N ão esteja sempre saindo de si. Nunca deixe a sua vida interior vazia. Quem deu muita ênfase à vida interior não podia ser outro. E sei que...

Não esteja sempre saindo de si. Nunca deixe a sua vida interior vazia. Quem deu muita ênfase à vida interior não podia ser outro. E sei que você já está respondendo: “Sócrates”. Sim, foi o Mestre de Atenas que nos convidou a penetrar no templo sagrado da nossa vida interior. Mas antes do mestre, já existia no Oráculo de Delfos a seguinte inscrição “Nosce Te Ipsvm” - Conhece-te a ti mesmo.

Pobre é aquele que vive mais pra fora do que pra dentro. Que vive mais para a distração do que para a reflexão. E Jesus nos aconselhou fechar-nos num quarto, toda vez que fôssemos orar. Ora, o quarto é a nossa consciência.
Informam que quando a gente morre, o primeiro encontro é com nossa consciência. Ela é quem vai nos julgar. Seremos, então, juízes de nós mesmos. Que momento dramático!

Há muita gente saindo de si mesmo à procura da distração. E há tanta coisa para a gente se distrair... O barulho, a conversa alta, a bebida alcoólica, os amigos, a comida, o celular... Saem de seus apartamentos como quem sai de uma prisão, uma prisão de não sei quantos andares. Há gente que nem gosta de sua própria casa...

Daqui onde estou, avisto um gigantesco edifício de não sei quantos andares. Noto que todas as janelas estão fechadas. Nenhuma pessoa para estender seu olhar para fora. O jeito é entrar no elevador e sair, ou melhor, fugir dali.

Nunca houve em tempo algum tanta fuga de si mesmo. Para isso não faltam o televisor, o aipode, o restaurante, a Internet, a nova tecnologia, as festas populares, enfim, tudo que nos faz esquecer a nós mesmos.

Elevo meu olhar até o edifício à minha frente, e noto que apenas no estreito terraço de um deles há uma palmeira. É alguém com saudade da Natureza que ficou lá embaixo.

E eu quero, antes de pingar o ponto final, lembrar esta conclusão de Frederic Renoir, um de meus mestres: “o que faz o homem feliz é a conscientização do sentido da existência”. Mas para isso é preciso, ao invés de sair de si, encontrar-se consigo mesmo.

À s vezes vem aquela vontade de dormir por muito tempo, como se estivesse morto. E viva o sono, que parece muito com uma suave morte. Um hom...

Às vezes vem aquela vontade de dormir por muito tempo, como se estivesse morto. E viva o sono, que parece muito com uma suave morte. Um homem dormindo é um morto que respira. Já imaginaram um dinâmico empresário, que não tem tempo nem para respirar, de olhos fechados, numa cama?

O sono foi uma amostra grátis que Deus nos deu da morte... E se o dorminhoco é daqueles que ronca? Aí a coisa se complica... Aliás, conta-se que um sargento roncava muito e a mulher já não aguentava mais. Até que uma amiga, que também era casada com militar, perguntou à esposa do roncador: “de que lado seu marido ronca?” E ela respondeu: “pela direita". A outra disse “não há problema, basta você dizer “esquerda volver” e pronto”. Valeu a receita.

O sono é melhor coisa do mundo, sobretudo se for com sonho, que faz a gente acordar alegre. Graças a Deus eu durmo como uma pedra. E tenho sonhos maravilhosos. Viva a sonoterapia.

Voltando ao que disse, eu gostaria mesmo era de ter um longo sono até que acabasse essa Copa que vem por aí. Sim, infelizmente, não estou com nenhum apetite para o grande e emocionante acontecimento esportivo. Pensei ainda em passar um tempo no Amazonas, bem longe de tudo. Mas será que não tem lá algum caboclo de rádio ligado?

Se isso que está acontecendo comigo é velhice, bendita a velhice, que nada mais é do que sinônimo de sabedoria, experiência vivida.

A Copa vem aí. E haja copo, haja bebedeira. Muito cuidado com o trânsito após um jogo. Não faltará gente embriagada, sobretudo se o Brasil ganhar... Não faltarão psicopatas. Psicopata é o sujeito doido por Copa.

Mas por que diabo não estou ansioso pela Copa? Sei lá... Acho que devo ir a um psiquiatra. Esse meu indiferentismo não é normal. É preciso lembrar que o povo precisa se divertir. É na diversão, por conseguinte, na distração que ele esquece muita coisa ruim da política...

