31.8.14
S im, ele vivia na rua. Vivia como se não tivesse casa. É verdade que nasceu numa manjedoura, mas ninguém mora numa manjedoura. Nem mora, ne...
Sim, ele vivia na rua. Vivia como se não tivesse casa. É verdade que nasceu numa manjedoura, mas ninguém mora numa manjedoura. Nem mora, nem nasce. Ele foi uma exceção. Nasceu entre animais, numa espécie de estábulo.
Saía cedo da casa e lá se ia para o trabalho da evangelização. Trabalho que não o remunerava. Ia a pé, de sandálias, debaixo de um calor de matar, no verão, ou de um frio de rachar, no inverno, pois Israel é assim.
Ele ia sempre acompanhado de seus doze apóstolos. Ignoro se iam conversando ou em silêncio. Acho que iam em silêncio, embora, de vez em quando, o Mestre parasse para fazer-lhe a seguinte pergunta, pergunta embaraçosa: “Que buscai?”. Silêncio total. Sim, buscar dinheiro, diversão, mulheres? Ninguém anda à toa. Ele fez tal pergunta para conscientizar ainda mais os apóstolos de sua missão. Pergunta como esta: o que você está fazendo aqui no mundo, de onde veio, e para onde vai?
Mas, e a casa do Mestre? Não se sabe. Não venha dizer que o Mestre morava na carpintaria do pai terreno, o pai a quem ele nunca fez alusão.
A jornada era, repito, debaixo de um sol escaldante ou sob o frio das noites de inverno. Se encontrassem uma casa para pedir água, ou se agasalhar, muito bem.
Mas Jesus só vivia na rua. E na rua, em companhia dos doze apóstolos, ia mostrando serviço, limpando leprosos, dando vista aos cegos, afasrando maus espíritos, levantando paralíticos, multiplicando pães e peixes, ensinando a verdade que liberta. Nunca ninguém viu Jesus repousando numa boa cama, no maior conforto. E ele disse, certa vez, que os pássaros tinhamm seus ninhos, as raposas seus covis, mas ele não tinha uma pedra para repousar a cabeça.
E começou cedo o trabalho da evangelização. Garoto de 12 anos, havia ido a uma festa de casamento em Jerusalém, e na hora de voltar perdeu-se dos pais. Depois de muita procura, foi encontrado debatendo com os doutores, no templo. Ora, vejam só... E a mãe achou de lhe passar um carão por ter escapulido, sem dizer nada a ela.
E a casa onde dormia, comia e descansava? Ignora-se. O sublime andarilho só vivia na rua ensinando, como já disse, a verdade que liberta. A verdade que está nas indagações: Por que estamos no mundo? Será que tudo termina no túmulo? Qual o sentido da vida? E foi de cima de um monte que ele proferiu o mais belo sermão da história da Humanidade. Cuja beleza e profunda sabedoria levou o iluminado líder indiano, Mahatma Gandhi, a afirmar. "Se toda a literatura ocidental se perdesse e restasse apenas o Sermão da Montanha, nada se teria perdido”.
Saíam de madrugada e chegavam à noite. Exaustos, mas com a consciência tranquila. A consciência do dever cumprido. A consciência sem remorsos, que é Deus dentro de nós.
Sem casa, mas, certo dia, proclamou aos que o ouviam, que “na Casa do meu Pai há muitas moradas”. As moradas dos bilhões de planetas espalhados pelo Universo. E a nossa Terra é uma delas. Pensando bem, temos três casas: a do corpo físico, a do planeta que pisamos, a que nos serve de residência, a que Jesus não tinha...
31.8.14
31.8.14
N ão vejo outra definição senão esta: fome de ausência. Fome ou dor? Agora estou na dúvida. Que me ajude o leitor. Dor ou fome, a verdade é ...
Não vejo outra definição senão esta: fome de ausência. Fome ou dor? Agora estou na dúvida. Que me ajude o leitor. Dor ou fome, a verdade é que a saudade deixa a gente em profunda tristeza ou depressão.
Quem na vida já não sentiu saudade? Vá ver que até os animais sofrem dessa falta de presença. Outro dia vi um bem-te-vi botando o bico no mundo, chamando sua companheira. Depois ela chegou e foi aquela alegria. Nada melhor do que um reencontro.
Saudade do filho que vai morar longe, saudade da filha que casou e deixou a casa paterna, saudade dos que saíram deste mundo, saudade... Basta, se não vou buscar logo um lenço pois as lágrimas já estão chegando...
Mas a pior saudade é dos que morreram. E esta saudade ainda mais aumenta, se o ausente se foi para sempre. Um materialista deve sofrer muito mais do que um espiritualista. Para aquele, a morte é o fim. Não há mais possibilidade de um reencontro.
Ele não acredita em espírito. E não acredita porque não o vê. Aí vem a indagação: será que nós vemos nossos pensamentos? No entanto, eles existem.
