de pintores famosos. É bem conhecido o quadro de Matisse – O Gato com peixes vermelhos - e Marc Chagall pintou a belíssima tela Paris através da janela em que um gato, com cara de um ser humano, está situado em primeiro plano com o olhar voltado para a Torre Eiffel. Quem não se recorda das pinturas de gatos do brasileiro Aldemir Martins? São várias telas em cores bem tropicais. É frequente também a presença de gatos em romances e poemas.
As expectativas não são nada boas para o ano que se inicia, mas lhe convido a ser otimista. Sei que não é fácil diante de tantas ameaças, como a do aquecimento global, mas até disso é possível tirar algum proveito. O excesso de calor pode, por exemplo, fazê-lo dormir menos e colocar em dia as tarefas atrasadas, ou ir mais à praia.
No início do século XVI, o maior poeta italiano, Ludovico Ariosto, imaginou que somente na Lua se encontrava tudo o que se perdia na Terra, como as lágrimas e os suspiros dos amantes, o tempo desperdiçado no jogo, os projetos inúteis e os anseios insatisfeitos. Ele pensava assim devido à impossibilidade da viagem à lua naquela época, e a associava aos atos
Heinz Kohut (1913–1981), psicanalista austríaco, analisou como défices emocionais no ambiente empático durante a infância podem resultar em comportamentos disfuncionais na vida adulta. A atitude disfuncional refere-se a padrões de ações irregulares, pensamentos ou reações que prejudicam a saúde mental e física tanto do indivíduo quanto o bem-estar das pessoas em seu relacionamento social. Esse tipo de comportamento caracteriza-se, frequentemente, pela dificuldade em gerenciar as próprias emoções ou lidar com seus desafios de maneira produtiva e respeitosa.
"As pessoas não querem ouvir sua opinião, querem ouvir a opinião delas saindo da sua boca". Ouvi essa frase de uma psicóloga que me levou a refletir sobre o tema: dar e ouvir opinião.
Fechando o ano de 2024, a Editora Record deu a público A Intensa Palavra, coletânea de crônicas de Carlos Drummond de Andrade, publicadas no jornal carioca Correio da Manhã, no período de 1954 a 1969. A compilação foi organizada pelo escritor paranaense Luís Henrique Pellanda, que também assina o prefácio. Não preciso dizer que, como tudo do itabirano,
Meu querido amigo Germano Romero citou uma curiosa estrofe em suas redes sociais por ocasião das festas de fim de ano:
"Felicidade é uma canoa no rio
Uma espiga na brasa
Um cobertor p'ro frio
E um amor em casa"
Michael Telitsyn
A citação foi retirada da "Canção da Felicidade", também conhecida no cancioneiro popular português, e que já foi regravada por diversos intérpretes. Em sua versão supostamente "original", os versos aparecem assim:
"Uma canoa no rio,
Uma sardinha na brasa,
Um cobertor para o frio,
E um amor dentro de casa"
Germano teve a sensibilidade de trocar o substantivo feminino singular "sardinha" por "espiga", numa contextualização cultural muito interessante, pois, no Brasil, o milho substituiu a sardinha nas fogueiras de São João devido à sua maior abundância e praticidade, começando pelo interior, onde a cultura agrícola predomina. O milho,
Tanisa.tw
colhido em junho, se adaptou às tradições regionais e se tornou símbolo das celebrações. Como o "São João" no Brasil se disseminou como uma festa de raiz interiorana, a espiga venceu a sardinha até mesmo no litoral.
Outro velho amigo sempre me recitava os mesmos versos, atribuindo-os a um pescador do município de Lucena, que costumava repeti-los. Curiosamente, o grupo de chorinho da vizinha cidade de Cabedelo, costuma tocar a "Canção da Felicidade" , sempre acompanhando a elogiada interpretação da cantora Roseleide Farias.
A canção também pode ser encontrada nas vozes dos cantores de bolero Hélio Portinhal e Orlando Dias, e também de Teixeirinha, mais dedicado a músicas gaúchas.
Há uma versão lusitana, executada por José Afonso, diferente da que circula no Brasil:
Felicidade é uma quimera
Que o homem persegue pela vida fora,
É uma casa pequenina
E uma roseira à porta.
Felicidade é uma sardinha na brasa
E um amor dentro de casa.
Felicidade é uma conversa à janela,
Um sorriso de criança,
É uma coisa tão singela.
Alex George
A autoria dessa adaptação é atribuída aos compositores portugueses José Niza e Luís Oliveira, enquanto a versão brasileira é imputada a Francisco Luiz, que aparece como autor na gravação feita por Hélio Pontinhal.
A canção é mais portuguesa ou mais brasileira? Qual a sua versão "verdadeira"? Quem a compôs primeiro?
Antes de William Shakespeare, a história de "Romeu e Julieta" já fora contada pelo poeta inglês Arthur Brooke em 1562, que, por sua vez, baseou-se no escritor italiano Matteo Bandello, que publicou o drama dos amantes de Verona em 1554, inspirado em antigas lendas e narrativas populares.
Ariano Suassuna Ariano Suassuna Oxente
Ariano Suassuna relatou que se inspirou num mentiroso contumaz, com o qual conviveu em sua infância na cidade de Taperoá, para criar o personagem Chicó. Já em relação a João Grilo, Suassuna faz o resgate de uma figura muito popular nos contos nordestinos, e que se insere numa longa tradição de personagens pícaros portugueses e espanhóis, a exemplo de João Ratão e Lazarillo de Tormes.
O famoso Cordel nordestino "O Romance do Pavão Misterioso" relata o resgate da condessa grega Creuza pelo herói João Evangelista, que a bordo de uma máquina voadora criada pelo inventor português João Sem Medo, retira-a de uma torre. A história se assemelha à de Rapunzel, popularizada pelos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm, a partir do seu livro "Contos de Fadas", publicado em 1812. O autor francês Charles Perrault também apresentou uma versão de "Rapunzel" em 1697, no livro "Histórias ou Contos de Tempos Passados", mas há narrativas ainda mais remotas sobre uma donzela sendo socorrida por um herói.
Uma das partes mais emocionantes e épicas do Ramayana, o grande épico hindu atribuído ao sábio Valmiki, é sobre o resgate da princesa Sita, após ela ser sequestrada
pelo demônio Ravana, o rei de Lanka, o que provocou a longa e árdua jornada de Rama para resgatá-la.
Acredita-se que o Ramayana tenha sido escrito entre os anos 200 a.C. e 200 d.C.
A pergunta sobre "quem é o autor?" desafia a ideia de uma origem fixa. Ao longo de gerações, canções, contos, fábulas e histórias se transformam, enriquecidos e remodelados pelas mãos e pelos corações dos que os recriam.
Não pode haver um único autor para aquilo que toca a todos, pois o povo, em seu poderoso imaginário coletivo, é também criador.
A literatura, como o rio que atravessa os campos de nossa memória cultural, não pode ser contida. As suas margens são fluidas, como o próprio conceito de autoria. Um escritor é, na verdade, um guardião da herança espiritual da humanidade, que preserva a memória para que ela seja reinventada e resignificada pelas novas gerações, que a mantém desse modo dinâmico, recriando-a e não apenas recitando-a, pois só o espírito vivifica.