E sabe o que eu gostaria de assistir, agora? Uma Copa de Xadrez, o esporte da inteligência, da reflexão, e que exige silêncio. O danado é que nunca tive jeito para xadrez. Eis uma de minhas frustrações.
Mas o bom mesmo é um sono tranquilo e gostoso. Viva a sonoterapia!

“O homem é Pedro”. Sim, este foi o “slogan” da vibrante campanha eleitoral que levou Pedro Gondim ao Palácio da Redenção, por conseguinte a...

“O homem é Pedro”. Sim, este foi o “slogan” da vibrante campanha eleitoral que levou Pedro Gondim ao Palácio da Redenção, por conseguinte ao governo do nosso Estado. Nenhuma campanha antes excedeu esta, em entusiasmo, em exaltação popular, em loucura mesmo. E vinha a indagação: “Está com Pedro ou está com medo?” A resposta tinha de ser: “Não, estou com Pedro”.

Moço, bonito, inteligente, de uma irradiante simpatia, a verdade é que o meu conterrâneo de Alagoa Nova, Pedro Gondim, honrou o mandato que o povo lhe confiou. Se teve defeitos, quem não os tem?

A verdade é que ele foi eleito. O homem era Pedro, mesmo. Pedro que lembra pedra. Não sou político. Não participei de sua campanha. Fiquei no meu canto. Mas não é que o meu amigo e conterrâneo achou de me convocar para o seu governo... Fui convidado pelas mãos do elegante Chefe da Casa Civil Edigardo Soares, para assumir a subchefia daquele importante cargo.
Não tive como recusar tão importante comenda. Conquanto, essencialmente, apolítico, eis-me num setor, visceralmente político. Comoveu-me aquela honrosa distinção, que implicava numa grande responsabilidade.

Tudo ia muito bem quando o governador achou de me convidar para a primeira incumbência de seu governo: participar da mesa de julgamento de um concurso de misses em Campina Grande. Fomos eu e minha primeira esposa Carmen. Missão difícil, porquanto as garotas eram lindas...

Mas depois dessa primeira incumbência, no novo governo, participei com muito entusiasmo em todos os empreendimentos culturais, lembrando que o dinâmico governador foi um grande incentivador das artes. O centenário do ex-presidente Epitácio Pessoa foi brilhantemente comemorado, resultando na inauguração da Cripta em sua homenagem existente no nosso Tribunal de Justiça. Não esquecer que foi o governador Pedro Gondim quem proporcionou a filmagem de “Menino de Engenho”, do nosso José Lins do Rego, que redundou num grande sucesso.

Não esquecer também que o Plano de Extensão Cultural de seu governo teve a melhor repercussão. Foi com muito orgulho, o bom orgulho, que dei o meu suor aos empreendimentos culturais do Governo, destacando a colaboração de Itapuan Botto, chefe do Cerimonial da Casa Civil, hoje imortal da nossa Academia de Letras, elegante, educado, um verdadeiro diplomata.

Pedro Gondim, poucos sabem, era poeta. Muitos de seus poemas eram voltados para justiça social. Ele era um homem boníssimo que não sabia odiar. Para o seu trabalho de chefe de governo contou com a ajuda de sua esposa Sílvia, que ele chamava, carinhosamente, Silvinha. Um bom e carinhoso pai de família.

Pedro Gondim... A primeira vez que eu o ouvi foi numa palestra que ele pronunciava na Associação Comercial, lá no Varadouro. Elegante, simpático, fluente, sua palavra muito me impressionou. Depois o vi como deputado. Um homem sem abordagem difícil. Simples, otimista, ativo. Não me esqueço de sua presença no sepultamento do corpo de meu pai, lá no Cemitério da Boa Sentença... Quando terminei de falar, dizendo “até logo meu pai”, ele veio ao meu encontro, com lágrimas nos olhos, dizendo: “que comovente e cheia de fé a sua despedida”...

U m padre entra num banco e intromete-se numa fila. Mas ele não usa as pernas, pois está sentado numa cadeira de rodas. Mais ainda: quem emp...

Um padre entra num banco e intromete-se numa fila. Mas ele não usa as pernas, pois está sentado numa cadeira de rodas. Mais ainda: quem empurra o veículo é um empregado de seu instituto. O padre é gordo, a batina um pouco surrada, e transmite uma paz com sua presença humilde.

Por que esse sacerdote entrou num estabelecimento bancário? Para depositar dinheiro ou retirá-lo? Nada disso. Ele está ali para pedir esmola. Esmola não para ele, mas para os outros, isto é, para os seus pobres, que são muitos. Mais ainda: ele, como já disse, mantém um instituto, onde os jovens daquele tempo iam aprender datilografia. Datilografia que hoje se aplica no computador.