Mas vamos a outras saudades. Estou me lembrando agora das crianças órfãs. Não há maior sofrimento do que a perda de uma mãe, de um pai, quando ainda criança... Felizmente não passei por esta provação.
A orfandade dói. Daí Jesus, quando ia se despedir do mundo, dizer aos apóstolos: “Não vos deixarei órfãos. Rogarei ao Pai e ele enviará outro consolador”. Que consolador seria esse? Qual a religião ou a doutrina que está consolando as pessoas quando elas perdem seus entes queridos? Qual a religião que prega a mediunidade, a certeza de que os que se foram podem se comunicar? E os coitados dos ateus, que acham que morreu, acabou-se? Será que é feliz quem pensa assim?
O médium Chico Xavier sofreu o diabo depois que sua mãe morreu. Só encontrou consolação na sua mediunidade.
Os que se foram, onde estão? Eis a dramática indagação. Estão no cemitério? E abaixo as “saudades eternas”.
Tudo passa, até a saudade. Viva a alegria dos reencontros, lembrando que, às vezes, eu tenho saudade até de mim mesmo. E eu gosto muito de conversar comigo.
31.8.14
30.8.14
É lá que eu vou, todo domingo, faminto de uma boa comida e de presença humana. Sim, o restaurante se chama Flamboyant. E essa árvore não fa...
É lá que eu vou, todo domingo, faminto de uma boa comida e de presença humana. Sim, o restaurante se chama Flamboyant. E essa árvore não falta ao seu redor, chegando até o telhado, com suas flores querendo perfumar o mundo inteiro.
É, sobretudo, um reencontro de amigos. Silêncio absoluto, conversa baixa, vez por outra uma gargalhada. A comida é integral e muito saudável.
Fui uma vez e fiquei indo, pois quem gosta volta. Sua proprietária, Rossana, é a maestrina desse concerto alimentar. Servida por eficientes recepcionistas, a proprietária é a delicadeza e o bom senso em pessoa. Vez por outra, sai da cozinha e vai dialogar um pouco com os clientes. Só um pouco, pois as cozinheiras, a todo instante, estão rogando sua presença.
Faz muito tempo que o meu domingo se enriquece com essa ida ao Flamboyant. E nada como almoçar num clima de paz, saúde e confraternização humana. Sim, o restaurante de Rossana me fez criar novos amigos. Que bom! Professores, escritores, artistas, não faltam lá. E até criança novinha a gente vê.
E o bom é o silêncio, o cheiro de cultura que ali se encontram. Tudo é “self-service”. Quem prepara meu prato é Alaurinda. E meu prato nunca muda, inclusive a mousse de abacate, como sobremesa.
Referi-me à cultura e disse bem. Você lê frases de escritores nas paredes, inclusive de Ruy Barbosa, anúncio de acontecimentos artísticos, e há livros à venda, inclusive “Viajar é sonhar acordado”, de minha autoria e “Bazar de Sonhos”, do meu filho Germano, solicitados por Rossana.
E antes que a boca fique cheia d'água, vamos frear a crônica, que já se alonga. Lembrando, que lá, de bebida só água de coco.
Cá entre nós, a refeição é o momento mais sagrado de nossa vida. Outrora, muito outrora mesmo, a refeição obedecia a
um ritual. E o pai lembrava um maestro. E tudo com silêncio. Refeição com barulho é uma estupidez.
Mais uma vez parabenizo a maestrina da cozinha, Rossana, pelo bom serviço que está prestando à comunidade.
É domingo? Já sabem, o cronista e a esposa sabem para onde ir. E haja folga para a nossa cozinheira, que também merece e deseja mudar.
30.8.14
30.8.14
T udo começa com a Bíblia, quando diz que a mulher nasceu de uma costela do homem, a costela de Adão. Ora vejam só... Não contei ainda nos e...
Tudo começa com a Bíblia, quando diz que a mulher nasceu de uma costela do homem, a costela de Adão. Ora vejam só... Não contei ainda nos esqueletos de ambos para constatar essa diferença costelar.
Dizem que a mulher é o sexo fraco. Discordo. E para argumento em favor de minha tese, basta citar a maternidade, uma árdua e dolorosa missão que, talvez, muitos homens não aguentassem.
Os poetas de antigamente diziam que numa mulher não se bate nem com uma flor. Tenho certeza de que as mulheres de hoje rejeitariam tal amabilidade. A mulher não deseja mimo, mas muito respeito aos seus direitos. E se foram muito discriminadas, na antiguidade, hoje dominam em todos os setores da sociedade, a começar pelo militar. Mulher fardada, com um baita revólver no cinto, é o que mais se vê hoje em dia. E para coroar sua marcha existencial, eis o sexo, outrora fraco, no três poderes. Quem diria... Mulher estadista, mulher mandando. E ela não aceita aquela música do nosso Gonzaga, chamando-a de “mulher-macho, sim senhor". A mulher deseja ser mulher, mulher-mãe, mulher médica, mulher juíza, mulher enfermeira.