Mas voltemos ao padre. Sabe como ele pede esmola? Cutucando as pessoas pelas costas com uma varinha. A pessoa se vira, meio assustada e ele pede: “um dinheirinho para os meus pobres". Difícil negar o seu pedido, pedido tão humilde e que chega a comover. Ora, tanta gente preocupada com os seus negócios, e aquele, esquecido de si mesmo, rogando ao auxilio para os outros, para os mais carentes.

Seu nome, tenho certeza que o leitor já sacou, se for de certa idade. Estou aludindo ao padre Zé Coutinho, o extraordinário Padre Zé, que levou toda existência a serviço dos mais desfavorecidos da vida. Um homem que se fez mendigo para ajudar aos outros. Conheci esse divino sacerdote. Ele foi colega do meu pai, quando ambos eram seminaristas. Meu pai o admirava muito. Quase sempre, quando se encontravam, o padre Zé Coutinho ia logo perguntando: ”Como vai o teu Espiritismo, Zé?" ”Sim, ambos se conheceram no Seminário, ali no Convento São Francisco.

Padre Zé Coutinho só tinha uma religião: a religião do amor. E Jesus identificou seus discípulos por muito se amarem.
Eu gostava dele e ele de mim. Lia e comentava minhas crônicas no jornal A União. Mantinha um programa na Rádio Tabajara e escrevia neste jornal.

Nunca soube enriquecer. Tirou muito dinheiro dos ricos para dar aos menos favorecidos. Costumava chamar a gente de “prezado”.
No cemitério da Boa Sentença tem uma escultura em sua homenagem. Gostaria que erguessem uma estátua ou um busto, na chamada Praça do Bispo, onde funciona ou funcionava o seu instituto. Padre Zé Coutinho! Um autêntico missionário. Não há coisa mais difícil no mundo de que “amar aos outros como a nós mesmos”. Uma receita nada fácil de ser cumprida. Mas o padre Zé cumpriu-a. Como cumpriram Chico Xavier, Maria Tereza de Calcutá, Irmã Dulce, Albert Shweitzer, Gandhi, Francisco de Assis...

No exercício da caridade usou os pés até quanto pôde. Estou ouvindo, agora mesmo, a sua voz: “Um dinheirinho para os pobres, prezado”. Era difícil ficar indiferente a essa rogativa... E eu fico a imaginar o Padre Zé voltando para casa levando a paz dentro de si. A paz que vem da consciência do dever cumprido.

O avião ia sereno, acima das nuvens, a caminho de Lisboa. Mas o avião, tinha vez, que parecia dormir. Dormir ou sonhar. E eu me vendo na p...

O avião ia sereno, acima das nuvens, a caminho de Lisboa. Mas o avião, tinha vez, que parecia dormir. Dormir ou sonhar. E eu me vendo na pessoa do comandante, lá na cabine. Que responsabilidade a desse profissional, na direção da aeronave. E fico pensando: em que estará pensando o comandante?

Agora a aeronave, carregando mais de duzentas pessoas – imagino - começa a tremer. Será de frio ou de medo? Ah, já sei, são as nuvens nas quais ele vai tropeçando.

Da janela avisto um mar de nuvens que me lembram grandes rebanhos. Nuvens branquinhas e serenas. E eu vejo, nessa altura, que não somos nada... Que a nossa vida está por um fio. Ora, ora, e quando é que a nossa vida não está por um fio? Quando é que nossa vida está segura? A qualquer momento...

Deixemos as divagações filosóficas. Façamos como os demais passageiros: uns dormindo, outros lendo e a maioria com o olho pregado na tela do monitor à sua frente. Eu prefiro pensar. Não é, meu mestre Descartes? O teu “penso, logo existo” foi a maior descoberta de todos os tempos.

Estamos vindo de Paris a caminho de Lisboa. E em Lisboa, estou em casa. E eis que a minha boca já se enche d'água: é a lembrança do gostoso e inigualável bacalhau português.

Que silêncio!... O avião está descendo. É o momento da aterrissagem, que o português chama de aterragem. Dizem que este é o momento, tanto quanto a decolagem, é o mais difícil para a aeronave. Muita gente com o coração na mão. E haja tremedeira. Minha neta Raíssa disse que a melhor parte da viagem aérea é a turbulência. Ela adora essas quedas no vácuo.

Os passageiros só fazem respirar. Lisboa já está perto dos nossos pés. E eis que a aeronave já está deslizando no asfalto. Agora é aguardar o momento de retirar as bagagens de mão... Bagagem rima com viagem, viagem com a aterrissagem. Afinal a vida não deixa de ser uma viagem...

E viva a vida!

Postagens mais visitadas