Mas, dando uma voltinha no passado, a mulher foi muito discriminada, E sabe que, outrora, uma mulher menstruada era discriminada, tida como impura? Ora, vejam que estupidez. E o homem, que nasceu da mulher, que habitou o seu ventre por nove meses, que se alimentou do seu leite, ainda se considera o sexo forte. Nove meses com o filho no ventre. O homem não engravida, embora muitos deles estejam com a barriga maior do que de uma grávida, a ponto de não ver mais os pés.
É grande a divida da sociedade para com o sexo feminino, sexo erroneamente chamado de fraco. A mulher foi tão discriminada, violentada e humilhada, como o negro. E ainda é em muitos países árabes que as obrigam a esconder o rosto e o sorriso.
Mas, ninguém como Jesus dignificou o sexo feminino. Soube valorizá-lo e respeitá-lo. E apesar de tantas conquistas, a mulher ainda é alvo de muitos preconceitos. Em muitas correntes religiosas, ela ainda é discriminada. E fico pensando: quando é que teremos uma Papisa, nome que só existe no dicionário? Mulher-papa, e daí?
Pelo gosto de Jesus, decerto a mulher teria sido apóstola, sujando as sandálias de poeira, na caminhada evangélica deserto a dentro.
Mulher esposa, mulher mãe, mulher tudo, hoje. E para concluir, deixo o computador para agradecer, em pensamento, a bela Nova Zelândia, que tive a felicidade de visitar, duas vezes, por ter sido o primeiro país a admitir o voto feminino. A mulher nem votar podia...
Para concluir, que tal uma ligeira referência à maneira como Jesus soube tratar as mulheres. Jamais a humilhou. Pelo contrário, sempre procurou dignificá-la. Compreendeu a mulher adúltera, ensinou à samaritana, era amigo de Madalena, a quem primeiro apareceu depois que ressuscitou, advertiu Marta, irmã de Lázaro, muito ocupada e preocupada com as coisas do mundo e esquecendo a verdade que liberta. Eis a razão das mulheres o adorarem. E uma delas chegou, um dia, a enxugar os seus pés com os cabelos. E isto na casa de um fariseu, que censurou aquele gesto de muito amor. Termino a crônica dizendo: as mulheres jamais crucificariam o meigo nazareno. Daí elas terem muita coisa de divino.
30.8.14
30.8.14
C om Paris molhada e fria, qual a melhor opção? Que tal assistir a um concerto nas Salas Pleyel, na Sala Gaveau, ou no Teatro Champs Elysées...
Com Paris molhada e fria, qual a melhor opção? Que tal assistir a um concerto nas Salas Pleyel, na Sala Gaveau, ou no Teatro Champs Elysées? Que tal um passeio pelo Louvre, pelo Orsay ou uma livraria?... Que tal um restaurante, que aqui na Cidade Luz é o que mais se vê. Gosto de ver as pessoas conversando, sorrindo e comendo nos restaurantes. Se não existisse a boca que seria do turismo? Conquanto sempre se falando baixinho, os idiomas se chocam nas animadas conversas, e às vezes, até se escuta um parabéns pra você, de um grupo comemorando um aniversário. Como somos amigos da velhice a ponto de cantar parabéns para quem completa mais um ano de existência!... As pessoas costumam dizer: “ele completou mais uma primavera”. Por que não um outono ou um inverno?
A verdade é que sem restaurantes não haverá turismo. Chegam até a dizer: “Bacalhau só em Lisboa”. Concordo em parte, pois foi, aqui em Paris, que também me deliciei com um gostosíssimo bacalhau, sem falar o delicioso que a nossa chefe de cozinha, aqui de Tambaú, sabe muito bem preparar.
Falei em livrarias, museus, salas de concerto e me esqueci da maior casa de espetáculos de Paris, que é a Ópera Garnier, que não se deve conhecer somente por fora. Que beleza de teto, que luxo, que grandiosidade artística em todos os detalhes! E eu com medo de tropeçar nos luxuosos tapetes, já que nossos olhos estavam passeando pelos belos tetos daquele luxuoso templo da arte.
Essas oportunidades de rever a Ópera, sempre devemos ao planejamento cultural do comandante de nosso grupo, meu filho Germano. E sabe qual foi o último cardápio? Tome nota: “O Anão”, de Zemlinsky; e “A criança e os sortilégios”, de Ravel, baseado num conto de Colette. E eu não conseguia tirar o olho do teto da platéia, pintado por Marc Chagall...
O teatro enorme, chamando a todo instante o nosso olhar de contemplação. Fui me demorando, me demorando e, de repente, não vi mais ninguém. Até os meus familiares já estavam lá fora, quando duas moças recepcionistas, muito bem uniformizadas, que estavam à porta, vieram me chamar, pois a Ópera ia fechar...
30.8.14